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sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

O PISA e o Ridículo

O desconforto de quem protagonizou a oposição à ex Ministra da Educação, Maria de Lurdes Rodrigues, com os resultados agora publicados pelo PISA 2009, tem sido notório. Se fosse uma reacção digna, seria apenas isso – um desconforto. Mas não. Como os resultados não estão conforme as teses de descalabro eminente do sistema, então abundantemente defendidas para justificar a oposição às medidas propostas, os seus autores resolveram agora afanar-se na contestação ao PISA.

A maioria, básicos, começaram por atribuir os resultados ao facilitismo da avaliação sem cuidar de perceber que a avaliação é idêntica em todos os países participantes. Os sofisticados, a minoria, optaram por atribuir os resultados ao acaso. A óbvia fragilidade dos argumentos de uns e outros, oportunamente esquecidos de que antes usaram outros PISA como sólido suporte de contestação, foi salva pelos sindicatos, que vieram a público explicar em definitivo o fenómeno: os professores teriam resolvido dar uma chapada de luva branca na Ex-Ministra, arregaçando as mangas e trabalhando ( ?!) .

Poderia ilustrar o texto com vários links mas não gosto de contribuir para potenciar o ridículo de quem a ele assim se expõe. Quando se trata de classes profissionais inteiras, além de desgostoso fico também preocupado. Mas tratando-se de uma classe profissional que tem responsabilidades acrescidas na sociedade do futuro, “desgostoso” e “preocupado” não descrevem cabalmente o que sinto perante a imbecilidade desta reacção.

Considero que na Escola a falta de exemplos de referência é pior que quaisquer insuficiências de preparação cientifica ou pedagógica de muitos professores. Na verdade interessam-me menos os comparativos, sejam os resultados do PISA em ciências, matemática ou literatura , que a formação cívica e humana das criaturas que estão “condenadas” a passar na Escola uma parte muito significativa das suas vidas. A sensatez auto-critica que evita a exposição ao ridículo é uma parte importante dessa formação e cultiva-se pelo exemplo. Mas não com exemplos como este que os professores de novo nos deixam. Não me surpreenderam porque são coerentes com as invectivas ad-hominem em que usavam à saciedade o epíteto de “vaca” ( versão soft ) para nomear o adversário politico. Não me surpreendem, mas continuam a envergonhar-me!



quinta-feira, 18 de novembro de 2010

A Guarda Verde

Quando nos finais dos anos sessenta do século passado Mao-Tsé- Tung achou que a sua revolução estava a descambar, convocou os chinocas mais novitos, passou-lhes para as mãos um livrinho com a sua versão dos mandamentos e mandou-os “reeducar” o povo pela nova cartilha. Ficaram conhecidos por “guardas vermelhos” e a sua intervenção na sociedade chinesa para repor a revolução nos carris que Mao idealizara está bem documentada .

Tal como muitos outros personagens, nem todos célebres, também Mao percebeu que a juventude é um campo fértil para cultivar doutrinas. Como naturalmente lhe falta experiência de vida e tem pressa de mundo, a rapaziada é mais receptiva a soluções idílicas do que a dúvidas concretas. Aprender a questionar sempre dá mais trabalho e requer mais tempo do que a papaguear ideias pré-fabricas. Por isso, independentemente do seu valor intrínseco, qualquer proposta inovadora constitui um plus para a incontornável vocação catequista do activismo juvenil. E daí não viria mal de maior ao mundo se nele não houvesse quem tivesse percebido como usar essa disponibilidade para dar corpo a agendas no mínimo questionáveis.

Poderia pensar-se que actualmente o mundo estaria mais sensato e evitaria esses abusos da idade da inocência, mas não é o que parece. A demonstrá-lo está aí um remake da actuação da guarda vermelha em horário nobre e na televisão pública. Armada de uma cartilha pseudo-científica e motivada pela fantástica ideia de que o planeta precisa de ser salvo, uma simpática miúda camufla-se de tonta e entra pelas casas da malta a etiquetar a eito de “culpado e eco-criminoso” o desprevenido consumidor. E o coitado pasma! Boquiaberto, nem sequer consegue questionar como é que a mesma caixinha que passa o dia a incentivá-lo a comprar tudo e mais alguma coisa, tem o topete de o vir insultar às dez para as dez quando o gajo finalmente se senta em frente ao televisor e se prepara para rematar mais uma esgotante jornada de produção consumindo o telejornal da Felgueira ! Não fosse a estupefacção e decerto punham a moça na rua. Mas não. Revelando um notável estoicismo, submetem-se. E a procissão lá foi fazendo o seu caminho sem que o Sr Paquete de Oliveira dê mostras de ter algo a dizer.

O programinha chama-se “desafio verde” e não é novo mas mudou de atitude! Uma mudança que não passaria de mais um  desvario televisivo se não se desse o caso de várias escolinhas e muitos professores fofinhos apoiarem e promoverem a iniciativa. Acham, dizem, que estão a fazer educação ambiental. Mas o que assim revelam é que são uns imaturos semi-instruidos que não percebem nem o que é educar nem o que é ambiente. Levianamente, estes kidos estão apenas a fazer da escola uma variante verde aos campos de treino onde se doutrinavam as juventudes maoistas. E a contribuir activamente para que o site recentemente criado pela PGR para recuperar a tradição pidesca dos bufos, possa também vir a revelar-se um enorme sucesso para a denúncia verde anónima.

domingo, 7 de dezembro de 2008

O Empate


Embora com objectivos idênticos, de defesa de interesses de classe, as corporações não são todas iguais. As funções que desempenham determinam as suas estratégias de actuação mas, além disso, também diferem nas condições concretas que estão na origem da composição do seu património humano. Concretizando, enquanto a classe médica é composta por profissionais que encararam a medicina como primeira opção, há muita gente na classe de enfermeiros que gostaria de ter entrado em medicina...mas que não entrou. Claro que daqui não resulta de todo que sejam maus profissionais por isso. Mas a verdade é que existem áreas profissionais que de alguma forma têm funcionado como uma espécie de “posta-restante” para quem, pelas mais variadas razões, não conseguiu seguir a via que desejava. Neste aspecto, o caso da docência é paradigmático.


Nos últimos vinte e tal anos, a via do ensino tem sido para muitos a última porta de acesso ao ensino universitário. Faça-se um estudo dos processos de candidatura ao ensino superior e percebe-se bem do que falo. Este, em geral e na via do ensino em particular, teve óbvias e conhecidas dificuldades para conseguir responder proporcionalmente em qualidade ao crescimento que ocorreu na sua procura. Entretanto, licenciados noutras áreas com o mercado de trabalho saturado, também acabaram por encontrar no ensino a alternativa possível. Claro que daqui não decorreriam razões válidas para explicar qualquer tipo de menor empenho ou competência da classe docente. Quer dizer, não decorreriam se se soubesses que a formação de uns e outros se tinha pautado por critérios de exigência ao nível dos conteúdos objectivos de conhecimento técnico, cientifico ou pedagógico, e não terá sido sempre assim. Nisso o Ensino Superior tem importante quota parte de responsabilidade, e se recordarmos as tradicionais guerrilhas de notas finais, ficamos bem ilustrados. No entanto, ainda assim, nada que não fosse possível ultrapassar se à entrada da escola os candidatos à docência fossem encontrar um enquadramento que ajudasse a suprir as deficiências naturais que trazem consigo. Mas quem é que nas ultimas décadas os tem recebido quando lá chegam ? Uma malta grisalha e nem sempre bem disposta que tem um percurso de vida muito particular e insuficientemente compreendido pelas gerações nascidas a partir da década de sessenta.


No período pós 74, as estruturas do ensino ( e outras, mas hoje é destas que falamos ) foram “reforçadas” por uma rapaziada muito simpática de duas origens distintas: PREC e ex-colónias. Quem veio do PREC teve nele mesmo a sua principal habilitação. Resumidamente, pode-se dizer que nos meios universitários o tempo do PREC foi uma espécie de “experiência pedagógica de ensino de massas”, em que a tradicional frequência das cadeiras foi substituída com sucesso ( a avaliar pela quase inexistente taxa de reprovações… ) pela participação em RGA’s, RGE’s, Manif’s ( próprias e alheias …) e outros eventos afins, tipo sessões de esclarecimento do MFA. Essa experiencia teria sido um elemento curricular de vulto se tivesse permitido a quem a fruiu empenhadamente perceber a diferença entre idealismo e praxis politica e transportar esse conhecimento para os seus futuros profissionais . Mas, do que conheço, o que transportaram para o futuro, nomeadamente para dentro das escolas, foi um contagiante “nacional porreirismo” que até poderia ter contribuído para criar um ambiente ainda mais descontraído no meio escolar se não fosse o caso de ter colidido de caras com um outro grupo de gente que na altura chegou a Portugal com muitas e boas razões para estar mal disposta: os retornados. Seguiram-se tempos tensos em que a resolução dos problemas do ensino e da aprendizagem que vinham de trás foram preteridos pela urgência de conseguir um “encaixe” funcional destas distintas disposições. Eventualmente esse encaixe foi conseguido mas segundo lógicas de pacificação que não contribuíram em nada para responder de forma eficaz e organizada ao tremendo crescimento da escolaridade que entretanto se verificou. Não contribuíram porque se tratavam de culturas distintas, de disponibilidades distintas, e ainda porque se fizeram sobre uma re-hierarquização anómala que resultou de um incidente administrativo. É que o desempenho público de funções idênticas fruia no ultramar ( a titulo de incentivo à colonização ) de um estatuto mais elevado na carreira , que se manteve quando do retorno, e se instalou como um vírus na função pública, degenerando numa alteração de hierarquias que acabou por conduzir à desestruturação pura e simples de qualquer noção de autoridade como sinónimo de competência ou do seu exercício enquanto tal. Esta cultura, cozinhada sobre uma paz mal negociada, passou a acolher, aculturar e integrar as novas vagas de pequenas, médias ou grandes frustrações que desaguaram no ensino. Como também acolheu, exasperou, e depois assimilou ou escorraçou, os fluxos minoritários de competência que chegaram ao ensino por opção. Aos grisalhos acantonados, a última coisa que lhes interessa é ter de demonstrar no fim da vida profissional, competências que nunca adquiriram; aos poucos competentes que percebem isso, a última coisa que interessa é serem avaliados por quem obviamente não tem capacidade para o fazer; quanto à restante maioria faz o que sabe fazer melhor - aposta no “x”!

De facto, o “empate” tem sido, desde 74, a grande estratégia da classe docente para gerir a paz podre que esconde, dentro desse autêntico saco de gatos que é a escola, rivalidades, frustrações, incompetências, nepotismos e comodismos difíceis de adjectivar. Por isso é que nunca houve ministro ou tentativa de reforma que tivesse merecido nota positiva. Ora, como é óbvio, o esquecimento tácito destes incidentes da história recente, são muito convenientes para o corporativismo instalado. É que, a par do tremendo deficit de cultura democrática vigente, são estas razões e não outras que definem o entrave estrutural à mudança no sector da educação, uma vez que explicam o processo de construção de um capital humano individualista e conservador e ajudam a entender a essência da sua tradicional aversão à cooperação institucional e a reformas que ao pretenderem avaliar desempenhos irão inevitavelmente trazer à superfície demasiadas verdades inconvenientes .

domingo, 23 de novembro de 2008

Reformas ou Revoluções (III)


Já se escreveu muitas vezes que um dos aspectos fundamentais na mudança ocorrida do autoritarismo para a democracia em países como Portugal ou Espanha foi a transição de um "corporativismo autoritário" para aquilo a que se veio a chamar o "neo-corporativismo". No caso Português houve pelo meio o tempo algo atípico do PREC. Mas o clima de prosperidade económica que decorreu da integração de Portugal na CEE criou rapidamente condições objectivas de bem estar social que retiraram ao movimento sindical espaço de manobra nas suas reivindicações tradicionais e conduziu ao seu aburguesamento corporativo. Assim, o modelo geral de relacionamento entre o estado e os interesses sociais permitiu que se fossem emulando alguns aspectos das versões mais consolidadas deste sistema ( corporativo ) existentes no norte da Europa, em particular o estabelecimento de acordos entre governos, sindicatos e organizações patronais em matérias tão carecidas de compromissos estáveis como as políticas salariais, laborais e de segurança social.

Contudo, algo que tem sido frequentemente negligenciado é o facto de este corporativismo centralizado e trilateral coexistir com uma série de outros sub-sistemas de relações entre o poder político e os interesses organizados. Em muitos casos, tratam-se de sub-sistemas em que os interesses em causa são os de "insider groups", que dispõem de acesso directo ao poder político e estão até, por vezes, localizados no interior do próprio aparelho de estado. Ao longo das últimas décadas, estes grupos de interesse foram exercendo direitos formais e informais de participação nos processos de tomada de decisões políticas que os afectam, sendo eles quem, de facto, parece ter determinado a direcção de políticas públicas absolutamente centrais como a saúde, a justiça ou a educação.

Esta dinâmica aumentou também o fosso entre a cidadania e os processos de decisão. Uma teia complexa de intermediários que se eternizam nos cargos de representação a ponto de se confundir com eles, e a consequente promiscuidade assim criada entre os principais actores do processo social, conduziu a politica de facto para os bastidores da esfera pública. Ao mesmo tempo, a democracia passou a ser-nos servida em directo e exclusivo pelos média através de um guião de género dramático equivalente à pior literatura de cordel e com uma realização que deve ter nas telenovelas mexicanas a sua fonte de inspiração. Afigura-se-me que o resultado conjugado destas duas derivas é a persistente imaturidade cultural da nossa vida democrática. Imaturidade dos políticos, que reduzem a politica democrática a jogos de poder. Imaturidade das politicas democráticas , que se organizam em redor de consensos que funcionam como meros menores denominadores comuns da conjuntura. Imaturidade democrática da cidadania, que é absentista de todo ou é absentista de facto ( pois esgota a sua participação democrática num acto eleitoral ), que confunde liberdade com recusa da autoridade democrática, que não compreende o sentido da alternância , e que vive na convicção ( progressista-materialista ) de que a prosperidade desejada é uma mera questão de distribuição de riqueza e tem desta a noção consolidada de coisa adquirida.

Ou seja, e em bom português, estamos para a vida democrática como certas infâncias mimadas e mal-educadas estão para a vida adulta responsável. Naturalmente, não esgotei o tema. Mas julgo ter deixado algumas ideias para ponderar em contexto mais amplo o fenómeno da recusa dos professores à avaliação segundo prismas menos simplistas que as eventuais deficiências do modelo. Pelo menos a questiúncula gerada em redor deste permite para já avaliar o estado da nossa democracia. Como se vê, nunca se perde tudo. No caso, percebe-se que sabemos de cor a letra e a música da cartilha dos direitos. E que do capitulo dos deveres retivemos a noção “bastante” de constituírem as obrigações dos outros para satisfazer as nossas necessidades pequeno-burguesas. De tal modo que se chega ao ponto de afirmar publicamente que o exercício da oposição não implica a apresentação de alternativas e a ter dela, oposição, a ideia idiota de uma espécie de guerrilha “legitima” para contrariar o exercício do poder democrático com recurso a uma qualquer berraria fulanizada e de baixo nível. E digo idiota porque nem repara que o insulto aos eleitos, independentemente dos motivos, desmerece antes de mais o eleitor e o regime. A menos, claro, que seja essa mesma a intenção.

sábado, 22 de novembro de 2008

Reformas ou Revoluções (II)


Ao que parece, o governo em funções desejou ser visto pela opinião pública como tendo colocado o combate aos grupos de interesse corporativos no topo das suas prioridades. É uma estratégia que aparenta algumas vantagens. Em primeiro lugar, ela tem servido para enviar ao eleitorado a mensagem de que os "sacrifícios" que lhe vão sendo impostos afectam também os "privilegiados", favorecendo assim a aceitação geral de uma política económica que, noutras condições, já teria trazido maiores perdas de popularidade. Em segundo lugar, ela transfere os conflitos com estes grupos do interior dos gabinetes onde eram normalmente resolvidos em privado, para um terreno muito mais favorável ao governo, a praça pública. Como se tem visto, quando expostos à luz dos holofotes, os representantes destes grupos revelam como é escasso o seu repertório de acção colectiva (que raramente tiveram de usar no passado) e como são ineptos no cumprimento de uma tarefa que os políticos desempenham com frequência e habilidade (mas que eles nunca tinham precisado de aprender): a de apresentar a defesa de interesses particulares como sendo também a defesa de interesses públicos. O resultado final é previsível. Em geral, a opinião pública só é favoravelmente influenciada pelas posições tomadas por organizações cujas causas são potencialmente partilháveis por todos, tais como, por exemplo, as dos direitos humanos, o ambiente ou a segurança rodoviária; quando essas causas são construídas como "egoístas", o efeito que geram na opinião pública é, na maioria dos casos, de repulsa.
Sucede que esta estratégia não está isenta de riscos a mais longo prazo. Quando Margaret Thatcher chegou ao poder no Reino Unido, também ela sonhava com a possibilidade de estabelecer uma relação directa entre o poder político e o eleitorado, curto-circuitando o papel dos grupos de interesses na formulação das políticas públicas. Beneficiando de um grau de centralização da autoridade política inédito fora de períodos de guerra e com um partido aparentemente domesticado, Thatcher encarregou-se não apenas de destruir o poder dos sindicatos (coisa que Blair lhe agradece eternamente) mas também de enfrentar aquilo que ela - tal como a maioria dos britânicos - encarava como uma união perversa entre a burocracia estatal e os interesses particulares de professores, médicos, enfermeiros e outros.
O que se seguiu, contudo, foi a degradação geral da qualidade dos serviços públicos no Reino Unido, que terá jogado um papel não desprezível no declínio e fim do thatcherismo. Nuns casos, isso sucedeu porque a saída encontrada para os conflitos com os interesses instalados - a privatização - só serviu para substituir esses interesses por outros e, pelo caminho, para conduzir a desempenhos ainda piores. Noutros casos, porque só tarde demais se terá percebido de onde realmente provém o poder destes grupos profissionais e corporativos: do conhecimento especializado de que dispõem e do grau de autonomia inerente às funções que exercem. Independentemente das razões que tenham ou da falta delas, é isso que lhes permite neutralizar no terreno muitos dos efeitos desejados de quaisquer reformas decididas por qualquer governo, e é isto que exige que a sua colaboração seja, em última análise, necessária para o sucesso das reformas.
Há pois uma linha que separa a indispensável demonstração de autoridade política por parte de um governo democrático da bravata improdutiva e demagógica. É uma linha muito estreita, que , para benefício geral, talvez devesse ser atravessada com menor frequência. Mas isso não legitima nem basta para explicar as razões que levam os interesses neo-corporativos instalados a reagir como inocentes virgens ofendidas quando são afrontados os seus interesses de classe. E ainda não foi desta que consegui dar por concluída esta saga.


sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Reformas ou Revoluções (I)

Existem acontecimentos que a história regista como revoluções mas que na realidade nunca passaram de simples mudança de protagonistas do processo social e da ideologia que os justifica. E, no pólo oposto, há iniciativas que são propostas e apresentadas como meras reformas mas que correspondem ou implicam autênticas revoluções. Na actualidade nacional é isso que a meu ver se passa com a reforma do sistema de ensino. Vamos a ver se consigo explicar por que o afirmo a partir da polémica em torno da avaliação dos professores.

A panóplia de acepções do conceito de avaliação poderá com alguma segurança ser sintetizada com recurso a duas noções que lhe estão associadas: objectivo e medida. Ou seja, de uma forma geral avaliar é tentar estabelecer uma medida que dê ideia da realização de objectivos estabelecidos em função de um normativo qualquer. Mas, com que interesse ? Duplo: hierarquizar e corrigir. Hierarquizar a realidade em função de um critério valorativo e corrigir os processos de persecução dos objectivos ou os próprios objectivos em si. Portanto, a boa avaliação, não se limita a pretender separar o trigo do joio. Ela pretende também a melhoria do processo que conduz a essa separação. E no limite, pode, inclusive, ajudar a determinar se a separação se justifica.

No quotidiano, avaliar tornou-se tão natural como respirar. É isso que fazemos quando escolhemos entre duas peças de vestuário, entre duas carreiras de autocarro ou entre dois restaurantes. E todos sabemos que para o mesmo objectivo, seja vestir, viajar ou jantar, os critérios de avaliação que usamos mudam no tempo e com as circunstancias, bastando para isso que se altere o nosso padrão de exigência, a nossa disponibilidade financeira ou o humor da companhia . Portanto, avaliar serve um terceiro propósito: compatibilizar. Isto é, procurar o melhor equilíbrio entre o desejável e o possível. E esse principio é igualmente válido na nossa vida privada como no funcionamento das instituições em redor das quais se organiza a nossa vida social.

No entanto, entre as nossas avaliações pessoais e a avaliação institucional, existe uma diferença importante: enquanto na primeira somos nós os avaliadores, na segunda passamos a avaliados. Ou seja, altera-se a perspectiva do critério de utilidade. No primeiro caso somos nós quem questiona a utilidade do que nos rodeia; no segundo é a nossa utilidade que é ponderada.

A utilidade social do individuo é uma daquelas polémicas que estará sempre inesgotada. Por agora contorno-a recorrendo ao chavão de que somos criaturas sociais e portanto a vida em comunidade é algo inerente à nossa existência. Ora a existência de uma sociedade implica sempre algum tipo de contributo para o conjunto, e nas sociedades mais sofisticadas a especialização de tarefas e a troca dos respectivos serviços são mesmo a situação corrente, pelo que se torna inevitável que o desempenho de cada um esteja em permanente escrutínio. Ácontece que desse escrutínio resulta a sobrevivência dos “mais aptos” ( lato senso e com todas as aspas que quiserem ) e o eterno problema da inclusão dos “menos aptos”.

O facto de terem sido reconhecidos ( e bem ) inaceitáveis deficits de equidade dos critérios de estratificação convencionais, desaguou para já na modernidade democrática, cujo contrato social contempla a igualdade entre indivíduos como principio e o progresso como objectivo. Mas uma coisa é a equidade como principio, o direito a tratamento não discriminatório perante a lei, no acesso à educação, à saúde ou ao que quer que seja. Outra, bem distinta, deduzir do direito à equidade que todos temos um potencial equitativo de desempenho em qualquer que seja o contributo social que nos seja solicitado para o tal progresso em democracia a que estamos contratualmente obrigados. Ora não é assim. Nem tudo se educa ou aprende do mesmo modo e há características inatas e outras de personalidade que tornam uns mais capazes que outros para tarefas concretas. Contudo, e por estranho que possa parecer, embora toda a gente conviva pacificamente com esse facto quando se aplica à utilidade do outro, seja ele o ministro ou o pedreiro, em culturas como a nossa são poucos os de nós que estão disponíveis para o aceitar quando se aplica à utilidade da nossa excelsa pessoa. E quando essa atitude está tão bem incorporada que faz parte da nossa própria identidade, qualquer medida que se assemelhe a questioná-la e a alterar práticas igualitaristas, não é uma reforma, mas uma revolução cultural descontextualizada.

Bons amigos que tenho a sorte de contar entre a classe docente, têm-me feito chegar ecos do surpreendente ( até para os próprios ) unanimismo na reacção ás reformas introduzidas no sistema . No entanto, quando solicitados para expor os argumentos em que se apoiam na sua contestação, os que usam são de uma tal fragilidade e incoerência que autorizam a ilação de que as objecções de facto nada têm a ver com um modelo de avaliação concreto, qualquer que ele seja, mas com uma muito mais complexa conflitualidade intrínseca com o exercício da cidadania em contexto democrático-progressista. Naturalmente, terei que regressar ao tema.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2007

Descubra a Vaca Genuína

“ Descubra a vaca genuína”.

Era este o desafio do ficheiro anexo ao e.mail que me entrou pelo pc.
Duplo click sobre a coisa e o ecrã encheu-se com uma montagem de vários slides com os magníficos motivos pictóricos das réplicas dos exemplares bovinos que andaram “pastando” Lisboa no ano passado. E, entre eles, no canto superior direito, em destaque, a fotografia da Sra Ministra da Educação.

O ficheiro não terminava aqui, mas fiquemos pelo essencial. Como remetente, um professor conhecido.

Ocorreram-me logo na altura duas dúvidas. Tentei esclarece-las com o autor ou difusor da iniciativa, enviando-lhe duas perguntas.

A primeira questão pretendia saber como é que ele reagiria se a iniciativa tivesse sido empreendida por alunos seus, na sua escola, e homenageasse, naqueles exactos termos, a excelentíssima senhora sua mãe, a virtuosa namorada, a digníssima esposa, ou a angelical irmã .
A segunda indagava, na eventualidade de se identificarem os autores da “gracinha”, em que termos e com que consequências é que este professor iria exigir que decorresse o respectivo processo disciplinar .

Passados quinze dias e na sólida ausência de qualquer esclarecimento, vejo-me perante uma de duas ilações: ou estamos numa encruzilhada civilizacional em que o aquecimento global plastificou de tal modo a coluna dorsal dos homens e mulheres do nosso tempo que já nada os ofende e portanto nada é passível de ser considerado ofensivo, ou então prevalece a convicção de que a ética é uma couve.


Em qualquer dos casos fica-me a dúvida suprema de tentar perceber como é que ilustres professores que concebem, promovem e divulgam pública e orgulhosamente esta e outras iniciativas semelhantes, ou aqueles que pacificamente convivem com elas, se dão ao respeito e disciplinam as turmas com que trabalham. Será à chapada ?! E depois admiram-se se um aluno mais encorpadote devolve na mesma moeda ?!E nesse caso culpam quem ? A Ministra da Educação ?!

Estou esclarecido !!

quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

A Xuxa


Já havia uns bons tempos que não via a Xuxa. Aconteceu há dias cruzarmos caminhos em frente da Casa Inglesa e logo ali abancamos a pôr a escrita em dia.

A Xuxa anda que nem pode!


Professora efectiva na EB 2/3 nº 10 desde que concorreu ao ensino para evitar a fila de desempregados que se estendia à porta de saída do curso de Embalagem em Papel Celofane de Produtos Horto-Frutícolas de Elevada Sensibilidade Estética (foi o único onde conseguiu entrar com a nota que levava do secundário…), vê com natural apreensão as medidas que a Ministra da Educação tem andado a inventar.
- Malvada mulher!- desabafa a Xuxa visivelmente agastada!

Vinte e sete anos de carreira, dispensada há vinte e dois da componente lectiva, 10º escalão, dois mil e tal euritos ao dia vinte e trés de cada mês, certinhos que nem um fuso, a responsabilidade de assinar as notas de encomenda dos livros para a biblioteca que a Irene lhe prepara (a Irene é a funcionária da Biblioteca da Escola e tem tanto jeito que a Xuxa lhe dá carta branca…) e não é que está em risco de ir parar a um lista de excedentários?!

De luto carregado, a Xuxa não tem falhado uma única das manifestações que os sindicatos têm organizado em Lisboa. Vai na manhã da véspera, dá uma volta pelos centros comerciais, faz as suas compritas, encontra-se com a Luísa à saída do emprego, jantam, cavaqueiam e acabam a noite a dançar rumbas na Salsa Latina (a Xuxa adora os ritmos latino-americanos e já fez tantos cursos de danças de salão quantos pôde…). Na manhã seguinte manifesta-se um bocadito, grita de longe meia dúzia de palavras de ordem, vai almoçar com a do meio que é caloira de Marketing Jornalistico e Assessoria Politico-Económica no Contexto do Aquecimento Global (tudo isto escrito em inglês técnico, bem entendido) e regressa nas calmas, segura de que entretanto a Nhureyeva (a ucraniana…) lhe garantiu a boa ordem doméstica.

A Xuxa é honesta: nunca teve grande queda para dar aulas. E as coisas também não se proporcionaram, essa a verdade. Quando efectivou já estava grávida. E depois de duas gravidezes de risco indefenido consecutivas, respectivas baixas, partos, férias, licenças de parto, artigos e noites mal dormidas, quando ao fim de cinco anos teve de regressar às aulas, não se sentia nada à vontade. Aborrecida, foi ao médico que lhe diagnosticou uma depressão dupla e complexa. Convocada a junta médica presidida pelo Carlos…
- O Carlos?!...
- Sim…então não sabes ?!...aquele amigo do Xavier…
(O Xavier é o consorte da Xuxa…)
a Xuxa conseguiu dispensa da componente lectiva e o António...
- O António ?!...
- Sim... o marido da Vicência (a Vicência é amiga da Xuxa desde o berço e já à data era presidente do Executivo) entregou-lhe a Biblioteca e Deus deu-lhe a Ivone!

Dispostas assim as coisas, logo tinha que ser agora, com as moças já criadas e avó, a meia dúzia de anos da merecida e almejada reforma, que lhe querem por a vidinha de pernas para o ar ?!
- Era só o que faltava !!! Comeram-me a carne?Pois agora roam-me os ossos!

Pagas as bicas e as águas, a Xuxa despede-se apressada. É terça-feira, são duas da tarde, os calores do São Martinho ainda aí andam a convidar à praia e ela ficou de ir buscar mais cedo o neto ao infantário.
- Sabes… tem andado com fastio…e o médico receitou ar do mar….
Já de abalada, Xuxa ainda voltou atrás para um último desabafo.
- Tu já reparaste nos olhos dela quando fala? Parece que deitam chispas! Diaba de Ministra…devia dar-lhe uma dor de barriga tão grande, tão grande, que deitasse a correr e quanto mais corresse mais lhe doesse, e se parasse, arrebentasse !!


Nota do autor: Não sendo esta crónica uma obra de ficção, qualquer semelhança com factos ou personagens da vida real, deverá, no entanto, ser considerada mera coincidência !

quinta-feira, 1 de novembro de 2007

Maria Gambina


O sorriso do cartaz é bonito e está identificado como pertencendo a Maria Gambina. O décor da foto, é o de uma lavandaria. O cartaz, identifica-se como tendo sido produzido por um serviço qualquer do Ministério da Educação, está afixado nas entradas de estabelecimentos de ensino e informa quem o lê que a Gambina está ali de engomadeira porque…não concluiu os estudos!
Há Já algum tempo, uma publicidade institucional, tendo por protagonista o sr Carlos Queirós a fazer a manutenção de um recinto desportivo, e que culminava na declaração de que teria sido aquele o seu futuro se não tivesses estudado, tinha-me chamado a atenção. Tirei as minhas ilações mas, distraído, imaginei que se tratasse apenas de um daqueles fenómenos pontuais e efémeros que por isso não mereciam mais considerações. Não é assim. Estamos perante uma vasta campanha que desde logo nos ensina três coisas.
A primeira é que as profissões se dividem em dois grandes grupos: as meritórias, e as outras. A segunda, é que, quem não exerça uma das profissões constantes do inventário das “meritórias”, é um falhado. A ultima, é que a escola tem o monopólio das virtudes necessárias para alcançar o Santo Graal dos tempos modernos - menção na Forbes !
Deve-se então supor que o “sucesso” de personalidades como os Senhores Comendadores Joe Berardo ou Rui Nabeiro, advém dos seus impressionantes currículos académicos? É melhor não, pois pode supor-se mal ! Mas decerto concorda-se que uma formação académica adequada, na medida em que potencie a capacidade de especulação bolsista, a fuga ao fisco ou o contrabando, uma vez que estes são óbvios caminhos de “sucesso”, é meritória. Certo ?
Excepções à parte, está pois assente que, não há “saber”, não há “cultura”, não há “conhecimento”, que seja possível apreender fora do espaço da escola. Nem mérito que possa advir de conhecimentos adquiridos num espaço familiar cuja actividade profissional não se inscreva na lista “das de mérito” ! Portanto, deveremos interiorizar como normal que, na sociedade “desenvolvida” que pretendemos, constituída por cidadãos ”letrados” e de “sucesso”, haja tarefas e ocupações “menores” que, como tal, devem ser exclusivamente desempenhadas por emigrantes ucranianos ou cabo-verdianos. É isto ?
Se é, ocorre-me recomendar aos inúmeros licenciados que temos e que não conseguem encontrar colocação compatível no mercado de trabalho, que é preferível dar o nome para o subsidio de desemprego e ficar em casa do que…ganhar honradamente o sustento numa lavandaria ou na manutenção de um balneário e serem etiquetados de..falhados ! Correcto ?
Assumidamente, estamos pois a evoluir para um sistema de castas. Não me admiraria se a breve trecho a AR resolvesses legislar sobre quem deve ser considerado “intocável”, e respectivos conteúdos funcionais. Já sabemos que os varredores de estádios e as engomadeiras das lavandarias vão lá estar. Resta saber quem se segue. Os balconistas? Os empregados de mesa? Os agricultores?
Pois ! …
Como depreendo que quem afixou o cartaz da Gambina nas escolas, não tenha sido a Senhora Ministra da Educação, e como duvido que seja possível a permanência de cartazes nos espaços públicos das escolas públicas sem o conhecimento e anuência dos respectivos conselhos directivos, deduzo que estes subscrevem o subtexto do cartaz. E como não vejo que os professores que ali exercem a docência se manifestem em contrário, deduzo ainda que também assinam por baixo.
Fico perplexo, e explico porquê.
Então, a mesma classe, a dos professores, que se atira ao Ministério com tudo o que tem, exigindo o respeito que diz lhes ser devido, é a que convive pacificamente com esta absurda falta de respeito pelas profissões operárias?! Que ética é a de quem permite que a sementeira deste inqualificável estigma da marginalidade social seja culturalmente difundido dentro do espaço eminentemente democrático que devia ser a escola ?!
Estamos bem aviados, Maria Gambina !!!