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sábado, 15 de março de 2008

Big is Possible ?!


No post anterior deixei algumas notas à leitura do Plano Nacional de Acção para a Eficiência Energética . Delas retirei como facto positivo e elemento inovador a louvável introdução da variável eficiência na equação energética, com o saudável propósito de lançar as bases dessa muito necessária alteração de perspectiva e de prática na nossa gestão da energia. Mas exprimi também as minhas reservas em relação à estratégia preconizada. Elas têm a ver com a efectiva eficiência energética marginal das medidas propostas, dado o modo como está gizada a sua prossecução.

Sobraram-me as questões estruturais e é por elas que regresso ao tema.

Noutras oportunidades já defendi neste espaço que a meu ver uma das principais razões da falta de elasticidade do modelo de aprovisionamento e uso da energia da nossa civilização, está associado ao tipo de ordenamento que a estrutura( económico, social, urbano ), e consequentemente à potencia e escala energética que o seu funcionamento implica. Tenho defendido nessas oportunidades que o desconcentracionismo urbano seria um caminho possível para aliviar a pressão dessas dependências. Defendo ainda que esse caminho nos permitiria ao mesmo tempo potenciar as soluções de aprovisionamento alternativo já existentes, tornando mais efectivas tecnologias como a eólica, a fotovoltaica, ou a biomassa. Mas não é por aí que este Plano nos leva, e nessa medida não o considero estruturante da alteração que todos clamam ser necessária ao paradigma de uso que fazemos da energia.

De facto, ele não deixa indicação de que esteja coordenado com quaisquer outros Planos que prevejam corrigir as assimetrias de ordenamento que são também responsáveis pela rigidez do modelo de consumo de energia. Ao não fazê-lo, o Plano agora proposto subutiliza um conjunto interessante de medidas que, se aplicadas numa base regional com particular incidência nas regiões mais deprimidas, poderiam contribuir para corrigir as deformações quantitativas do modelo de consumo de energia. A meu ver, sem a activação das bases desse reordenamento , o Plano será mero paliativo de consciência na forma absurda como pensamos a energia.


Tentarei explicar porquê com a ajuda de algumas das medidas concretas que ele preconiza.

É sabido que a desertificação humana das aldeias, vilas e cidades do interior português, constitui um triplo problema de(1) desestruturação social, económica e patrimonial dessas localizações, (2) de acréscimo da pressão populacional sobre os grandes centros urbanos, (3) de agravamento dos custos de gestão social ( educação, saúde,…) e consequente quebra geral de qualidade de vida. Ora um dos problemas sempre invocados em relação à permanência nos pequenos meios urbanos é a habitação, i.é, o custo acrescido implícito à recuperação urbana de acordo com os objectivos de conforto da modernidade. Tanto assim é que se têm multiplicado os programas ditos de requalificação urbana ( Polis e outros…) na tentativa de travar a degradação de um bem patrimonial que ( supõe-se ) se considera valioso e por isso se pretende preservar. Mas quem conhece os casos de execução sabe que os trabalhos se ficam pelos arranjos exteriores e pela repintura das fachadas . Assim, e apesar dessas obras, aldeias e centros históricos de vilas e cidades ( inclusive das grandes ) continuam evoluindo para desertos humanos.

No entanto, 200.000 caixilhos eficientes, outros tantos recuperadores de calor, 1 milhão de frigoríficos A+ ou A++, painéis solares nos telhados , juntamente a isenções de contribuições autárquicas, sisas reduzidas, rendas ou crédito bonificado, uma melhoria significativa dos transportes públicos, seriam seguramente medidas conjugadas pertinentes para levar muito boa gente a (re)considerar permanecer ou migrar para o interior, sabendo-se como se sabe que a infra-estrutura existe e tem qualidade.

Nesse contexto, as medidas preconizadas no Plano seriam elas próprias dinamizadoras dos pequenos negócios de base local actualmente moribundos ou incipientes, potenciando as economias de pequena escala. Calor verde ? Com certeza ! Mas numa relação de proximidade com as fontes naturais de biomassa, sob pena de se perder em transporte o ganho teórico da esperada eficiência. Caixilhos eficientes ? Muito bem ! Mas produzidos por serralharias e carpintarias locais. Aquecimento solar de água sanitária ? Claro ! Mas adjudicado a pequenas e médias empresas locais. E, já agora, aproveite-se a boleia e relancem-se os CEF’s ( cursos profissionalizantes ) numa ligação que faça sentido com a actividade económica de base local e regional.

Ao nível da geração alternativa que é preconizada no Plano ( crescimento de 10 % até 2015 ), também não se vê que exista uma preocupação de a localizar em resposta a necessidades de abastecimento local. Mas é na pequena escala que ela faz mais sentido. Se a geração alternativa ( eólicas, fotovoltaicas ) fosse um serviço público a não um negócio privado, os pequenos parques eólicos ajustados ao consumo local ( integrados e com reduzido impacto paisagístico) e as politicas locais de uso da energia com recurso a contadores bi-horários e tarifários bem diferenciados em função do potencial de geração local, seriam capazes de reformatar hábitos de consumo que se têm instalado sem critério nem regra.

Assim, embora os autores do Plano se tenham lembrado e muito bem de referir Schumaker, citando-lhe a obra Small is Beautifful, eles não foram depois capazes de localizar as medidas que preconizam por forma a materializar os pressupostos do celebrado economista! Portanto, ou só o conhecem da conotação "verde" ou não lhe captaram a estrutura dos raciocinios! Talvez seja essa a razão porque voltam a insistir em mais uma tentativa de demonstrar que "big is possible" !

quinta-feira, 13 de março de 2008

Energia na Balança

O Ministério da Economia colocou há dias em discussão pública o “Plano Nacional de acção para a eficiência energética”.

Desde então tenho andado em cabeçadas intermitentes com o dito na tentativa de conseguir exercer a minha condição de público. Não é fácil. Não pela forma como o Plano é apresentado. De facto, ele está bem construído e é de fácil consulta. Inclui metas quantificadas e temporalizadas, coisa sempre boa de se ver em planeamento, e as medidas que preconiza são coerentes entre si . O problema são as premissas em que se apoia, cuja valia não explicita e que não se conseguem desmontar completamente com a informação ( in)disponibilizada.

Apesar de o Sr Carlos Pimenta já ter saído à praça em defesa do mérito da iniciativa ( Expresso de há duas semanas…), dispensando assim da leitura do Plano muitas opiniões que preferem simplificar a vida alinhando pelo respectivo "verde-alface" de referência, julgo haver questões em aberto que merecem alguma reflexão com a ajuda da literacia energética possível.

O objectivo quantitativo do Plano é a poupança até 2015 de 10% do consumo Nacional de energia, e com isso espera conseguir reduzir em 1% ao ano o crescimento previsto da factura energética. O argumento justificativo do Plano não remete para questões de valoração absoluta da estrutura qualitativa ou quantitativa do consumo Nacional. Essa valoração é relativizada por referência à “intensidade energética” ( consumo de energia/ Milhão de PIB ) média da EU a 27, com a qual assume a necessidade de convergir num valor que é actualmente situado em cerca de 120 tep / milhão do PIB.

Ou seja, o paradigma “intensidade energética média” da EU a 27 é tido como correspondendo à estrutura ideal de consumo de energia, mas não se explica porquê. Também não se refere que o consumo bruto de energia não possa aumentar. Mas deixa-se entender claramente que nisso não se vê inconveniente desde que decorra em linha com o crescimento do PIB.

O Plano, embora omisso sobre a politica a seguir caso o valor de referência se altere, propõe um programa de 12 medidas para realizar essa convergência. Essas medidas alinham maioritariamente pelo lado da melhoria da eficiência do consumo. Incidem no transporte, uso doméstico e serviços. Começo por partilhar algumas reflexões que me suscitaram algumas delas.

- Redução em 20% de veículos ligeiros com mais de dez anos em circulação. Sabe-se, portanto, que a circulação desses veículos tem um peso efectivo considerável no consumo final de energia do subsector dos transportes ?! Já agora: qual o seu destino após a troca por novos mais eficientes ? África ou reciclagem ? No caso desta, o custo energético da reciclagem do velho, acrescido ao custo energético do novo, é inferior ao acréscimo de consumo que implicaria a manutenção do velho em circulação durante o remanescente da sua vida útil ?

- Transferência modal de 5% do transporte individual para colectivo. Só ?! Quer dizer que por cada milhão de automóveis que entram diariamente nas grandes cidades se considera satisfatório reduzir a entrada a 50.000 ?!

- Renovação de 1 Milhão de grandes electrodomésticos: pressupõe-se inútil qualquer tentativa de rever o consumo em função da irracionalidade de se ter o frigorifico ligado 24 horas por dia durante 365 dias por ano ?! É instituído um “prémio”para a troca ( premio à reciclagem, de 50 ou 100 €): deve supor-se que o custo energético da reciclagem do velho, mais o custo de produção do novo e o respectivo consumo, corresponderiam a um encargo energético final inferior ao que seria de esperar se o velho se mantivesse em funcionamento até ao fim da sua vida útil ?!

- Calor verde – Instalação de 200.000 recuperadores de calor a biomassa, ou seja, a lenha ou sucedâneo. Mas onde ? Em Lisboa ? Com lenha vinda de Portalegre ? Um litro de gasolina ( 10.000 kcal ) na motoserra permite cortar cerca de 30 kg de lenha de sobro. Se lhe juntarmos o custo energético do transporte e distribuição, quantas kcals teria que debitar a lenha por kilo para assegurar a eficiência desta solução ? Não é com lenha mas com biomassa em geral ? Então e as centrais térmicas de biomassa e de cogeração em funcionamento ou projectadas, vão queimar o quê ?

- Substituição de caixilharia convencional por eficiente em 200.000 fogos. De novo a mesma questão: os custos energéticos da retirada e reciclagem do velho, adicionados aos custos energéticos de produção e colocação do novo, são inferiores ao diferencial de consumo previsível para a vida útil remanescente do velho ?

Existem pois nestas medidas algumas indicações que me levam a duvidar se estamos perante um panorama de poupança de energia. Percebe-se, sim, que estão na calha iniciativas que correspondem a consideráveis acréscimos de produção e consumo. No médio prazo terão resultados numa diminuição do consumo energético equiparado. Óbvio. Mas o processo assim preconizado terá uma efectiva mais valia energética? Ou garante apenas a convergência com a “intensidade energética média” dos 27 por via do crescimento do PIB que irá induzir ? Será por isso que já se congratula a comunidade verde-capitalista ?


Voltaremos ao tema !

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

A Sustentabilidade das Energias Alternativas

Ao procurar melhorar os seus níveis de bem estar e de progresso, as sociedades ocidentais atingiram níveis de utilização de energia assinaláveis. É um facto.

Contas feitas pelo Eurostat para 2006, davam conta de que a UE a 25 consumia per capita o equivalente a 3,6 toneladas de petróleo, e ainda assim muito longe dos EUA que, com uma capitação equivalente de 7,8 toneladas, liderava o ranking mundial.

Em consequência, por razões de preço, de escassez, ou de origem geográfica, a dependência das fontes de energia que têm suportado a grande fatia destes consumos, nomeadamente as fontes fósseis, constitui um factor de insegurança numa sociedade que, nas últimas décadas, tem visto o seu funcionamento estruturado sob a ditadura desta dependência. As contas do Eurostat indicavam que 52 % da energia consumida na EU a 25 em 2006 era de importação, e essencialmente composta por petróleo, gás e seus derivados que, juntamente ao carvão, constituem cerca de 80 % das fontes da energia consumida na União.

Daí que as energias alternativas tenham entrado com naturalidade no discurso corrente de qualquer frequentador de café, granjeando a simpatia geral. Jornais e telejornais dão ampla cobertura a uma infindável parafernália de especialistas dos mais variados quadrantes, para quem tudo tem solução alternativa. Do etanol ao biodiesel, das eólicas às fotovoltaicas, estas fontes de energia são apresentadas com honras devidas a coisa revolucionária. A tal ponto que se fica com a ideia de que da dependência energética ao aquecimento global, não haverá nada que elas não sejam capazes de resolver.

Há no entanto nesta dinâmica, que por razões nem sempre energéticas e raramente ambientais passou a ocupar lugar central na agenda dos média e do poder, algumas questões sobre as quais vale a pena reflectir. E desde logo o uso indevido que nelas se faz de conceitos capazes de passar para a opinião pública uma imagem distorcida e desfocada da principal questão que efectivamente deveria ser central numa reflexão em matéria de energia: precisamos de fontes alternativas de energia ou de politicas de energia alternativas ?

Os conceitos foram criados para dar sentido à comunicação. No entanto, a escolha de vocábulos para os dizer, ao pretenderem significar o que não significam, acabam por conduzir à criação de autênticos mitos. É o caso do conceito de “alternativo” aplicado à energia.

A qualidade do que é alternativo é atribuída à coisa que pode ser utilizada em lugar de outra. Perante o actual panorama de utilização de fontes de energia, em que claramente predominam as de origem fóssil, quando se fala de “energia alternativa” deveríamos portanto subentender que se alude a uma fonte que pode substituir as fontes fósseis, que são classificadas como “fontes clássicas”. Assim sendo, as fontes ditas “alternativas” teriam de ser capazes de substituir as que se usam, produzindo a mesma quantidade de energia. E as “alternativas renováveis”, teriam, além disso, de ser capazes de se regenerar ciclicamente para assegurar sempre o mesmo nível de disponibilidade. Se as estes requisitos acrescentarmos a necessidade de “fontes limpas”, completa-se o quadro com a necessidade de, da sua produção e uso, não decorrerem impactos irreversíveis.

Ora no caso da Europa a 25, as desejadas fontes de energia alternativas, renováveis e limpas, teriam então de ser capazes de suprir os tais 80 % do consumo energético da União, pois é dessa ordem de grandeza a dependência Europeia de fontes “clássicas” de origem fóssil ( carvão, petróleo e gás natural ) que, como se sabe, não são renováveis nem são limpas.

O esclarecimento dos conteúdos destes conceitos não é um preciosismo semântico, e disso demos conta em posts anteriores em que se tentou abordar a inviabilidade do projecto Europeu de substituir até 2010, 5,75% do consumo de diesel por biodiesel, solução que vem sendo divulgada como alternativa, renovável e limpa.

Os mesmos problemas de escala que se colocam à produção dos biocombustíveis podem ser extrapolados para as restantes fontes de energia ditas alternativas. Porque uma coisa é a natureza da fonte, outra, completamente distinta, o método de extracção do seu potencial energético. De facto, o uso do vento para limpar o trigo numa eira, do sol para o secar ou da água para mover as pedras da azenha que o farinava, poderiam ser considerados usos limpos, porque os impactos inerentes eram facilmente diluídos dada a sua reduzida escala. Mas, quando daí se passa para os aerogeradores, para as barragens hidroeléctricas ou para os campos de painéis fotovoltaicos, o panorama muda completamente. Muda porque se trata de uma tecnologia de aproveitamento diferente. Muda pela natureza dos processos industriais associados à respectiva construção, seja pelo tipo de matérias primas que utilizam, pela incorporação massiva de energia que o seu fabrico e instalação pressupõem , ou ainda pelos impactos directos que têm no ambiente dos territórios em que são localizados ( acessos viários e de rede eléctrica ). Mas muda sobretudo pela escala pressuposta, que conduz a rupturas permanentes. Em grande escala, impactos que poderiam ser resolvidos pelos ciclos naturais e por conseguinte toleráveis, deixam de o ser.

Nessa acepção, não são limpos os impactos directos dos campos de aerogeradores , nem das barragens sobre as bacias hidrográficas em que são construídas. Não são limpos os impactos indirectos decorrentes dos processos de fabrico nem do betão das barragens, nem das ligas metálicas dos aerogeradores, nem dos componentes dos painéis fotovoltaicos, nem de toda a logística associada ao seu transporte, instalação e operação. Também não é limpa a energia nuclear, pois além dos riscos associados à sua exploração, continua por resolver o destino dos lixos radioactivos que produz. Mesmo em relação ao eventual desenvolvimento da tecnologia da combustão do hidrogénio, que não tem dióxido de carbono mas apenas água como subproduto, e que por conseguinte e nessa acepção, poderia ser considerada uma fonte de energia limpa, importa que se diga que o processo de produção, quer de hidrogénio quer dos motores que o utilizam, é tudo menos limpo. Todos têm impactos e impactos significativos, que vão muito para além da emissão de CO2 e outros gases com efeito de estufa! E se produzidos em grande escala esses impactos tornam-se incomportáveis!


A abordagem das questões associadas às fontes de energia ditas alternativas padece pois de vários vícios.

O primeiro é considerá-las como alternativa por oposição aos combustíveis fósseis, ditos clássicos, quando na prática o seu uso é anterior a estes. Se exceptuarmos o nuclear e o hidrogénio, elas são antigas. O que mudou não foram as fontes, mas a tecnologia de aproveitamento , o uso e a escala em que são solicitadas !
O segundo, é que são apresentadas como alternativas em relação às fontes fósseis quando, no estado actual do conhecimento da ciência e da técnica, mesmo juntando todas as soluções que têm sido preconizadas e ignorando os seus impactos , elas não seriam capazes, por razões de inviabilidade intrínsecas à escala pressuposta, de suprir nem o modelo de utilização vigente, nem os níveis de consumo instalados com base nos combustíveis fósseis.
O terceiro, é serem consideradas renováveis, quando na prática as quantidades em que é suposto serem produzidas são de tal ordem que, ou não há espaço, ou não há vento, ou sol , disponíveis para as suprir.
O quarto, é que, pela mesmas razões de escala, estas fontes de energia também não são limpas. Os meios de produção, exploração e distribuição que envolvem, mantêm ou conduzem a impactos que estão para lá da capacidade de suporte dos sistemas em que se situam.
Em quinto e último lugar, porque mistificam a questão energética. O problema energético da humanidade, e muito em particular das sociedades ocidentais, não é um problema de fonte, mas de consumo.


A discussão centrada na procura de fontes de energia alternativas corre, por isso, o risco de funcionar como fait-divers para essa outra realidade muito mais contundente e determinante que tem que ver com modelos e padrões de consumo irracionais, e que só se resolve com políticas alternativas que claramente ponham a tónica na sua redução.


No caso da energia, essas políticas passarão pelo uso de fontes diversificadas, implicando revisão urgente de critérios de ordenamento do território; passarão pelos preços ao consumo, por soluções arquitectónicas e de engenharia; passarão eventualmente por miríades de outras questões técnicas, económicas ou financeiras; mas por onde não podem deixar de passar é pela revisão do paradigma da sociedade de consumo e pelo controlo do Estado sobre os sectores estratégicos da economia. A menos que se esteja a ver o Comendador Joe Berardo ou o Senhor Américo Amorim preocupados com a sustentabilidade energética do nosso modelo social…

domingo, 17 de fevereiro de 2008

Biocombustíveis em Revista


Sobre biocombustíveis já se escreveram “resmas”e não é difícil prognosticar que muitas mais teclas vão ser batidas sobre este assunto. Mas qual a síntese possível neste momento?

A natureza moderna da coisa “biocombustível” parece estar razoavelmente delimitada em redor de produtos carburantes com origem em espécies vegetais que se possam cultivar. Não sendo um conceito novo ( há milénios que o azeite era usado como combustível ) aos biocombustíveis da modernidade é no entanto feita uma exigência peculiar, que é a de se constituírem como alternativa aos derivados do petróleo e nessa condição serem úteis ao nosso modo de vida, abastecendo os depósitos dos mais variados tipos de motor de cujo funcionamento depende o nosso modelo civilizacional.

Este requisito tem como implicação imediata que a eles, biocombustíveis, se pede, além de características físicas e químicas específicas, um elevado potencial calórico, essencial à obtenção da potência que requeremos desses motores. Do que tem sido ensaiado para este efeito, as preferências têm recaído sobre os álcoois (etanol) e os óleos de origem vegetal.

A produção de etanol decorre da fermentação alcoólica de plantas ricas em hidratos de carbono. O milho e a cana do açúcar têm sido as mais utilizadas. Os óleos vegetais mais usados têm sido obtidos por extracção de sementes oleaginosas, com a soja, a palma, a colza e o girassol a liderarem a lista. Com a tecnologia até agora utilizada, no entanto, nenhum deles se revelou capaz de atingir as performances calóricas dos derivados do petróleo. Comparativamente à performance calórica de 1 litro de gasolina ( cerca de 10.000 kcal ) o melhor que se consegue obter de um litro de etanol (o mais energético) é cerca de 70% desse valor.

Ainda assim, a viabilidade técnica da incorporação de certas percentagens de etanol na gasolina ou de biodiesel no diesel parecem razoavelmente resolvidas sem modificações significativas dos motores existentes. Do uso directo de um ou de outro, também não parece que decorram impactos que não estejam já associados aos combustíveis convencionais ( gases de escape e poluição, e os problemas associados às logísticas de transporte). Além disso progressos tecnológicos da física e da química têm vindo a permitir melhorar limitações técnicas de vária ordem, pelo que não é difícil de prever que em poucos anos quaisquer destas performances possam ser melhoradas, não se afigurando pois a questão técnica como um problema estrutural novo ao uso dos biocombustíveis ou, no mínimo, digamos assim, não constituem matéria de polémica original.

A controvérsia sobre a utilização de solos agrícolas para produzir combustíveis ou para produzir cereais, essa sim, questão estrutural, também não é propriamente original. Não é na medida em que há décadas que a agricultura industrial tem vindo a fomentar outras estratégias de produção irracionais, como têm sido as que estão na base da pecuária industrial. Entre produzir milho para engordar frangos em aviário e fazê-lo para a produção de combustíveis existe uma diferença, de facto, pois os 2,3 kg de milho em grão que são necessários para produzir um litro de etanol bastariam para resolver as necessidades de manutenção de uma família de quatro pessoas durante dois dias. No entanto, com 2,3 Kg de milho também não se produz muito mais que duas asas do frango, o que manifestamente também não daria para alimentar quatro pessoas durante dois dias. Portanto, estamos apenas perante lógicas semelhantes ( de desperdício ) de gestão de recursos primários.

A questão da rentabilidade energética da produção dos biocombustíveis, i.é, de se saber se para produzir um litro de biocombustível não se estará a gastar mais energia que aquela que desse litro se pode retirar, também não é propriamente original. D.Pimentel, por exemplo, investigador português radicado na Univ. Cornell e que se notabilizou pelo pioneirismo na introdução da análise energética nas actividades económicas, tem vindo a liderar a produção de relatórios arrasadores para os biocombustíveis e pondo em causa a euforia que se gerou em redor deles ( Pimentel e Tadzek, 2006 ). Para o biodiesel de girassol produzido no EU, Pimentel defende que o seu custo energético é superior em 118% ao seu potencial calórico, i. é, custa mais do dobro da energia que produz!
Como já referi noutras ocasiões, Pimentel inverteu a lógica clássica da análise dos processos produtivos, que se apoia nas tradicionais relações custo vs benefício financeiro, propondo em seu lugar o balanço input-output da energia envolvida nesses processos. Por este prisma, negócios lucrativos, como a importação de bifes da Argentina para Portugal, revelam-se energeticamente desastrosos: a despesa energética para fazer chegar a “vazia” da vaca argentina a Portugal é idêntica ao valor energético da carcaça inteira!
Claro que este tipo de análises ganhou a inimizade imediata da agro - indústria e a profunda antipatia da indústria petrolífera, pois revelou que a população mundial deixou de se alimentar mediante o aperfeiçoamento das técnicas de captação de energia solar, para passar a consumir directamente combustíveis fósseis sob a forma de alimentos! No caso dos biocombustíveis, as reacções também não se fizeram esperar, e têm surgido inúmeras “cátedras” que, apoiadas em metodologias diversas, defendem ganhos líquidos significativos de energia decorrentes da sua produção ( Journey to Forever, " Is ethanol energy-efficient?.").

Mesmo que se opte por não tomar partido nesta polémica e se procure algures “na média” dessas oposições, por vezes extremadas, a “verdade”, a conclusão não é animadora, ou seja, legitima a presunção de que uma parte muito significativa dos biocombustíveis disponíveis contenha efectivamente menos energia do que a investida na sua própria produção! Isto é, em muitos casos e na melhor das hipóteses, estaremos numa mera dinâmica de troca de energia por energia.

Quando analisadas parcialmente e em abstracto, qualquer dos aspectos referidos anteriormente vale o que vale. Os problemas reais dos biocombustíveis surgem quando se chega à pratica e à necessidade de resolver “quanto, como, e onde”. É aqui que se evidenciam os sinais de que estamos perante uma magna farsa em cena. Com a tecnologia disponível, para produzir com milho etanol equivalente a 10% do consumo actual de gasolina dos EUA, seria necessário algo como cinquenta milhões de hectares, ou seja, dez Franças agrícolas não chegavam! Cá por casa merecia a pena que se estivesse atento ao exemplo da Galp, que ao divulgar que necessita de 700.000 ha para substituir 5% do consumo nacional de diesel por biodiesel de girassol, parece que nem se apercebe que está a referir-se à ocupação sistemática, ano após ano, da totalidade de área agrícola útil a sul do Tejo !

E é este o grande drama da generalidade dos problemas ambientais do nosso tempo e também da questão dos biocombustiveis: escala ! Tudo aquilo em que se pensa implica dimensões incomportáveis. Além disso, a agricultura não é como uma fábrica de parafusos, onde para mudar de orientação produtiva baste substituir as máquinas e reciclar o pessoal. Tem outros tempos de maturação e deve submeter-se a princípios de ordenamento estratégico e de racionalidade sem os quais o esbanjamento do capital de fertilidade do solo passa a ser um desastre com dia marcado. A preservação dessa fertilidade implica o cumprimento de regras de ocupação e de rotação de cultivos que o empresário agrícola não deve ser levado a mudar por razões meramente conjunturais. Quando tal acontece criam-se desequilíbrios regionais importantes, e acentuam-se assimetrias de vária ordem.
Em Portugal, por exemplo, ainda está viva a memória dos impactos negativos da que ficou conhecida como “campanha do trigo”. Ora a valorização económica ( artificial, porque subsidiada ) dos produtos agrícolas a partir dos quais é possível produzir biocombustiveis, promove oportunismos naturais que já estão a ter impactos: por um lado levando ao uso agrícola de terras marginais que eventualmente nunca deveriam ser usadas na agricultura ( o caso do óleo de palma na Indonésia e da soja na Amazónia , passado em revista no Herald Tribune de 27 de Março passado); por outro, induzindo lógicas de monocultura em solos que não a suportam ( os do Ferreira do Alentejo, p.e. - Expresso de 16 de Fevereiro ); finalmente, dando azo a processos que insuficientemente avaliados podem dar origem a novos e inenarráveis cascatas de problemas, como é exemplo a ideia peregrina de produzir biocombustíveis com algas ( Expresso de 19 de Janeiro ).

Sendo embora bem provável que num futuro não muito distante as performances associadas à produção e uso de biocombustíveis possam vir a ser significativamente melhoradas, a actual pressão política para a procura urgente da alternativas aos combustíveis fósseis, envolvendo importantes incentivos financeiros, faz da produção agro-industrial de biocombustíveis a partir de combustíveis fósseis um excelente negócio! Mais que na produção agrícola em si, estão em causa excelentes oportunidades de novos negócios na instalação das plataformas industriais necessárias à sua transformação! Nesse sentido têm vindo a ser induzidas dinâmicas de curto prazo cujas consequências estruturais são dificilmente reversíveis, mesmo quando o médio prazo vier a confirmar o que para muitos já é óbvio, isto é, que deste processo não decorrem mais valias energéticas significativas e que a questão quantitativa não pode ser contornada. O grande problema é, continua a ser, de facto, a enorme escala dos números actuais de consumo de combustíveis. Para essa ordem de grandeza, não existem alternativas!