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domingo, 17 de outubro de 2010

Preservação


Na actualidade, a gestão do território e as preocupações que lhe estão associadas, são devedoras dos problemas que acompanharam a colonização da América do Norte. Vagas de gente ávida de rápida riqueza colocada perante enormes mananciais de recursos quase inexplorados e equipada pela crescente potência que a revolução industrial disponibilizava, produziram uma pressão tal sobre o novo território que os efeitos da sobre-exploração se tornaram rapidamente visíveis e o seu controlo um imperativo. Há registos dessa preocupação pelo menos desde 1876. Elas conduziram ao primeiro documento legal conhecido na modernidade com um vincado cunho de conservação, o “Forest Resource Act”, de 1891, que levou, em 1905, á criação do actual USFS. O lema desta instituição é claro quanto ao propósito da inciativa: "Caring for the land and serving people", que é como quem dizia que no interesse das pessoas e do futuro era imperativo cuidar dos recursos. Algumas décadas depois, na sequência do desastre ecológico que ficou conhecido como "dust bowl years", a situação repetiu-se, com o actual URCS , originalmente criado em 1935. Já não se tratava de cuidar apenas das florestas e de conservar a sua capacidade de se regenerar para continuar a produzir , mas de o fazer também em relação aos solos antes tidos por inesgotáveis mananciais agrícolas, para que pudessem continuar a permitir colheitas.

Portanto, na modernidade, a conservação reinstituiu-se fiel à melhor tradição da antiguidade : manter os ciclos de produção ao serviço das comunidades humanas, introduzindo no uso do território regras pensadas para gerir os recursos de forma a que fosse possível continuar a usá-los para deles obter algo de forma duradoura.


Politica distinta desta foi a adoptada em 1872 quando o Senado Estado Unidense aprovou a lei que instituíu o YNP. Lendo a Lei, salta à vista a diferença do propósito . O que se pretendeu com o YNP foi evitar que, à semelhança do que ia acontecendo no caminho para oeste, a colonização também transformasse completamente aquele território . Yellowstone foi declarado território a preservar, i.é, a manter tal qual estava independentemente do eventual interesse económico na exploração directa dos seus recursos naturais.

Ou seja, problemáticas e propósitos distintos deram corpo a ideologias e a estratégias de intervenção opostas: uma, a conservação, incorpora a mudança e procura geri-la ; a outra, a preservação, procura evitar a mudança . Nas décadas seguintes a gestão do território e o desenvolvimento do conhecimento, particularmente da ecologia, iria ser marcado por esta dicotomia.

Por conseguinte, ao contrário da conservação, a preservação foi concebida com uma lógica conservadora e de não ingerência para evitar a mudança, e em seu nome empreenderam-se medidas no sentido da salvaguarda da possibilidade de um determinado território prosseguir o seu caminho à margem da intervenção do homem. Contudo, raramente os homens se têm limitado ao papel de observadores dos processos que pretendem preservar. Entre outras, por esta razão simples: cedo se percebeu que afinal a mudança também é independente da acção humana e muitas vezes essa mudança revela mesmo "ideias próprias" e segue caminhos bem diversos daqueles que os homens gostariam. De tal forma que se desencadearam e têm-se sucedido as intervenções de cariz “preservacionista”, isto é, tendentes a evitar que a natureza faça a aquilo que sabe fazer melhor: mudar. Na ressaca, a ideia inicial da preservação acabou por esvaziar-se do seu sentido original. A não intervenção como estratégia de gestão do território, transformou-se num mito disfarçado. E o conceito original de preservação entrou em mutação rápida para se adaptar a uma imensa parafernália de práticas de gestão de espécies, habitats, ecossistemas. Neste processo abunda quem procure reconstruir o conceito e legitimar a ingerência, referindo-se à "preservação" de ecossistemas ou da biodiversidade, no sentido de os manter. Mas faz sentido falar de preservação quando nos referimos aos projectos da LPN no Campo Branco que envolvem a abetarda ?

domingo, 3 de outubro de 2010

Conservação

Quando se discute conservação, há algumas derivas que parece terem vindo para ficar. Julgo que elas têm a ver com um fenómeno de derrapagem para um estado muito particular do “conhecimento”, típico do nosso tempo. A aceleração que se instalou nas nossas vidas substituiu o conhecimento adquirido com o estudo e a reflexão, pela adesão ao marketing de ideias . De tal forma que, por muito bons que sejam os processos de raciocínio com que tentamos percepcionar o mundo, é frequente que deles resultem crenças erradas apenas porque não temos tempo para reflectir sobre as premissas.

Saturadas de teses, explicações, polémicas, as pessoas querem resultados, reivindicam-nos, querem acção, e abrem as portas ao pragmatismo. É verdade que este pragmatismo já não é só empírico, reivindica-se cientifico. Mas não é por isso que se pode dizer que seja melhor que o outro. O problema do empirismo é que quando não se tem tempo para ponderar a acção e tudo o que fazemos é reagir aos acontecimentos, não é a qualidade da ferramenta disponível que usamos que faz a diferença, mas a sua adequação ao uso que dela pretendemos. Os martelos podem ser muito ergonómicos, mas não servem para aparafusar. Se esse desfasamento acontecesse de forma fortuita, talvez não viesse dai mal de maior. Mas quando tende a ser uma prática sistemática, tem como consequência que em lugar de a acção resolver os problemas passa a fazer parte deles. E à contemporaneidade falta sempre tempo.

A falta de tempo e a preponderância dos midia, levaram a que a divulgação das bases gerais da ecologia fosse usada como plataforma de transformação do mundo dos sonhos. Em lugar de sonhos guerreiros em que se salvavam pátrias ou donzelas, ou dos sonhos missionários em que se convertiam almas nos confins da China, passou-se a sonhar com salvar baleias na Antárctida ou com a descoberta duma solução milagrosa para armazenar CO2 nas fossas Marianas. As candidatas a miss de qualquer coisa passaram a incorporar a salvação do planeta no seu discurso eleitoral. E os comuns mortais, naturalmente, replicam-lhes os ideais e organizam-se para os cumprir o melhor que podem. Surgem ONG’s de indução Ocidental por todos os quadrantes do mundo conhecido e a governança acompanha como pode esse movimento salvífico uniformemente acelerado até ao ponto em que, à semelhança do que sucedeu em muitos outros sectores, a gestão da coisa ambiental começou a transformar-se numa burocracia, teceu uma complexa teia de interesses , originou o seu próprio corporativismo, servindo-se para tudo isso de um saco de conceitos imprecisos de onde cada qual tira os que calha para usar como lhe dá mais jeito. Entre eles o de conservação.

Como acontece em quase tudo, também não há unanimismo neste conceito, e ainda bem, acrescento , pois a diversidade dos pontos de vista é uma riqueza em si mesma. Mas conviria, julgo, que houvesse um eixo sólido em redor do qual fosse possível reflecti-lo, pois de outra forma parece difícil assegurar a coerência das politicas e a consequência da acção. A minha proposta tem sido no sentido de que esse eixo consista na intencionalidade de um certo tipo de prática na intervenção do homem sobre o território: nesta perspectiva, diria que a conservação reporta a uma prática consistente com a intenção de continuar a colher .

Há conservação nas politicas impeditivas da construção em solos agrícolas, nos princípios de afolhamento do espaço agrícola e das rotações de cultura, nos métodos de fertilização orgânica. Há conservação nas medidas aplicadas às bacias hidrográficas tendentes a assegurar a infiltração e a qualidade da água. Há conservação nas medidas de defeso tendentes a garantir o sucesso reprodutivo de espécies piscícolas. Não há conservação quando um grupo de linces ibéricos é mantido em cativeiro em Silves para posterior libertação na Serra Algarvia. Isso é outra coisa. Lá iremos.

domingo, 15 de agosto de 2010

Evidência ou fé ?


Basta uns dias mais quentes e , quais ursos polares hibernados durante os rigores do ultimo inverno, logo reaparecem eufóricos os defensores da teoria do aquecimento global antropogénico .
- Nós não dizíamos ?
Confesso-me farto desta retórica. Tinha prometido a mim mesmo que não ia contribuir nem com mais uma tecla para este peditório, mas ainda não vai ser desta.

Percebe-se que as criaturas que vivem de vender papel e tempo de antena, precisem de matéria prima para variar a estafada ementa de Freeport’s e casos Maddie. Uma pessoa acaba a conseguir conviver com isso, que remédio. Ao que não me habituo é a que iniciativas de informação que deviam ter para consigo mesmas outras exigências, não se inibam tb elas de derivar para o simplismo redutor das análises típicas dos formatos tablóide. Vejam esta noticia na Naturlink para enquadrar o que se segue.

Mudança climática é um conceito que pretende representar a ideia de uma alteração significativa das normais climatológicas de referencia ao longo do tempo num espaço territorial. O que se entende por normais de referência ? Entende-se as médias das observações verificadas num determinado conjunto de anos nesse espaço. Como é que se estabelece qual o conjunto de anos suficiente para definir essas normais? De forma fortuita. Como nos primórdios dos estudos climáticos as séries completas disponíveis eram poucas, começou por se usar grupos de 30 anos e a tradição manteve-se. Mas podiam ser 50 ? Podiam. E se fossem 100 anos ? Bem, quanto maior o numero de anos de cada série, menor a variabilidade entre séries. Dito de outra forma, a manutenção de séries curtas até dá imenso jeito ao desenvolvimento de teorias sobre a variabilidade do clima. Mas são representativas do clima?

A qualidade daquilo que se entende por representativo, não é a mesma de algo a que se possa atribuir uma objectividade inquestionável. Ser ou não ser representativo é um critério como qualquer outro. Muitas vezes a representatividade define-se ao contrário, quer dizer, de acordo com o que temos disponível. Quando o orçamento ou o tempo disponível não dão para recolher mais dados, os que existem têm de bastar. Só quem nunca andou nestas andanças das investigações e dos trabalhos de campo e respectivo tratamento estatístico é que não sabe do que estou a falar. Ora a partir do momento em que o estudo consiga entrar nos circuitos regimentais, torna-se irrelevante se devia ter sido suportado em mais ou menos dados. O que é relevante é que as conclusões sejam aceites e gerem consensos. Isso basta para legitimar muita coisa na metodologia que noutras condições mereceria inúmeros reparos. Mas não basta para transformar um consenso numa verdade objectiva.

No entanto as séries curtas continuam a ser usadas e com elas vêm as incontornáveis armadilhas. Imaginem que estudamos o fenómeno neve em Sevilha. Se as séries em estudo se reportarem ao período de 30 anos entre 1970-2000, não há registo de observações de neve em Sevilha. Conclusão : em Sevilha não neva ? Bem, em 2 de Fev de 1954 nevou e não foi pouco, e em 13 de Janeiro deste ano voltou a nevar à séria. Ou seja, se a série em estudo abrangesse o período 1954-2010, então a probabilidade de nevar em Sevilha já não seria zero. Dirá o crédulo: Ah, mas os cientistas prevêm essas coisas e é para isso que convencionaram os factores de correcção e outras ponderações estatísticas que tais! De facto. Mas continuamos a falar de critérios. E ainda que esses critérios sejam consensuais, repito-me, eles não são a realidade objectiva, apenas a aproximação possível com o actual estado da arte.

O mesmo se passa em relação ao uso de médias estatísticas para o estudo dos fenómenos climáticos. Não é o local nem o autor está habilitado para uma dissertação sobre filosofia da matemática. Mas há nesta matéria coisas elementares que se tende a considerar como adquiridas e estão mal adquiridas.

A ideia de medidas de tendência central, entre as quais se inclui a média, são abstracções com as quais se pretende representar a realidade e desse ponto de vista têm-se revelado bastante úteis. No entanto têm limitações. Não podem ser usadas indiscriminadamente, pois elas não são a realidade. Ontem, 14 Agosto, a temperatura média em Castelo Branco foi igual à de Faro, ambas as cidades com 24,5ºC. Mas enquanto em Castelo Branco essa média se obteve com uma máxima de 33 e uma mínima de 16, em Faro a máxima foi de 27 e a mínima de 22 ! Ou seja, quem se fie nas previsões médias para acampar ao relento, é capaz de acordar a meio da noite a bater o dente nos camping de Castelo Branco. O estudo do clima como parte da biosfera, não se compadece com abordagens estatísticas meramente quantitativas. Hoje, às 10 TMG, Faro e Castelo Branco estavam ambas com cerca de 25º . Mas enquanto em Faro se registava 70% de humidade, Castelo Branco ficava pelos 30%, o que em termos de habitabilidade da mesma faixa térmica faz toda a diferença.

Qual a tese ? Esta: quando se pretende desenvolver estudos sobre o comportamento de fenómenos como as variáveis climáticas, são precisos indicadores para estabelecer comparações. Mas só se pode comparar o que é comparável.

As médias de temperaturas são indicadores comparáveis. Mas os dados com que elas são construídas são comparáveis ? Dados como temperaturas, só se começaram a registar com o advento dos termómetros, uma ferramenta recente. Estamos a falar no máximo de 200 anos de observações, sendo que as sistemáticas são ainda mais recentes, o que, em termos da escala das coisas em que evoluem as variáveis climáticas, nos coloca na infância das observações. Acresce que essas ferramentas com que se recolheram dados durante este tempo, não têm sido as mesmas. Os termómetros abertos dos primórdios não registam o mesmo que os modernos, digitais. Além disso, a leitura a olho , sujeita a todos os possíveis erros, de paralaxe ou de desleixo, que imperou até há pouco mais de uma década atrás, não pode ser comparada com os métodos actuais. Mas essas diferenças são assim tão importantes que impeçam a comparação desses dados ? Os registos manuscritos dos idos de 1900 e as impressões informáticas dos registos digitais das observações de 2000, servem todos na perfeição para caracterizar os climas, para lhes esboçar tipologias. Mas quando se trata de estudar a variabilidade dentro dos climas, o caso muda de figura. É que a variabilidade intrínseca à qualidade dos dados, que está associada às ferramentas e aos métodos de recolha, pode anular a pretensa variabilidade especifica das temperaturas, quando o que está em discussão são diferenças na casa das décimas de grau.

Existe ainda um outro aspecto que tem de ser tido em conta e que tende a ser ignorado nestas abordagens sobre a comparatividade dos dados. Refiro-me aos contextos. Podemos falar da temperatura de Lisboa às 15 TMG sem especificar em que local concreto a obtivemos ? Não ! Agora que até os carros já trazem termómetros, qualquer alfacinha sabe que se ligar a uns compinchas espalhados pela cidade para lhe lerem as temperaturas a uma hora certa, vai obter valores bastante diferentes conforme o local em que se encontrem. Esse aspecto tem sido tido em devida conta nos estudos de variabilidade térmica ? Os registos históricos de temperaturas para Lisboa foram sempre recolhidos no mesmo local ? E, ainda que o tivessem sido, nada mudou na envolvente do posto de observação ? Não existem mais edifícios a alterar as condições de circulação aérea, mais aparelhos de ar condicionado, mais automóveis , mais outros equipamentos que possam ter uma influencia significativa na alteração das condições locais em que se obtêm os registos ? E a ponderação que lhes foi atribuída, foi a suficiente para lhes anular os efeitos ? Como pôde ser objectivamente validada ?

Até aqui estivemos a falar de registos directamente comparáveis, i.é, medidos com instrumentos. No entanto, como se verifica pelas afirmações contidas no artigo que deu mote a este texto, as comparações já vão muito para além disso. Quando se afirma que Moscovo registou nos últimos dias as temperaturas mais altas dos últimos 1000 anos, estamos também a usar aquilo a que os climatologistas chamam medições indirectas. Uma das mais popularizadas recorre ao estudo comparado do crescimento das árvores. Extrapola-se o crescimento observado num ano de temperatura conhecida e infere-se que todos os anos com crescimentos idênticos registaram aquela temperatura. Bem, em igualdade de outros factores de crescimento, como luminosidade e disponibilidade de água e nutrientes, até é possível que sim. Mas houve como monitorizá-los? É que se não houve, convinha não esquecer que não é só da temperatura que depende o crescimento de uma planta. O leitor urbano aproveite o verão e ponha duas couves iguais em dois vasos iguais aí na varanda. Regue uma e deixe a outra à sede, que percebe imediatamente do que estamos a falar.

Existem ainda outras referências indirectas para avaliar climas passados. Uma delas são os registos históricos. Mas mesmo esses devem ser lidos com algumas cautelas. Um dos argumentos usados como prova daquilo a que se convencionou chamar o período quente medieval na Europa, são as crónicas relativas ao cultivo de vinha no Sul de Inglaterra. Em princípio isto queria dizer duas coisas para aquela região na alta idade média: ausência de geadas no período vegetativo e cúmulo de temperaturas suficiente para a maturação da uva. Podemos então usar esta informação como indicador de uma época com temperaturas mais elevadas que as actuais ? Podemos, mas como hipótese, apenas isso ! É que nem todas as variedades de videira têm a mesma exigência de carga térmica para a maturação da uva. No campo das hipóteses e sem outras informações adicionais, o cultivo da vitis naquela região, tanto poderia ter decorrido do uso de uma variedade adaptada como da existência de um período climático efectivamente mais quente.

Concluindo que isto já vai longo.

Quando me informam que nunca tinham sido medidas em Moscovo temperaturas tão altas como as dos últimos dias, eu não tenho por que duvidar. Assim será. Mas também sei outras coisas. Sei que é a primeira vez em mil anos que elas são medidas com recurso a termómetros digitais. Também sei que a metrópole não existia há mil anos, que nunca foi tão grande. Sei ainda que não é normal Moscovo estar cercada por incêndios nas turfeiras que estão a arder porque têm vindo a ser sistematicamente drenadas. Não falo das ruas entupidas por tantos carros como os moscovitas de há duas décadas nem se atreveriam a sonhar, nem dos compressores térmicos que nasceram no exterior dos prédios como cogumelos. Nisso Moscovo é como qualquer outra metrópole. Portanto, eu até posso comparar os registos das temperaturas, pois posso. Mas honestamente não posso ir daí para qualquer outro lado porque tudo mudou no onde e no como elas são obtidas. Dizem-me que estamos perante provas de mudança climática. Bem, ela até pode estar em curso, mas usar o calor em Moscovo ou o frio em Buenos Aires como se fossem provas disso, transforma a suposta evidência numa anedota.

Sabe-se que os climas mudam. Sabe-se que mudaram várias vezes ainda antes dos homens terem aprendido a andar de gatas, quanto mais a queimar petróleo. Está em curso uma mudança climática de indução antropogénica ? Pode ser que esteja, como também pode ser que o clima seja uma entidade em mudança permanente. À partida qualquer teoria é legitima. O que não é honesto é procurar demonstra-las comparando o que não é comparável atolando as cabeças em abstracções falaciosas. A terra não tem um clima, tem climas. Além da diversidade regional, sabe-se que há nos climas variabilidade interna, e que as mudanças, que acontecem, quando acontecem, têm impactos bem distintos. Nalguns contextos há quem beneficie com elas, noutros quem saia prejudicado. Mas é essa a natureza mesma da mudança. São raras aquelas em que todos saem ganhadores. Eu percebo que possa haver quem ache que tem nesta matéria uma boa oportunidade para, perante a ameaça do “inferno”, levar as turbas irresponsáveis a inflectir inúmeras atitudes desastrosas com que vêm habitando o território. São almas bem intencionadas e ainda bem que existem. Mas então façam-me um favor: dispam a bata com que andam disfarçados de gente da ciência e assumam-se de vez como o que são, catequistas, que não percebem a diferença entre um facto, uma evidência, uma prova, e uma crença.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

"Climatgate" - Ciência ou Advocacia ?

Há quem se atarefe na defesa da pureza virginal da ciência. Mas convenhamos que se trata de uma ingenuidade. Como qualquer outra actividade humana, a ciência é uma instituição imperfeita. E quem está ao seu serviço constitui claramente um grupo de interesses. Na defesa desses interesses não é raro encontrar-se quem dispa a bata e vista a toga para subir a barra mediática e fazer a defesa das suas crenças ou das suas agendas. Nessas investidas usa como “cavalo de Tróia” a credibilidade que a ciência granjeou. Mas quando a usa corre o risco de a delapidar.

Para que o trânsito pela vida não derive para um exercício de suspeição sistemática e desconfiança permanente, há certas coisas em que precisamos de acreditar. Há quem lhe baste acreditar em Deus, mas há também quem prefira acreditar no que é da objectividade. Para estes a ciência é uma importante reserva de credibilidade. Contudo, a credibilidade da ciência não se constrói sobre o mesmo género de argumentação que suporta a crença. No entanto, por razões de vária ordem, é cada vez mais frequente que quem tem funções nas áreas cientificas apareça em público a fazer a defesa das suas teses como se da defesa de crenças se tratasse. Confrontados com esta critica respondem em primeiro lugar com a autoridade do seu estatuto e em segundo lugar com “evidências”e “factos”. Mas quais ?

As evidências não são todas iguais, evidências de correlação não podem ser lidas como evidências de causalidade, por exemplo. E os factos são interpretações. Ora enquanto à ciência deve importar o que remete para o rigor do que é verificável e repetível, a quem advoga basta o rigor formal que suporte determinada retórica. Aos não especialistas tolera-se alguma ambiguidade na abordagem destas distinções. Tolera-se mesmo que dêem alguma latitude aos conteúdos científicos na defesa de opiniões. Qualquer advogado faz isso. Coisa menos inócua é que biólogos, ecologistas, meteorologistas, ou de outra especialidade qualquer, assumam postura idêntica. Quer dizer, que sejam opinativos quando o que se requer é que sejam objectivos. A questão é que há quem precise de confiar na solidez do que lhe compete divulgar sem que tenha ( nem tem que ter ) condições para o confirmar, como é o caso de quem ensina.

Ora há áreas em que a promiscuidade do trânsito que se estabelece na fronteira entre ciência e advocacia se tem revelado como um dos aspectos que inquina o estudo, a percepção e a divulgação de temas que marcam o nosso quotidiano. Este estado de coisas é particularmente sensível nas escolas, particularmente nas temáticas ligadas ao ambiente. Já por si a ecologia ( como a metereologia ), enquanto áreas de estudo cientifico, apresentam dificuldades muito próprias. Perceber o funcionamento de sistemas dinâmicos não é exactamente a mesma coisa que estudar a anatomia de uma rã anestesiada numa bancada de laboratório. O ambiente é um processo permanente de interacções complexas, onde é raro que a mesma coisa se repita durante muito tempo. Esta permanência na mudança é evidentemente um problema quando se trata de objectivar. Não é fácil confirmar uma proposição feita sobre algo que não pára “quieto”, não se repete nem é repetível artificialmente. O que não é aceitável é que se pretenda ultrapassar estas dificuldades metodológicas cunhando de definitivo e sólido o que é fluido e provisório, de cientifico o que é especulativo.

A compreensão total do funcionamento dos sistemas naturais poderá estar para lá da nossa capacidade de os entender. Apoiados nessa premissa seria prudente reforçar a humildade e perceber que o que se vai adquirindo são visões parciais de parcelas delimitadas num tempo curto, para que não se caia em erros grosseiros, como acontece quando se tenta projectar o futuro com base no passado como se a mudança não fizesse parte da equação. Algo semelhante acontece quando se procura proteger uma espécie e se esquece o habitat, quando nos preocupamos com o individuo e esquecemos a população, quando escolhemos o bonito e negligenciamos o feio.

Há quem defenda que este género de derivas possa ser devedora do facto de as actividades ligadas à ciência se terem expandido para fora das suas fronteiras habituais, tradicionalmente confinadas a departamentos estatais ou instituições com fortes ligações ao mundo académico. Na actualidade, associações, ONG’s, empresas, fundações, contratam especialistas e fazem ou aplicam ciência. Contudo, nesta moldura, nem só as linhas de investigação não se tornaram aleatórias como a apresentação de resultados deixou de ser uma consequência natural da actividade desenvolvida, passando a ser um elemento de pressão sobre os próprios resultados, pois da sua avaliação pode depender a sobrevivência do projecto. E daí ? Melhorou a independência da ciência ? Alterou-se a sede de protagonismo dos seus agentes ? Piorou a objectividade ?

Pretender dar resposta a este tipo de questões é um exercício que acaba sempre por desaguar numa contabilidade inconclusiva. Quem quer que seja consegue angariar argumentos para qualquer das teses que defenda. É evidente que com a “secularização” da ciência a sociedade civil ganhou clara relevância na governança, e a possibilidade de fazer ciência independente existe. Mas a actividade cientifica é cara, e não sejamos ingénuos ao ponto de pretender que mesmo o mais insuspeito mecenato é imune aos interesses ou aos jogos de poder que inevitavelmente se organizam em redor dos processos de aquisição e gestão do conhecimento.Na verdade, o american way de “fazer ciência” difundiu-se. Quer dizer, generalizou-se a necessidade de qualquer projecto de investigação, conservação, preservação, procurar e criar as suas próprias condições de subsistência. Ora estes processos criam dinâmicas de dependência muito próprias e não são raras as vezes em que se dá uma inversão da lógica que os inicia, quando a finalidade da iniciativa passa a ser a manutenção duma estrutura ou o modo de vida dos respectivos actores.

Qualquer empresa privada ligada ao ambiente exemplifica esta situação. Ela tem de facturar para sobreviver, e por isso é natural que possa sentir dificuldades em compatibilizar a sua subsistência com a objectividade e o rigor nas matérias sobre as quais exerce a sua actividade. Qualquer área protegida ou qualquer ONG dedicada à conservação vivem esse mesmo tipo de constrangimentos. Uma vez instaladas elas criam rotinas e habituações, e é inevitável que sintam dificuldades em separar os interesses pessoais que se constituem da objectividade da respectiva esfera de acção.As ONG’s em particular, não se podem dar ao luxo de ter ao seu serviço maus defensores das causas que as movem. O problema é quando o estatuto de credibilidade que lhes é concedido pela dedicação, pelo empenho ou pela combatividade que revelam, se confunde com a validade dos critérios científicos em que se apoiam, pois em ciência a credibilidade não é uma questão de convicção, de empenho, de oratória, ou sequer de valores.

Sabe-se que a objectividade tem naturais dificuldades em se despir dos valores de quem a procura. Contudo, a confiança que se deposita na ciência deriva da expectativa de rigor e imparcialidade que dela se tem, e importa preservar essa reserva. Por isso ao cientista tudo o que se pede é que produza conhecimento de forma tão objectiva quanto possível, e que o divulgue de forma acessível, de modo a que o processo social e politico possa gerir os conflitos no sentido do interesse público quando se trata de tomar decisões. Nada mais que isso. Ainda que esteja coberta de razão e de boas intenções, não compete à ciência nem aos seus agentes definir o que é do interesse público nem colmatar com manipulações a informação para forçar os processos de decisão no sentido do que lhe parece certo. Quando a ciência toma o partido da crença e a defende, mesmo pelo lado do bem, manipula uma faca de dois gumes, pois se a crença se revela errada é a credibilidade de toda a instituição que se malbarata.

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Recursos e População


Quando usada em ecologia, a ideia de retroacção pretende caracterizar a capacidade que a vida aparenta de aprender com a sua própria experiência a gerir os condicionalismos que são inerentes à sua dependência dos recursos disponíveis. Não se trata de uma aprendizagem linear, mas antes de sequências de ciclos de sinal contrário alternados por factores de regulação próprios.

Pode-se explicar melhor a retroacção ecológica ligando-a à dinâmica de uma população e ao comportamento dos recursos de que necessita. De uma forma geral podemos dizer que o crescimento de uma população está sempre associado a uma maior disponibilidade de recursos. A introdução no sistema de um novo recurso que permita aumentar essa disponibilidade, e que tanto pode ser um novo território como o domínio de uma nova técnica, é um factor de retroacção positiva porque promove o crescimento da população. A morte de indivíduos decorrente do desajuste que entretanto possa advir do crescimento da população assim desencadeado, e a capacidade de crescimento não proporcional dos recursos, é exemplo de um factor de retroacção negativa.

Historicamente, as sociedades humanas parece terem sido capazes de apreender os princípios deste funcionamento, pois reduziram a contingência que lhe é inerente. Fizeram-no identificando empiricamente uma fonte de energia inesgotável ( solar) e um processo natural para o seu aproveitamento ( fotossíntese ) através de uma técnica ( agricultura ) que permitiu criar reservas. Embora mantendo o principio, fizeram-no sob o signo de uma enorme diversidade de soluções. Não por capricho, suponho, mas em resultado de diferentes percepções da variedade de condicionalismos geográficos com que se depararam em cada território concreto. De tal modo que em bom rigor pode afirmar-se que a diversidade dessas abordagens aos constrangimentos locais foi ela própria a chave do sucesso da colonização humana, uma vez que em cada momento o êxito de uns permitiu compensar o insucesso de outros. Pelo contrário, a ultrapassagem das bandas de tolerância desses condicionalismos parece ter tido papel de relevo no fim de ciclos civilizacionais de prosperidade que tendencialmente parecem ter sido tão mais catastróficos quanto mais se edificaram sobre dinâmicas de especialização em ciclos persistentes de retroacção positiva. Civilizações como as Mesopotâmicas, Egípcias, Maias, ou outras, bem que podiam ser relidas nesta chave.
Mas usemos um exemplo relativamente recente e razoavelmente estudado para ilustrar este ponto: a relação da Irlanda com a batata.

Introduzido em meados do século XVI, o cultivo da batata deu origem a um ciclo de prosperidade na Irlanda. Por unidade de energia incorporada no processo produtivo, o cultivo da batata respondia com colheitas proporcionalmente mais energéticas que as tradicionais e dessa forma gerou excedentes que permitiram suportar um crescimento significativo da população, dinâmica que se manteve sem sobressaltos de maior até meados do século XIX . A batata ( novo recurso ) é neste caso bom exemplo de um factor de retroacção positivo. Mas é também exemplo do efeito nefasto da especialização. A deriva para a monocultura e a sua intensificação conduziram ao esgotamento do fundo de fertilidade, ao consequente aumento da susceptibilidade da batata a doenças e pragas, ao declínio abrupto da produção e à fome de quem delas se alimentava ou dependia face à inexistência de alternativas económicas. A consequente morte ou migração de milhares é exemplo de um factor de retroacção negativa que desencadeou o reequilíbrio da relação entra a população e os recursos.

Hoje dir-se-ia que a ciência e a técnica encontraram soluções para lidar e evitar este tipo de contingência. E aparentemente assim é, porque com fertilizantes de síntese e pesticidas teria sido possível manter a monocultura da batata pelo menos por mais algum tempo. Mas se digo aparentemente é porque existe uma óbvia propensão para confundirmos variáveis de fluxo com variáveis de estado e para esquecer que umas e outras não se comportam do mesmo modo.

De facto embora o stock de batata e a população dum território num momento dado sejam ambas variáveis de estado (ou de nível ), as variáveis de fluxo que as caracterizam não são do mesmo género. Ou seja, a produção de batata e o seu consumo ( duas variáveis de fluxo porque ocorrem ( fluem ) entre dois momentos no tempo ) dependem de fenómenos diferentes. Enquanto a produção ( enchimento do reservatório de stock ) não tem um crescimento constante e directamente proporcional ao investimento em factores que nela possa ser feito ( trabalho, fertilizantes, pesticidas ), o consumo ( esvaziamento do reservatório ) é constante e directamente proporcional à população, cujo crescimento tendencial é do tipo geométrico.

Claro que o tempo ecológico não é repetitivo como o da mecânica: é histórico, e por isso produz simultaneamente continuidade e novidade. Mas o bom governo que pretenda minorar os impactos sobre as comunidade humanas dos ressaltos de auto-regulação que naturalmente integram os ciclos de retroacção que comandam a vida, haveria pelo menos de retirar duas ilacções dos conhecimentos que nos tem cedido a compreensão da ecologia . A primeira é que, ao contrário da especialização, que tem sido muito promovida pela modernidade mas que potencia a dependência, a diversidade constitui por si mesma um capital de reserva porque reduz a amplitude das oscilações entre ciclos de retroacção. Ora, nos dias que correm, a energia está para o Ocidente como a batata esteve para os Irlandeses. A segunda ilacção é que, no limite, o equilíbrio possível das interacções entre população e recursos não se resolve apenas pelo lado dos recursos. No entanto, até hoje, só Mao retirou daí consequências politicas.

domingo, 2 de novembro de 2008

Ecologia Ideológica


A visibilidade adquirida pelo movimento ecológico deve muito ao facto de alguns dos temas centrais da sua agenda terem sido, em determinada altura, adoptados como bandeira por alguma esquerda política preocupada com a renovação do seu discurso tradicional. Esta tendência ficou bem patente com a constituição nos anos setenta do Die Grünen, que acabou mesmo por eleger deputados ao Parlamento Alemão em 83 e mais tarde integrou com o SPD um governo de coligação (1988-2005). Opondo aos sistemas de gestão social centrados no crescimento económico, assimétricos e depredatórios, a ideia dos sistemas ecológicos, como harmoniosos e sustentáveis, os Verdes inovaram na crítica ao capitalismo e às suas dinâmicas. Percebe-se a intenção. Mas a falta de rigor da comparação e o facto de ter dado azo ao uso da ecologia como fonte de metáforas nem sempre ajustadas mas que se instalaram de forma duradoura no main-stream (veja-se o caso da sustentabilidade), poderá ter contribuído para mistificar a essência das questões da ecologia humana e dessa forma ter desvirtuado inadvertidamente o sentido e a boa-fé de alguma acção política que nela se pretendeu inspirar. Ao ponto de o movimento ecológico ter aberto a porta à refundação do capitalismo que pretendeu combater, desta vez em versão de novas oportunidades - verdes, claro.

No entanto, para esta conversa, o que me interessa destacar desse processo, é que a apropriação pelo discurso político da linguagem e do corpo conceptual fundador da ecologia trouxe, de facto, para o campo da acção governativa, noções importantes, como as de interacção, retroacção, sistema, complexidade; trouxe-as, mas não se fez acompanhar de uma nova chave de leitura que alterasse o modelo mental de matriz analítica e linear que usamos para Nos entendermos. Quero com isto dizer que embora tenhamos sido capazes de adoptar a ideia da existência de sistemas complexos, continuamos a evidenciar sérias dificuldades em interpretá-los em funcionamento. Na realidade, continuamos a “desmontá-los” para explicá-los a partir de um duplo pré-conceito : de finalidade e de complexidade.

A noção de finalidade, subjacente à generalidade das leituras que fazemos do mundo, implica um vector temporal, ou seja, uma lógica segundo a qual existe um antes e um depois, no duplo pressuposto de que todos os acontecimentos têm necessariamente um princípio e um fim. Mas a ideia de finalidade leva-nos ainda mais longe que isso, quando nos condiciona a pressupor que o que é simples tenha que anteceder o que é complexo, criando assim uma terrível ratoeira ao pensamento de síntese que, na prática, tem enorme dificuldade em descolar da ideia que se tem da síntese química, como processo do elementar para o composto. Ou seja, não se concebe que a água possa ter “acontecido” sem que antes tivessem surgido o oxigénio e o hidrogénio. Quer isto dizer que conseguimos entender ideias como ciclo, mas temos a maior dificuldade em entender outras como retroacção, pois não possuímos linguagem para explicar esses processos sem os “seccionarmos” para os lermos planificados à luz duma dicotomia de causa e efeito. Por isso, as melhores teorias que conseguimos para Nos explicar, como a da Evolução, tendem a demonstrar o pluricelular como resultado da organização do unicelular, o complexo como sofisticação do elementar, o que é global como somatório do que é local, e tudo isto a partir de um princípio, seja ele Deus ou o Big Bang, e com a perfeição, a felicidade ou o progresso como destino.

A teoria de Lovelock tentou romper esta moldura conceptual. Mas o entendimento da Terra como super-organismo auto-regulável e como entidade não pré-determinada, funda-se sobre noções de contingência e desordem que são inaceitáveis para a maioria dos critérios civilizacionais. Por esse motivo, a hipótese GAIA também não conseguiu resolver o conflito mal percebido que se instalou entre a compreensão da ecologia como conhecimento das dinâmicas de retroacção associadas aos fenómenos de casualidade, contingência, conflitualidade e desordem que são inerentes à manifestação da vida, e o entendimento da especificidade da ecologia humana como tentativa de encontrar, dentro dessa compreensão mais lata, compromissos específicos de previsibilidade e ordem. Claro que em parte esse desfasamento poderá ser explicado pelo uso metafórico ou ideológico desses conceitos, o que poderá ter mistificado a sua compreensão. Mas para além disso, a verdade é que não conseguiu construir pontes sólidas entre a noção de complexidade e a sua governança. E este é, a meu ver, o duplo drama do ambientalismo na maioria das suas variantes. Digo drama porque pretende transpor para a acção política uma imposição que é também uma impossibilidade prática: a de produzir um sistema humano estável tendo por modelo pressupostos dos ecossistemas ecológicos que não são estáveis nesse sentido de homogeneidade, permanência e de não contingência que lhes pretendemos atribuir. E digo duplo drama porque vive na permanente tentação de o fazer à escala global, quando na verdade a ideia de globalidade é uma abstracção.

De facto, a partir do momento em que julgamos ter apreendido o funcionamento da vida no seu conjunto, aumentou também a propensão para identificar problemas globais e consequentemente para pensar em soluções globais segundo critérios igualmente globais. Mas, a meu ver, o recurso à ideia de globalidade construi-se sobre fortíssimas contaminações ideológicas pois ela justifica na perfeição a deriva monolítica da modernidade: um paradigma ( progresso ), uma cultura ( ocidental ), uma língua ( inglês ), um sistema económico ( capitalismo ), um sistema político ( democracia), uma medicina ( fisicalista ), uma ciência ( materialista ), um clima ( inalterável ) e por aí adiante. A lógica é mais uma vez linear: um problema, uma explicação, uma solução. Veja-se o exemplo do mercado mundial do carbono. Sucede, no entanto, que esta deriva unificadora leva aos antípodas da compreensão da Vida como entidade sistémica. A razão é simples: ignora a variabilidade e a diversidade como valores centrais da Vida, e em que as melhores soluções não são necessariamente as mais complexas. Ou, dizendo o mesmo de outro modo: o bom governo depende do bom entendimento de cada globalidade local. É nessa escala que se define ou não a sustentabilidade dos processos concretos que promovemos para atingir o objectivo de sempre de regular a contingência a que estamos naturalmente sujeitos.

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

O Inferno da Quercus


Quando andei na primária, competia à Escola o ensino das coisas mundanas e à Igreja a iniciação nas que supostamente nos transcendiam. Havia, pois, uma certa complementaridade de tarefas entre as duas instituições. Enquanto a Dona Bárbara tratava de nos pôr a par dos pequenos mistérios da leitura, da escrita e da aritmética, a Menina Cremilde explicava-nos na catequese o que era propriedade do “indecifrável”, afirmando com a autoridade inerente à condição de mandatária do Padre Oliveira, legal representante do divino na freguesia, que “o céu e a terra”, bem como “ todas as coisas visíveis e invisíveis” eram criação de Deus. Assim mesmo. Seria ainda Deus quem após a nossa morte se encarregaria em processo sumário de decidir o que nos reservava a vida eterna. Para isso, iria ter em conta o registo da vida terrena, e nem pensar em aldrabar o relatório, porque, ao contrário da minha mãe, Deus era dotado de duas características incontornáveis: era omnipresente e omnisciente. Não havia pois como lhe dar a volta. Por isso, a nós, pequenos candidatos a pecadores, confrontados com versões dantescas do inferno e outras ameaças de terror apocalíptico, não nos restava outro caminho senão o cumprimento de um pesadíssimo “caderno de encargos” para evitar destino tão assustador.

Convenhamos que a abordagem era bastante pragmática, pois contribuía para um reforço bastante efectivo da capacidade dos poderes instalados controlarem um grupo de comportamentos que consideravam socialmente indesejáveis, mesmo sabendo que o faziam com recurso ao simplismo mais tosco e que desse modo cultivavam o obscurantismo. É sabido que pessoas bem formadas e informadas são mais difíceis de manipular. Por isso, o controlo da informação sempre foi um instrumento de exercício do poder, e daí as dificuldades sentidas pelo Iluminismo e pelo Racionalismo em fazer passar outras leituras do mundo. Mas conseguiram-no, e ao consegui-lo passaram também a ter uma influência decisiva no exercício do poder.

O que eu não estava de todo à espera é que passados todos estes anos os homens e mulheres da ciência do nosso tempo, herdeiros das luzes e paladinos da razão, os mesmos que nos abriram janelas para outras leituras do mundo e da vida, não consigam encontrar melhor forma para ajudar o povo a destrinçar o bem do mal nesta nova ordem que ajudaram a instalar senão desenterrando os velhos espectros do inferno e do terror dos destinos apocalípticos.

Mas é o que acontece.

A Quercus, por exemplo, que não se inibe de alinhar na propensão catastrofista que se generalizou entre as organizações ditas ambientalistas, promove na RTP2 um comercial em que confronta o espectador com a sua versão do inferno: um canguru a suicidar-se numa linha de caminho de ferro, um chimpanzé a enforcar-se com uma liana ressequida em cima de uma árvore estorricada e, como não podia deixar de ser, um urso polar a atirar-se de uma falésia abaixo naquilo que se apresenta como antevisão da Gronelândia sem gelo nem focas. Tudo num cenário vermelho e negro que rivaliza sem favor com as melhores ilustrações do inferno imaginadas por Alligeri.

A formatação alternativa que a ciência construiu para nos explicar o mundo, tem na mudança uma constante. Tanto na geologia como na biologia, a ciência elaborou um conjunto relativamente coerente de teorias que nos explicam como sendo entidades em processo num contexto em processo, e usa indícios fortes para ilustrar essas teses, como a deriva dos continentes ou a evolução das espécies. Nesse sentido, a ciência representa-nos como figurantes transitórios num sketch de uma longa metragem em rodagem, sem guião, e sempre inacabada.

Por isso me soa muito estranho que quem nos ajudou a nos entendermos como processo em mudança induzida por conjugações aleatórias de factores incontroláveis, não só nos proponha agora concepções estáticas dos fenómenos que suportam a vida como ainda por cima nos ameace com o inferno se não as conseguirmos preservar. Ou seja, num dia demonstra-se que os Himalaias se formaram em fundo marítimo, e no dia seguinte pretende-se induzir comportamentos que evitem futuras alterações do nível do mar. Ora este é um dos grandes problemas das derivas conservacionista: o subtexto que se apoia na ideia peregrina de que chegamos a um destino, seja ele geológico, biológico, climático, ou de outra ordem qualquer, que considera este estádio ideal e por isso, subentende-se, pode e deve ser preservado, mesmo que tal atitude entre em completa contradição com a ordem natural de conflitualidade e mudança que marcam a história da vida e que a ciência tem sobejamente documentado.

O caso do clima é paradigmático. Embora estejam bem fundamentadas fortes evidências de importantes alternâncias na dinâmica climática passada, e a história tenha inclusive bem documentadas mudanças climáticas relativamente recentes e bastante significativas, ilustradas por evidências de avanços e recuos periódicos de gelos e níveis do mar, tal como de desertos ou florestas, ainda assim não se hesita em colocar eventuais futuras mudanças do clima no topo da agenda das preocupações ambientais.

Sabendo-se que o clima não é constante e é determinado por um conjunto muito diversificado de variáveis cujo funcionamento está longe de se encontrar bem compreendido, o bom uso da lógica deveria permitir deduzir que, mesmo admitindo a eventualidade de mudanças climáticas induzidas pelas actividades humanas, só seria possível transformar essa eventual correlação numa demonstração inequívoca de causalidade se houvesse forma de “desligar” todas as variáveis não humanas que interferem na dinâmica do clima, e isso é impossível. Mas demonstrar que, muito antes de eventualmente se reflectirem no clima, algumas dessas actividades têm impactos directos e imediatos sobre a sustentabilidade dos modelos sociais que suportam, não o é. Isto para dizer que provavelmente existem dinâmicas instaladas com potencial de sobra para pôr o nosso modo de vida de patas para o ar muitos antes de qualquer mudança climática ter a mínima possibilidade de o fazer, e não é necessária grande imaginação para encontrar exemplos. Quando se instala uma cidade e se constroem os respectivos prédios, incluindo caves, na foz duma linha de água, e por razões de estética urbanística se bloqueia ainda a drenagem natural, como acontece em Albufeira e na maioria das cidades costeiras, não é preciso nem que o mar suba de nível nem que se altere o regime pluviométrico para que a primeira chuvada generosa dê cabo da vida de quem teve a infeliz ideia de ali se instalar. Centenas de outros exemplos tão elementares e pertinentes quanto este deveriam bastar para questionar a racionalidade das nossas opções quotidianas. E embora se perceba que não é fácil definir uma estratégia educativa conducente a uma boa compreensão destas dinâmicas para desse modo construir sólidos alicerces de mudança qualitativa, isso não deve servir de desculpa para que se combata o nonsense instalado nos nossos modos de vida com argumentos e estratégias de nonsense de sinal contrário.

Mas é o que acontece quando se usa em defesa da tese do aquecimento global afirmações como a de que o actual nível de CO2 atmosférico é o mais elevado dos últimos 650.000 anos! Por duas razões. Desde logo porque só se concebe uma dimensão temporal com essa escala da centena de milhares de anos recorrendo a somatórios de abstracções sucessivas. E além disso porque aceitar como bom o conhecimento exacto da composição da atmosfera nessa época requer algo mais que uma dose extra de abstracção: é necessário um verdadeiro acto de fé. Não no sentido de fé em que a composição do ar aprisionado no gelo não se altera em centenas de milhar de anos nem durante a sua extracção, ou em que a exactidão das datações e a precisão dos instrumentos e dos métodos de medida estão para lá de qualquer reserva. Mas de fé no sentido do impacto que produz no homem comum que, na impossibilidade de ter em relação a este tipo de argumentos uma compreensão fundamentada, só lhe resta acreditar na autoridade de quem a produz. É nesta medida que encontro em muita da informação debitada em prol das alterações climáticas inequívocas semelhanças com a que a Menina Cremilde nos facultava na catequese sobre a autoria da criação. E tal como ela ameaçava os cépticos com as chamas do inferno, há agora quem ameace os “negacionistas” com cenários de apocalipse ainda mais rebuscados. Receio é que, a prazo, se arrisquem a obter o mesmo resultado: a descrença de quem venha a ousar pensar pela sua cabeça. E não é à descrença em Deus que me refiro. Mas nos homens. Mesmo nos de boa vontade que, sem cavalos de Tróia ( como é o aquecimento global ), se esforçam por introduzir alguma racionalidade nas interacções ambientais que vamos protagonizando.