quinta-feira, 18 de novembro de 2010

A Guarda Verde

Quando nos finais dos anos sessenta do século passado Mao-Tsé- Tung achou que a sua revolução estava a descambar, convocou os chinocas mais novitos, passou-lhes para as mãos um livrinho com a sua versão dos mandamentos e mandou-os “reeducar” o povo pela nova cartilha. Ficaram conhecidos por “guardas vermelhos” e a sua intervenção na sociedade chinesa para repor a revolução nos carris que Mao idealizara está bem documentada .

Tal como muitos outros personagens, nem todos célebres, também Mao percebeu que a juventude é um campo fértil para cultivar doutrinas. Como naturalmente lhe falta experiência de vida e tem pressa de mundo, a rapaziada é mais receptiva a soluções idílicas do que a dúvidas concretas. Aprender a questionar sempre dá mais trabalho e requer mais tempo do que a papaguear ideias pré-fabricas. Por isso, independentemente do seu valor intrínseco, qualquer proposta inovadora constitui um plus para a incontornável vocação catequista do activismo juvenil. E daí não viria mal de maior ao mundo se nele não houvesse quem tivesse percebido como usar essa disponibilidade para dar corpo a agendas no mínimo questionáveis.

Poderia pensar-se que actualmente o mundo estaria mais sensato e evitaria esses abusos da idade da inocência, mas não é o que parece. A demonstrá-lo está aí um remake da actuação da guarda vermelha em horário nobre e na televisão pública. Armada de uma cartilha pseudo-científica e motivada pela fantástica ideia de que o planeta precisa de ser salvo, uma simpática miúda camufla-se de tonta e entra pelas casas da malta a etiquetar a eito de “culpado e eco-criminoso” o desprevenido consumidor. E o coitado pasma! Boquiaberto, nem sequer consegue questionar como é que a mesma caixinha que passa o dia a incentivá-lo a comprar tudo e mais alguma coisa, tem o topete de o vir insultar às dez para as dez quando o gajo finalmente se senta em frente ao televisor e se prepara para rematar mais uma esgotante jornada de produção consumindo o telejornal da Felgueira ! Não fosse a estupefacção e decerto punham a moça na rua. Mas não. Revelando um notável estoicismo, submetem-se. E a procissão lá foi fazendo o seu caminho sem que o Sr Paquete de Oliveira dê mostras de ter algo a dizer.

O programinha chama-se “desafio verde” e não é novo mas mudou de atitude! Uma mudança que não passaria de mais um  desvario televisivo se não se desse o caso de várias escolinhas e muitos professores fofinhos apoiarem e promoverem a iniciativa. Acham, dizem, que estão a fazer educação ambiental. Mas o que assim revelam é que são uns imaturos semi-instruidos que não percebem nem o que é educar nem o que é ambiente. Levianamente, estes kidos estão apenas a fazer da escola uma variante verde aos campos de treino onde se doutrinavam as juventudes maoistas. E a contribuir activamente para que o site recentemente criado pela PGR para recuperar a tradição pidesca dos bufos, possa também vir a revelar-se um enorme sucesso para a denúncia verde anónima.

13 comentários:

F. Dias disse...

Muito bem, Manuel Rocha.
Tapa-se de um lado e destapa-se do outro. Ou, não se pode entrar pela porta da frente, e entra-se pelas traseiras. Está tudo maluco. Também me sinto arrependido de na minha juventude quase me ter deixado agarrar pelos maoistas, não fosse na altura já ser politicamente incorrecto, e não conseguir acertar o passo pelo rebanho.

Um abraço

Anónimo disse...

Juro que já me tinha perguntado como era possível que o Manuel ainda não tivesse dado uma "tareia" no programinha, como lhe chama.

lol

Florbela

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Nunca vi esse programinha da treta! Não sou muito sensível a essas temáticas pseudo-ecologistas! O Ocidente anda todo maluco: os que defendem os direitos dos animais são a prova disso. Estas criaturas burras desvalorizam a humanidade e colocam-se ao nível da "mentalidade" bovina! Isto está mesmo mau...

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Porém, há uma diferença importante entre as juventude maoístas e a guarda verde: as primeiras protestavam em nome de um mundo diferente e de uma humanidade liberta, enquanto as actuais juventudes perderam completamente a capacidade de pensar: elas vivem num mundo mágico. :(

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Por outras palavras, as actuais juventudes são rebanhos... :(

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

E o seu estudo já não pertence à antropologia, mas à zoologia.

Anónimo disse...

Se coisas não têm melhorado com jovens é antes de mais clamorosa falha adultos, que não tiveram nada significativamente melhor para transmitir ou não o souberam fazer. A burrice também se herda.

Cumprimentos,

Trigo Pereira

Anónimo disse...

Deve ser limitação minha mas escapou-me o que possa ter o assunto do post a ver com o site da PGR ! Acha que a corrupção não deve ser combatida de todas as formas possíveis ?!

Lino Camacho disse...

Ahaha !

O anónimo do comentário anterior deve-se chamar Angélico !
Então não sabe que para fazer omeletes são precisos ovos ? E que para ter ovos temos de criar as galinhas ? Nunca ouviu falar das juventudes hitlerianas, dos camisas negras e de outras mocidades organizadas e com grande espirito de corpo de tal forma que conseguiam ser mais fundamentalistas que os próprios criadores ?

alf disse...

Um prazer ler este post...

antónio m p disse...

Acabo de ouvir o Evo Morales a usar a mesma citação que você usa no perfil: "Só os peixes mortos não nadam contra as correntes!"

Ao trazer aqui a minha concordância, aproveito para "matar dois coelhos" (não digo dois robalos porque estes gostam de águas agitadas): saudá-lo a si e a Morales.

joshua disse...

Grande Manuel!

Bravo!

Abraço.

RioD'oiro disse...

http://fiel-inimigo.blogspot.com/2011/05/guarda-verde.html

Chapelada.