terça-feira, 15 de julho de 2008

O que se deixa ...


Existe um antigo género de exercício de especulação que consiste em pretender determinar como seria hoje a realidade social se ontem se tivessem tomado decisões diferentes. Parece que está na moda, depois de rebaptizado como “análise contrafactual”. O nome é pomposo, como convém, mas confesso que dou pouco crédito a esta “invenção” dos homens da história económica, que só não me parece pura perda de tempo porque o processo pode ajudar a compreender melhor a enorme variabilidade de ingredientes com que se faz a história.

Já se devia ter percebido que não chegamos onde estamos graças a processos de rigorosa intencionalidade objectiva, contrariamente ao que pretendem certas concepções ideológicas. De facto, se nem mesmo o produto da mais rigorosa engenharia é concluído exactamente como o projecto que o concebeu, não admira que os desfasamentos entre o que se sonha e o que se realiza se acentuem quando é o projecto de uma sociedade que está sobre o estirador, embora tenha de se conceder que o “gene egoísta” tem tido indiscutível papel na história desses desfasamentos, e nomeadamente nas suas derivas capitalistas. E embora existam excelentes defensores dos méritos “contrafactuais” do capitalismo liberal, nem por isso ele deixa de ser de critica incontornável.

Digo de crítica incontornável desde logo porque o capitalismo não foi capaz de resolver a conflitualidade inerente à relação entre o indivíduo e a comunidade ou entre as comunidades - limitou-se a mudar o terreno e o cenário desses conflitos. Em lugar do desconforto dos tradicionais campos de batalha, a versão moderna dos eternos jogos de poder optou pelo conforto do ar condicionado das praças financeiras das grandes capitais. Esta mudança corresponde a uma alteração de método na velha estratégia de disputa de territórios e recursos. O mundo mantém-se assimétrico, é verdade, mas o que o poder cedeu no campo militar e no carisma dos seus líderes, foi compensado pelas virtualidades do anonimato adquirido pelo capital financeiro, um novo género de eminência parda que, sem rosto nem bandeira, põe, dispõe anestesia e controla, perante a incapacidade de reacção objectiva dos governos.

Bom exemplo de que assim é tem sido a recente novela dos preços dos combustíveis e dos cereais, com os “oito maiorais” a reconhecer simultaneamente que a escalada é especulativa e que não têm meios para a contrariar, embora seja óbvio que esta falta de “meios” deve ser lida como falta, sim, mas no contexto duma ordem instalada cuja bondade se tornou dogmática.

Portanto, em lugar do recurso exclusivo à força das armas, o poder como exercício de dominação “evoluiu”, complementando-se com a criação e promoção de uma interminável panóplia de necessidades supérfluas através das quais controla os acontecimentos tecendo complexas teias de dependências. No topo dessa lista de dependências encontra-se o consumo do que não é essencial, processo cuja banalização emprestou aos indivíduos que vivem dentro do sistema e o alimentam, uma ideia de liberdade, uma imagem de prosperidade, um paradigma e um sentido, que são postiços .

São postiços por três ordens de razões. Em primeiro lugar porque se concebem como se os recursos em que se suportam fossem ilimitados e renováveis, e não são. Em segundo lugar porque são tidos como decisões autónomas mas correspondem a necessidades claramente manipuladas. Por último porque os mecanismos que os gerem preocupam-se com a boa “saúde” do sistema capitalista em si e não com a do sistema mais vasto em que os seus destinatários se inserem.

Ora é em torno destas questões, parece-me, que deveria ser discutido o equilíbrio entre os nossos sonhos civilizacionais e as respectivas possibilidades de materialização, como se de uma prospectiva contrafactual se tratasse. Isto, claro, se se considerar inaceitável a presente inexistência de um sentido colectivo capaz de transcender as consequências das grandes convulsões sociais cuja correlação com as lógicas associadas aos sistemas económicos são por demais evidentes.

É claro que esse sentido não tem de ser hegemónico, como se de uma outra globalização se tratasse. A diversidade de soluções na concepção das formas de organização social e económica, tal como na concepção dos bens e do seu uso, parece-me um valor em si mesma, porque constitui uma defesa “natural” contra os “azares” dos processos históricos e por isso a advogo. Mas, claro está, essa diversidade não é incompatível com o uso do conhecimento de que dispomos e que dá conta da importância de algumas premissas que podem bem, elas sim, funcionar como regras gerais.

A primeira dessas premissas é a necessidade de critérios de perenidade nas interacções que estabelecemos com o meio. A segunda, o imperativo da equidade nas interacções que estabelecemos com os outros.

Porquê estas e não outras?

Certo dia, numa daquelas apaixonantes discussões que costumavam marcar os fins de tarde domingueiros no café do Zé David, a discórdia derivou para a paramenta dos funerais. Tudo isto porque o Alves, o alfaiate lá do burgo, ficara indignado com o desperdício que representava o uso de um fato da melhor fazenda e ainda para mais praticamente acabado de estrear, para amortalhar a imprevista e precoce morte do Veiguinha. A situação merecia-lhe particular consternação porque o dito fato até assentava que nem uma luva ao Amílcar, o filho do defunto, conforme de resto se sabia porque o usara de recurso no baptizado do primogénito da prima, pois não tinha fato próprio e a função de padrinho do inocente merecia alguma compostura.

Quando se fartava de um assunto, o meu avô encontrava sempre uma frase que proferida no tom certo funcionava como inegociável remate. Foi o que fez com a seguinte tirada:
- Bom! O que interessa não é o que se leva…mas o que se deixa!
E foi já a caminho de casa que, como mandava o bom senso, resolvi retomar a questão:
- E o que é que se deixa, avô?
Recebi de troco uma expressão de sincera decepção:
- Ora essa!!!...

Claro que só mais tarde percebi que este conceito de futuro do meu avô incorporava passado e sonho. Passado porque não nos concebia como vindos do nada. Sabia-se descendente de gente concreta e vivera sobre o seu legado. Mas de um legado em devir, que não subsiste sem o sentido da obrigação que temos de o consolidar para a inevitável passagem de testemunho. Contudo, consolidar não significa que se deixe mais, pretende sim que se deixe melhor, o que pressupõe uma cultura de património que por si só corporiza um sentido.

É por esta razão que as utopias de desenvolvimento que ouço invocar a propósito e a despropósito, só me parecem coerentes quando as pressinto pensadas como processo para uma humanidade melhor. No entanto, uma humanidade melhor não é uma entidade que eu consiga conceber como mero improvement das variantes de convívio vigente entre a obesidade de uns e a desnutrição de outros, como resulta da obscena assimetria que se observa no acesso aos recursos e no seu uso. Daí que coloque a equidade social como corolário ético natural de um humanismo cuja maturidade terá de encontrar maneira de se materializar em soluções condizentes.

Idealmente, essas soluções passariam por formas de organização política, económica e social capazes de assegurar justeza no acesso e distribuição dos recursos, tendo ainda e além disso de ser capazes de assegurar funcionamentos sustentáveis. Porém, sociedades equitativas edificadas sobre fundações perenes, requerem mais do que projectos legislativos que enumerem comportamentos obrigatórios, pois é sobre atitudes individuais concretas em territórios bem definidos que elas enraízam.

Na realidade, culturalmente não existimos como átomos independentes, mas como entidades orgânicas onde os equilíbrios necessários ao bom funcionamento do conjunto não se alcançam em condições de clara hipertrofia de um dos seus órgãos, como vem sendo o caso da magna importância atribuída ao indivíduo nesta pós-modernidade. Daí que, quando se ensaia uma critica em devir ao presente, ela não possa, a meu ver, ser consequente sem ter em conta essa “integração” dos sentidos da vida – o individual, transitório, e o colectivo, de longo - prazo. E há pelo menos uma boa razão para que seja assim: é que a mudança qualitativa requer um desígnio comum. Não necessariamente um desígnio como um destino, mas como percurso ou processo em que o que ainda–não-aconteceu e o que ainda–não– se-antecipou se confundam numa espécie de bissectriz de um ângulo oposto à diluição cultural que tem vindo a fazer da acumulação e do individual-efémero o primado do nosso paradigma, com completo desprezo pelo sentido do patrimonial e pelo bem comum como valores.

7 comentários:

Anónimo disse...

Questões pertinentes e muito bem desenvolvidas. Apreciei francamente o ponto de vista. Faltariam talvez alguns exemplos de atitudes concretas a que se refere no final. Cumprimentos pelo texto.

Blondewithaphd disse...

Bem, é preciso fôlego para este teu texto!!! E tempo de digestão também! Gostei dessa ideia de cultura de património e da questão do supérfluo (não será essa a ideia do travejamento social de hoje em dia, afinal?). Preciso mais (re)leituras, confesso!

Anónimo disse...

Faz todo o sentido o que diz. As sociedades são hoje meros somatórios de reinvidincações de projectinhos de vidinhas de criaturinhas sem sentido de conjunto. É o primado do cada um por si, do salve-se quem puder e quem vier atrás que feche a porta.
Como bem explica, essa pulsão individualista tem sido terra fértil para o crescimento deste capitalismo "anónimo" que nos formata por inteiro desde o que vestimos ao que bebemos. Acompanho as suas reservas sobre a viabilidade dos projectos sociais que pretendam mudanças qualitativas enquanto se mantiver no rumo que se connhece o sentido que damos à vida.

Anónimo disse...

Olá Manuel!

Gostei do "complemento" ao "sentido" .
;)
Resta-me ainda a dúvida de como se transita do estado de dispersão atomizada em que cada um anda a tratar da sua vidinha para um designio que envolva todos ou pelo menos os bastantes para quebrar a inércia à mudança. Eu sei que estes processos de mudança são graduais. Não vejo é que uma quantidade significativa de pessoas se disponha a abdicar voluntáriemente de uma série de confortos materiais a que nos habituamos, tendo em vista uma menor pressão sobre os recursos, uma gestão deles mais equilibrada e uma distribuição mais justa. Mas também não vejo outro caminho para uma humanidade melhor...

Florbela

Fernando Dias disse...

Inteligente metáfora e astuta crítica ao etnocentrismo metafísico-político. Tendo acabado de ler este texto depois de ter acaba do ler pela enésima vez o Timeu de Platão, a voz do avô neste excelente texto remete-me mimeticamente para a voz do sacerdote sábio egípcio quando diz a Sólon “ai Sólon Sólon, quão novos vós gregos sois!”

Isto é, depois daquele período obscuro de +/- 1200 a 800 que se abateu sobre a Hélade e que precedeu Homero, os gregos tiveram que partir do zero porque foram tomados pelo esquecimento ao ponto de terem perdido a alteridade de Atenas, que segundo Platão no Timeu e no Crítias era a Atlântida.

Ora os filhos desses Outros, os Atlantes, somos nós, que na idade de ouro da demanda da nossa alteridade, que tinha de estar a Oriente, teve que ser empreendida a gesta dos descobrimentos. “Tinha de ser” e o que tem de ser tem muita força. É como bem diz o Manuel, “Já se devia ter percebido que não chegamos onde estamos graças a processos de rigorosa intencionalidade objectiva, contrariamente ao que pretendem certas concepções ideológicas”

Retribuo aquele abraço…

Anónimo disse...

Caro Manuel, vivemos numa oligarquia de pensamentos e atitudes, pois a nossa sociedade critica os opostos, sem eles o equilíbrio social não seria possível, porem não são respeitados ou abalizados como tal. A sociedade mal tem tempo para viver os arrependimentos, seriam tantos que necessitariam de uma nova vida para restaurar o que não é restaurável. Parabéns mais uma vez pelo brilhantismo dos seus textos.

fa_or disse...

Desta vez é que me foram necessárias várias viagens para transportar a areia toda!... eheh
mas está bem visto: "O que interessa não é o que se leva…mas o que se deixa!"
Assim muitos o tivessem presente, e se preocupassem antes com o 'ser' e não com o 'ter'.