sábado, 13 de novembro de 2010

Meio cheio ou meio vazio ?


Há três formas  de descrever um copo meio de água: a realista, que constata  que o copo está meio;  a optimista , que o descreve como  quase  cheio;  e a pessimista.  Perante um copo meio,  o opinativo lusitano não tem dúvidas: ‘é evidente que o copo está  vazio’ -  dirá !

Exagero ? Veja-se aqui:  62% dos investidores, pode deduzir-se,  não acredita que Portugal entre em incumprimento de divida; mas a noticia é que  38% acredita que irá entrar em incumprimento!!

Ou seja, para a opinião publicada na  Lusitânia, nunca irá  bastar que Portugal esteja a fazer uma boa prova na corrida do   paradigma de prosperidade em que nos inscrevemos. Não é relevante  que PT esteja no pelotão da frente, que se encontre no grupo dos países mais desenvolvidos e com melhores níveis de rendimento e qualidade de vida que,  de acordo com vários  critérios internacionais, tenha vindo a ganhar lugares  de forma consistente  nas  tabelas dos rankings que se inventam para medir essas coisas. Não! O que importa é que PT continua   entre os “piores” da Europa. E enquanto houver 1% de opinião negativa sobre qualquer coisa, ela terá  sempre prioridade nas agendas sobre  os restantes 99% de opiniões positivas.

Quem não conheça a alma lusa, poderia ser levado a olhar para esta  estranha disfunção  como uma coisa positiva. Pensaria: gajos exigentes, estes lusitanos, que só se dão por contentes com o pleno e o primeiro lugar de todos os pódios. Mas estaria  enganado. Se amanhã PT aparecesse em primeiro lugar nalguma coisa, o mesmo gajo que hoje brada que somos um ‘atraso de vida’, afiançaria “que isso se deveu a uma manipulação estatística” qualquer e a responsabilidade, claro, seria  dos “objectivos eleitoralistas do sócrates” que na altura estivesse de serviço. Ou seja, para o especialista na pinocada opinativa que prolifera na opinião publicada na costa atlântica  da Ibéria, o último lugar de Pt numa tabela qualquer é uma  espécie de certificado de garantia da qualidade e isenção de uma estatística.

A persistência desta postura,  não só deforma a realidade como actua sobre ela, criando um mal estar difuso em que assenta   uma percepção pessimista da história e do futuro. Pode haver má vontade ou interesses esconsos nesta abordagem. Mas estou convencido aquilo que  melhor a explica é o  provincianismo. O pessimista luso à solta nos média,   é por definição um provinciano semi-instruído e sem mundo.

Nos últimos anos essa sub-espécie  de gente  que tem do mundo a ideia do seu  próprio  umbigo, que diz que conhece a Alemanha porque esteve num fim-de-semana de chuva  em Berlim,  e que conhece França porque no regresso o avião fez escala em Orly, deu um salto evolutivo: deixou o sofá onde costumava mandar bocas sobre a táctica de Jesus nos clássicos no Dragão, sentou-se em frente do computador e descobriu o meio ideal de reprodução assexuada com que sempre tinha sonhado para evacuar sem grande esforço as suas frustrações: a  blogosfera e as caixas de comentários.

Para alguns  lusitanos, a  blogosfera está para a cidadania da mesma forma que a travessia a pé da Ponte 25 de Abril está para a maratona de Lisboa: não se precisa correr, quanto mais treinar . Basta aparecer, mandar umas bocas,   falsear  isto,  insultar os do costume,   para se fazer prova de vida. Outros que se cansem a fundamentar o que argumentam  que a fina-flor da bloga lusa cá ficará à espera  para dar a sua opinião. Avalizada, claro, pelos consensos dos 38% .



18 comentários:

antonio - o implume disse...

Este post não atingiu 38% dos seus objectivos...

Anónimo disse...

Um tiro certeiro!
Veja-se que se passou com noticias crescimento economia passada sexta-feira : volatilizaram-se! A agenda dominante prefere claramente informação com "solas de chumbo".

Cumprimentos.

Trigo Pereira

Matilde Costa disse...

Pessoalmente também concordo com a sua leitura, acho que a ênfase dada a certos assuntos é claramente excessiva. Recordo a titulo de exemplo a forma como foi abordada há umas semanas a subida ( depois abortada...) do iva no leite com chocolate, com se fosse coisa de necessidade incontornável...

ruy disse...

"62% dos investidores, deduz-se",
Pois, deduz-se mal meu caro.
Muitos não responderam e mais ainda têm dúvidas. Não é legitimom portanto afirmar que 62% ...
A única certeza é que 38%, preto no branco,acredita que Portugal irá entrar em incumprimento e daí a notícia. O cavalheiro é mui lesto em acusações. E petulante tambem.
Na verdade "isto não está falseado", e só a ignorancia atrevida de espiritos vazios e mecanicistas o pode afirmar.

Anónimo disse...

Poderá comentador Ruy elaborar sobre razões pelas quais Público acha irrelevante dar conhecer seus leitores posição restantes 62%? Já agora: não seria importante Publico informar critérios amostragem do "estudo", respectivos intervalos confiança, etc ?

Cumprimentos,

Trigo Pereira

Manuel Rocha disse...

António,

Fundamente, sff.
:)

Trigo Pereira,

...pois...:)


Caro Rui,

Obrigado pela visita e pelo comentário, mas o Cavalheiro cita-me mal. O que ali acima está escrito é :" 62%, pode deduzir-se,..."
Na falta de qualquer informação complementar sobre o destino dessa maioritária parcela da amostra, qualquer petulante está no direito de ser arrogante quanto baste para poder deduzir o que quiser.

Lino Camacho disse...

Manuel Rocha, eu só tenho uma coisa a criticar no teu post: o titulo! Devias ter-lhe chamado " Os Coveiros" !

Abraço

Anónimo disse...

Muito selectiva, é certo, mas genuína indignação. Indignam-se todos os dias com Passos Coelho, com a justiça, com os jornais, com a polícia, com os economistas que anteciparam a crise, com os economistas que têm uma visão divergente da do Governo, com o FMI, com o populismo, com as escutas, com a Face Oculta, com o Freeport e por aí adiante. São um pouco preguiçosos, não vão muito aos factos, desconhecem as leis que o próprio Governo que apoiam fez e barricam-se em meia dúzia de generalidades consensuais (defesa do Estado de Direito, reserva da vida privada, etc).

Enfim, entretêm-se na sua indignaçãozinha de salão. Não se lhes ouve uma palavra sobre o desemprego, o privilégio de receber milhões em dividendos sem pagar um tostão de imposto, a manipulação da máquina do Estado para favorecer o nepotismo e outros ‘ismos’. Gerem apenas o seu próprio amiguismo. São amigos, de amigos, de amigos. Não lhes interessa falar muito do poder político dominante que tem uma dupla moral, uma dupla contabilidade e uma dupla verdade. Na verdade, porque haveriam de se incomodar com isso? A crise não lhes toca!

Lino Camacho disse...

Lol, bom comentário o deste anónimo Rocha, além de estar recheado de factos rigorosos vê-se que te conhece bem, lol.

Então, Sr Anónimo, sempre que um gajo procure rigor na informação é porque apoia o governo ? Olhe, eu sou militante e votante do PSD, duvido que vc goste menos do Sócrates do que eu, mas isso não me parece boa razão para fazer da asneira e do mau jornalismo o norte e o sul da oposição. Se há coisa que aprendi na politica é que as pessoas não são estúpidas, não precisamos de lhes atirar areia para os olhos, a honestidade mesmo que não dê votos tb não dá pesadelos.

Anónimo disse...

Noutras 'paragens' sobre mesmo tópico argumenta-se relevância peso relativo perspectivas pessimistas investidores com base possivel efeito feed-back ou bola neve. Curiosa ilacção, que descarta idêntico comportamento perspectivas optimistas.

Cumprimentos.

Trigo Pereira

joshua disse...

Não sou nada pessimista nem negativista. Considero que o fenómeno clientelar e a impreparação de Sócrates provoca a demolição das boas inteções dos espíritos absolutamente puros, absolutamente racionais, frios e objectivos.

O mau carácter e a malfeitoria da governação socratista não permite confiar na pureza das puras ideias abstraídas dos seus actores directos.

Lamento muito, caros Trigo Pereira e Manuel Rocha.

Anónimo disse...

Caro Joshua,

Obrigado referência.
Tese Salazar foi responsável salazarismo já foi abudantemente desmontada.

http://analisesocial.ics.ul.pt/documentos/1223474660Y5fFJ3ke2Ya79VE3.pdf

História contemporaneidade está por fazer. Lamento.

Cordialmente,

Trigo Pereira

Anónimo disse...

:)

Este post e os comentários que suscitou reconduzem-me aos tempos do PREC. Na altura qualquer intervençao no sentido de pedir um esclarecimento sobre um assunto qualquer era no minimo anti-revolucionária. Estamos na mesma. Qualquer voz que se levante para contrariar a politica da terra- queimada e do quanto-pior-melhor que por aí grassa, é porque é apoiante do eng Sócrates e um alvo a abater. Antigamente censuravam os jornais; hoje os jornais censuram-se sózinhos. Mas o resultado para o esclarecimento da opinião e para a qualidade do debate politico é que não melhorou em nada.

Gabriel

joshua disse...

Gabriel, não estou do lado dos que clamam quanto pior, melhor. Mas do lado dos que se sentem esbulhados pelos intérpretes mais recentes das políticas.

E isto é toda uma luta a travar.

Anónimo disse...

Caro "Joshua":
Por sinal o meu comentário estava mais dirigidos ao que foi escrito pelo " Ruy" e pelo "Anónimo" do que ao que o Senhor disse. Em concreto sobre as suas palavras, o que lhe posso dizer, depois de mais de trinta anos de vida como funcionário publico, é que as únicas mudanças que me lembro de terem acontecido de facto no meu local de trabalho ( HGH), foram aquelas que as pessoas entenderam que se ajustavam melhor aos seus interesses do momento. Os decretos por si só, venham eles de quem vierem, por muito justos ou progressistas que fossem, não tenho memória de que tenham mudado nada. Quando o pessoal não gosta dos efeitos encontra sempre forma de os fintar. Isto para dizer que aqui só na letra é que o governo nos governa. A prática é outra. E do que conheço de outras paróquias não me parece que seja muito diferente.
Muito obrigado.

Gabriel

Anónimo disse...

Veja-se, por oposição, a forma sóbria e discreta como a imprensa irlandesa lida com uma situação bem mais complicada que a nossa:

http://www.irishtimes.com/business/

Razão tem o Cavaco quando diz que há palavreado a mais na economia lusa.

Zé Augusto

Anónimo disse...

São como ruminantes que, pacientemente, de cabeça curvada, se apascentam nos campos.
Não são jornalistas, são meros funcionários.

Limitam-se a reproduzir o que outros lhes colocam à frente dos olhos. E quanto melhor interpretam, com gestos e trejeitos de fala e de rosto as mensagens que reproduzem, mais “qualificados” se tornam.
Não são jornalistas, são actores.

A sua criatividade, nos estreitos limites que lhes é permitido, resume-se à anedota burlesca inconsequente.
Não são jornalistas, são palhaços.

Erguem ao mais elevado êxtase, este orgasmo socrátic0.
Não são jornalistas, são actores porno.

Anónimo disse...

Aqui tem mais um excelente exemplo:

http://www.jornaldenegocios.pt/home.php?template=SHOWNEWS_V2&id=458649

Cumprimentos.

Trigo Pereira