segunda-feira, 29 de setembro de 2008

O Inferno da Quercus


Quando andei na primária, competia à Escola o ensino das coisas mundanas e à Igreja a iniciação nas que supostamente nos transcendiam. Havia, pois, uma certa complementaridade de tarefas entre as duas instituições. Enquanto a Dona Bárbara tratava de nos pôr a par dos pequenos mistérios da leitura, da escrita e da aritmética, a Menina Cremilde explicava-nos na catequese o que era propriedade do “indecifrável”, afirmando com a autoridade inerente à condição de mandatária do Padre Oliveira, legal representante do divino na freguesia, que “o céu e a terra”, bem como “ todas as coisas visíveis e invisíveis” eram criação de Deus. Assim mesmo. Seria ainda Deus quem após a nossa morte se encarregaria em processo sumário de decidir o que nos reservava a vida eterna. Para isso, iria ter em conta o registo da vida terrena, e nem pensar em aldrabar o relatório, porque, ao contrário da minha mãe, Deus era dotado de duas características incontornáveis: era omnipresente e omnisciente. Não havia pois como lhe dar a volta. Por isso, a nós, pequenos candidatos a pecadores, confrontados com versões dantescas do inferno e outras ameaças de terror apocalíptico, não nos restava outro caminho senão o cumprimento de um pesadíssimo “caderno de encargos” para evitar destino tão assustador.

Convenhamos que a abordagem era bastante pragmática, pois contribuía para um reforço bastante efectivo da capacidade dos poderes instalados controlarem um grupo de comportamentos que consideravam socialmente indesejáveis, mesmo sabendo que o faziam com recurso ao simplismo mais tosco e que desse modo cultivavam o obscurantismo. É sabido que pessoas bem formadas e informadas são mais difíceis de manipular. Por isso, o controlo da informação sempre foi um instrumento de exercício do poder, e daí as dificuldades sentidas pelo Iluminismo e pelo Racionalismo em fazer passar outras leituras do mundo. Mas conseguiram-no, e ao consegui-lo passaram também a ter uma influência decisiva no exercício do poder.

O que eu não estava de todo à espera é que passados todos estes anos os homens e mulheres da ciência do nosso tempo, herdeiros das luzes e paladinos da razão, os mesmos que nos abriram janelas para outras leituras do mundo e da vida, não consigam encontrar melhor forma para ajudar o povo a destrinçar o bem do mal nesta nova ordem que ajudaram a instalar senão desenterrando os velhos espectros do inferno e do terror dos destinos apocalípticos.

Mas é o que acontece.

A Quercus, por exemplo, que não se inibe de alinhar na propensão catastrofista que se generalizou entre as organizações ditas ambientalistas, promove na RTP2 um comercial em que confronta o espectador com a sua versão do inferno: um canguru a suicidar-se numa linha de caminho de ferro, um chimpanzé a enforcar-se com uma liana ressequida em cima de uma árvore estorricada e, como não podia deixar de ser, um urso polar a atirar-se de uma falésia abaixo naquilo que se apresenta como antevisão da Gronelândia sem gelo nem focas. Tudo num cenário vermelho e negro que rivaliza sem favor com as melhores ilustrações do inferno imaginadas por Alligeri.

A formatação alternativa que a ciência construiu para nos explicar o mundo, tem na mudança uma constante. Tanto na geologia como na biologia, a ciência elaborou um conjunto relativamente coerente de teorias que nos explicam como sendo entidades em processo num contexto em processo, e usa indícios fortes para ilustrar essas teses, como a deriva dos continentes ou a evolução das espécies. Nesse sentido, a ciência representa-nos como figurantes transitórios num sketch de uma longa metragem em rodagem, sem guião, e sempre inacabada.

Por isso me soa muito estranho que quem nos ajudou a nos entendermos como processo em mudança induzida por conjugações aleatórias de factores incontroláveis, não só nos proponha agora concepções estáticas dos fenómenos que suportam a vida como ainda por cima nos ameace com o inferno se não as conseguirmos preservar. Ou seja, num dia demonstra-se que os Himalaias se formaram em fundo marítimo, e no dia seguinte pretende-se induzir comportamentos que evitem futuras alterações do nível do mar. Ora este é um dos grandes problemas das derivas conservacionista: o subtexto que se apoia na ideia peregrina de que chegamos a um destino, seja ele geológico, biológico, climático, ou de outra ordem qualquer, que considera este estádio ideal e por isso, subentende-se, pode e deve ser preservado, mesmo que tal atitude entre em completa contradição com a ordem natural de conflitualidade e mudança que marcam a história da vida e que a ciência tem sobejamente documentado.

O caso do clima é paradigmático. Embora estejam bem fundamentadas fortes evidências de importantes alternâncias na dinâmica climática passada, e a história tenha inclusive bem documentadas mudanças climáticas relativamente recentes e bastante significativas, ilustradas por evidências de avanços e recuos periódicos de gelos e níveis do mar, tal como de desertos ou florestas, ainda assim não se hesita em colocar eventuais futuras mudanças do clima no topo da agenda das preocupações ambientais.

Sabendo-se que o clima não é constante e é determinado por um conjunto muito diversificado de variáveis cujo funcionamento está longe de se encontrar bem compreendido, o bom uso da lógica deveria permitir deduzir que, mesmo admitindo a eventualidade de mudanças climáticas induzidas pelas actividades humanas, só seria possível transformar essa eventual correlação numa demonstração inequívoca de causalidade se houvesse forma de “desligar” todas as variáveis não humanas que interferem na dinâmica do clima, e isso é impossível. Mas demonstrar que, muito antes de eventualmente se reflectirem no clima, algumas dessas actividades têm impactos directos e imediatos sobre a sustentabilidade dos modelos sociais que suportam, não o é. Isto para dizer que provavelmente existem dinâmicas instaladas com potencial de sobra para pôr o nosso modo de vida de patas para o ar muitos antes de qualquer mudança climática ter a mínima possibilidade de o fazer, e não é necessária grande imaginação para encontrar exemplos. Quando se instala uma cidade e se constroem os respectivos prédios, incluindo caves, na foz duma linha de água, e por razões de estética urbanística se bloqueia ainda a drenagem natural, como acontece em Albufeira e na maioria das cidades costeiras, não é preciso nem que o mar suba de nível nem que se altere o regime pluviométrico para que a primeira chuvada generosa dê cabo da vida de quem teve a infeliz ideia de ali se instalar. Centenas de outros exemplos tão elementares e pertinentes quanto este deveriam bastar para questionar a racionalidade das nossas opções quotidianas. E embora se perceba que não é fácil definir uma estratégia educativa conducente a uma boa compreensão destas dinâmicas para desse modo construir sólidos alicerces de mudança qualitativa, isso não deve servir de desculpa para que se combata o nonsense instalado nos nossos modos de vida com argumentos e estratégias de nonsense de sinal contrário.

Mas é o que acontece quando se usa em defesa da tese do aquecimento global afirmações como a de que o actual nível de CO2 atmosférico é o mais elevado dos últimos 650.000 anos! Por duas razões. Desde logo porque só se concebe uma dimensão temporal com essa escala da centena de milhares de anos recorrendo a somatórios de abstracções sucessivas. E além disso porque aceitar como bom o conhecimento exacto da composição da atmosfera nessa época requer algo mais que uma dose extra de abstracção: é necessário um verdadeiro acto de fé. Não no sentido de fé em que a composição do ar aprisionado no gelo não se altera em centenas de milhar de anos nem durante a sua extracção, ou em que a exactidão das datações e a precisão dos instrumentos e dos métodos de medida estão para lá de qualquer reserva. Mas de fé no sentido do impacto que produz no homem comum que, na impossibilidade de ter em relação a este tipo de argumentos uma compreensão fundamentada, só lhe resta acreditar na autoridade de quem a produz. É nesta medida que encontro em muita da informação debitada em prol das alterações climáticas inequívocas semelhanças com a que a Menina Cremilde nos facultava na catequese sobre a autoria da criação. E tal como ela ameaçava os cépticos com as chamas do inferno, há agora quem ameace os “negacionistas” com cenários de apocalipse ainda mais rebuscados. Receio é que, a prazo, se arrisquem a obter o mesmo resultado: a descrença de quem venha a ousar pensar pela sua cabeça. E não é à descrença em Deus que me refiro. Mas nos homens. Mesmo nos de boa vontade que, sem cavalos de Tróia ( como é o aquecimento global ), se esforçam por introduzir alguma racionalidade nas interacções ambientais que vamos protagonizando.

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Os cães e as trelas

Eu não sei, Joshua, por que sofrem ao certo o Marques ou o Pinto quando lêem os jornais. Mas posso dizer-te por que sofro eu. O caso é que cresci entre pessoas que me fizeram olhar para o jornalismo como um pilar da res-pública, a um tempo meio de informação e de formação, cultor da pluralidade, do sentido critico, do espírito cívico que são essenciais à vivência e ao progresso em contexto democrático. Mas o jornalismo como nobre arte de cultivar cidadania, deu lugar a um exercício de mercantilismo sem alma, pátria, ética ou honra, e não consegues demonstrar-me, Joshua, que exista alternativa para esse espaço porque não há.

Grupos de pessoas podem efectivamente exercer o seu direito à recusa. Mas se não compram os jornais, nem vêm a tv, também não é na blogosfera que vão encontrar a alternativa para se posicionarem no Mundo se não estiverem munidas dos necessários filtros e descodificadores que, como sabes, não são fornecidos como equipamento de série, sendo precisamente essa uma das mais –valias esperadas do bom jornalismo: ajudar a entender o que não é imediato.

Na realidade, Joshua, os bloguistas não são amadores da informação, mas da opinião, e como tal limitam-se a replicar, quais ecos, as opiniões mediadas pelos profissionais da pinocada opinativa que tomaram de assalto o espaço que devia pertencer à informação.. Sem uma agenda autónoma e muitas vezes sem capacidade de construí-la sob um formato de divulgação que lhe potencie o acesso, não é raro que os blogues se publiquem num registo de narciso para outros narcisos, círculos concêntricos de afinidades ocasionais orbitados por alguns metabolismos reduzidos que têm por hábito fazer prova de vida neuronal papagueando no intervalo para o café o “pensamento do dia” produzido na véspera pela cabeça alheia de referência.. Por isso também não é raro que a blogosfera me faça sofrer como um cão quando a atravesso com a sensação de transitar em território de uivos marginais reservado a cães-sofredores, mas nem todos cães vadios e menos ainda vadios por opção.

É que, repara Joshua, nem todos os cães sofrem pela relação que têm, tiveram, ou sonham vir a ter com os donos. Há alguns, embora poucos, que sofrem apenas por verem tantos cães felizes por usar trela ou infelizes pela falta dela. Esses são os mastins, verdadeiros marginais do mundo canino, autênticos malteses, cães sem dono, e já rareiam porque não reconhecem alfas nem se adaptam ao oportunismo funcional das alcateias. Têm o hábito instintivo de defender rebanhos, é verdade, mas isso não quer dizer que convivam pacificamente com o espírito ovino nem com a obsessão controladora dos border-coolies regimentais que ao assobio dos média conduzem e mantêm o gado dentro dos cercados ideológicos que os grandes predadores concebem.

Ora não há mastim que se preze a quem não se erice o pélo quando entra nos redis escolares e se apercebe da forma como as trelas do aquecimento global, das energias alternativas, das agriculturas biológicas, do crescimento económico, da demografia, ou de qualquer outra magnifica mistificação mediática do nosso tempo, são colocadas em redor dos pescoços das criancinhas por diligentes professores que as bebem acriticamente da incompetência informativa e da má-fé catastrofista da National Geografic ou de outro empório mediático qualquer. Não há mastim que se digne que não sofra quando princípios que deviam ser sagrados, como a presunção da inocência até trânsito em julgado, são arrasados pela mesquinhez saloia dos opinadores descendentes dos públicos das fogueiras inquisitoriais com argumentos de lógica peregrina: “ se não foi julgado não se pode dizer que seja inocente” ! Formidável ! Tão criativo que na manhã seguinte até o meu barbeiro se questionava se não deveria ele próprio requerer um julgamento preventivo ! É que se o vizinho, com quem tem uma antiga desavença de partilhas, resolve um dia e por vingança pagar quinhentos euros ao prostituto da terra para jurar em tribunal que ele, barbeiro, lhe teria ido ao cu dias antes de atingir a maioridade, seria de toda a utilidade obter por antecipação uma sentença de inocência de pedofilia, não ??

Portanto Joshua, o que me faz sofrer que nem cão, é esta forma de se estar sob a permanente ditadura duma realidade construída por medida para servir de suporte publicitário. À semana das vacas loucas, segue-se a da gripe das aves, fica-se a saber essa "coisa" incontornável de que a gaivota encontrada morta na Praia de Leça afinal não estava contaminada (?!), e passa-se à semana da insegurança, ao trimestre da Maddie, às colagens de evidente má-fé que do nada originaram uma crise olímpica, quando não acontece nada afinal era o silêncio da líder da oposição que acontecia entre a expectativa de uma tempestade do século que nunca foi, e um nevão no Quénia motivado pelo mesmo aquecimento global que há seis meses era responsabilizado pela falta de neve no Quénia. Uma realidade construída que obedece a uma agenda que é alheia a critérios de rigor informativo, objectividade ou isenção, num clima circense que é imagem de marca deste momento civilizacional.

Tenho para mim, Joshua, que direitos e deveres são as duas faces da moeda da cidadania. Por isso são igualmente válidos para o professor e o policia, como para o médico ou o jornalista. Esses exercícios profissionais numa sociedade livre requerem formação especifica e uma cultura ética e mecanismos deontológicos de auto-regulação, pois as funções de grande abrangência têm uma responsabilidade social acrescida cuja ignorância não pode ser invocada após a opção por elas ter sido livremente assumida. Claro que se estiver doente eu posso preferir o médico A ao B. Posso até mudar o meu filho de escola porque não simpatizo com a professora. O que não posso é aceitar que haja médicos ou professores, policias ou jornalistas, que exercem sem qualidade, com incompetência ou má-fé, perante a passividade das respectivas entidades de controlo e antes de todas as da própria classe. Quando isso acontece perante a passividade geral e a coberto de lógicas corporativistas que fazem passar a ideia de que a qualidade do desempenho depende do conteúdo da gamela diária da ração, claro que sofro ! Que nem um cão. Mas, lá está, nem todos sofremos pelos mesmos motivos.

sexta-feira, 29 de agosto de 2008

Os Frangos Olímpicos


Comparar os frangos que crescem aqui pela quinta com os “frangos do campo biológicos” cuja comercialização tem vindo a ser incrementada, é a mesma coisa que colocarem-me a mim no Ninho do Pássaro a competir na final dos 100 metros ao lado das máquinas de correr que lá estiveram.

Até o meu fornecedor de rações sabe disso. Sempre que lá vou abastecer-me da mistura da cereais triturados que uso para complementar a dieta de amoras e gafanhotos que os meus pintos apanham por aí, o Victor nunca esconde a sua perplexidade perante a minha recusa pela “farinha” sem a qual, garante, “os pintos nunca mais crescem“. E tem razão! Sem a tal farinha, os pintos de Maio só lá pelo Natal têm uma carcaça que se veja. Até Outubro, parece que só lhes crescem os ossos, tipo os adolescentes, altos mas sem massa, e só a partir daí começam a ganhar volume. São seis meses para obter um frango acabado com uma carcaça de dois quilos, algo que o bio-do-campo faz em menos de metade do tempo. Claro que há frangos ainda mais rápidos. Os incontestáveis campeões de crescimento são os chamados frangos de aviário: em 42 dias chegam aos dois quilos! Mas esses, diz-se, “correm dopados”.

Em plena ressaca Olímpica, a questão do doping é um tema actualíssimo. E boa parte dessa actualidade deve-se às eternas controvérsias em redor do que é e do que não é passível de ser considerado doping. A controvérsia não se deve tanto a qualquer insuficiência semântica, pois entende-se claramente como dopante a substância adicionada a um metabolismo para lhe alterar a performance, mas ao reconhecimento de que existem muitas formas de o fazer. De tal modo que, a páginas tantas, o que se discute já não é a bondade da prática de “alterar” metabolismos, mas apenas a sua “legalidade”.

De facto, é pacifico que praticar desporto e correr atrás de medalhas olímpicas são coisas distintas. Da mesma forma que nenhum atleta em perfeito juízo tem a veleidade de competir pelas medalhas dos 100 metros só com treino e dieta alimentar, também não há ninguém em estado de razoável saúde mental que invista em concentrar milhares de animais em densidades que vão até 24 kg / m2 ( leia-se: no mínimo 12 frangos / m2 - versão de aviário-bio ) num programa de acabamento sem a garantia de performances mínimas.

A primeira medida para as assegurar chama-se selecção genética. Nos dias que correm, diversidade genética é conceito que faz pouco sentido dentro de um pavilhão de avicultura. Basicamente, pode-se comparar a avicultura ao que seria o atletismo se todos os velocistas das olimpíadas fossem descendentes dos jamaicanos Usein Bolt e Shelly-Ann Fraser. Mas mesmo assim não chega, pois além desse trabalho de selecção é preciso ainda um protocolo profiláctico qualquer, porque das duas uma: ou ele existe ou a empresa vai à falência ao primeiro embate duma banal coccidiose. De resto, nem se percebe a relutância em aceitar esta realidade quando é sabido que não há gaiato que seja aceite no infantário ou na escola sem o respectivo boletim de vacinas actualizado.

Como toda a gente sabe que é assim que as coisas funcionam, o que se tem feito é regulamentar a prática através da criação de listagens de produtos e procedimentos autorizados. É o que se faz na avicultura em geral e nesse aspecto a regulamentação da avicultura AB é apenas mais um regulamento, pois importa que se percebam duas coisas. A primeira é que o que não é autorizado não é necessariamente pior do que o que é permitido - pode apenas querer dizer que há produtos e práticas cujos fabricantes ou mentores ainda não conseguiram o bastante para os legalizar. A segunda é a de que ser permitido não significa que seja inócuo, mas apenas que tem efeitos que se consideram aceitáveis à luz do conhecimento disponível, que não se conhecem efeitos nocivos, ou que são produtos para os quais os respectivos promotores conseguiram melhor que outros percorrer as etapas necessárias à respectiva homologação.

Claro que a AB pretendeu transmitir a ideia de que ampliava a margem de segurança subjacente a este sistema, e merece esse crédito formal. Mas se também ela é súbdita da mesma lógica da competição ( financeira ), é natural que a indústria não se poupe a esforços no sentido de multiplicar as opções disponíveis para a tornar mais “competitiva”. E a realidade é que entre o uso de hormonas e de antibióticos, habituais na avicultura industrial “clássica”, e o uso dos premix de nova geração, tolerados na produção do “ frango do campo biológico”, a diferença está mais no modo como operam do que nos resultados que produzem, uma vez que qualquer deles altera as performances normais no mesmo sentido de uma maior produtividade.

Por outro lado, para se controlar o uso do que não é permitido ( sejam substâncias ou doses ), tem que se saber o que se procura. No entanto, mesmo em relação aos produtos que se conhecem, são centenas as variantes possíveis da sua forma de apresentação. Os nitrofuranos são disso bom exemplo. Basta que se altere o “aspecto” do princípio activo na “embalagem química” em que se apresenta, para que passe incógnito nas análises correntes, e só o acaso, a denúncia ou a mudança de métodos de análise permite eventualmente identificá-lo. É devido a situações desse género, que só há um ano pediram à Marian Jones a devolução do Ouro que arrecadou em Sidney, pois na altura estava “tudo bem”. Quer isto dizer que há dopantes cuja existência oficial se desconhece. São os produtos duma ciência marginal altamente lucrativa e que não é necessariamente pior que a oficial, porque em relação a estas coisas não sejamos ingénuos ao ponto de acreditar que funcionam segundo o primado do interesse público e que os lobby dedicados à preservação dos monopólios comerciais instalados não existem.

São estas derivas que fazem com que a “avicultura biológica” se posicione em relação à produção de frangos da mesma forma que os Jogos Olímpicos estão para a prática desportiva. Faz-se a apologia da tecnologia de ponta presente nessas iniciativas e invoca-se o seu eventual efeito de locomotiva. Mas por cada puto que inicia a prática desportiva a reboque do salto do Évora, quantos sapatos da Nike e fatos de treino da Adidas se vendem? Não haveria outros processos para fomentar o desporto? Talvez houvesse. Mas a forte componente de marketing subjacente a estas actividades tem o mérito de nos levar a discutir o acessório, evitando o essencial dos sistemas em que se enquadram. Isto porque prende toda a nossa atenção a manifestações cuja principal função é a de alimentar dinâmicas completamente alheias à função social que importava servir. Essa, permanece prisioneira das molduras ideológicas com que nos ensinaram a ler o Mundo. No caso da avicultura, o que importaria discutir não são as suas modalidades possíveis, mas as premissas em cuja concepção se apoia. Nomeadamente a necessidade-tabu de incluir na dieta alimentar uma capitação significativa de carne de frango e a consequente organização dessa produção de forma completamente desligada do território em que acontece.

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Expresso-Biológico


O semanário Expresso lidera destacado a lista das minhas preferências neo-verdes entre os órgãos de comunicação. E como que a justificar esse destaque, fez-me o favor de publicar na página central do seu caderno de economia da semana passada, um extenso trabalho sobre a Agricultura Biológica que ilustra na perfeição o que aqui tenho vindo a escrever sobre o tema. Das várias abordagens que são desenvolvidas, gostaria de referir aquela cuja importância mereceu destaque com chamada na última página do caderno principal : “ Maior estufa biológica em Portugal “.

Indo ao texto, fica-se a saber que uma empresa do grupo RAR, está a construir em Alcochete “ a maior estufa da Europa para a produção de tomate em modo biológico” , para “vender tomate durante todo o ano para vários países europeus, em especial o Reino Unido”, sic. Ilustra o texto uma fotografia de uma estufa em montagem que, supondo-se corresponder à da noticia, deixa entender que se trata de uma estrutura metálica com cobertura em vidro, com uma área projectada de 7 hectares ( 70.000 m2 ).

Extraordinário !

Extraordinário porque revela em toda a sua magnitude a formidável mistificação que tem vindo a ser encenada em redor deste modo de produção AB que tem sido divulgado como “alternativa” à agricultura convencional, e portanto, em oposição à agricultura intensiva que não respeita os “ciclos naturais”.

Destaco dois aspectos.

Em primeiro lugar a cultura do tomate fora de época é por definição um cultivo intensivo em contra ciclo. É por estar fora da sua época natural que obriga ao uso de estufa. Ora o uso da estufa é em si mesmo um programa de produção e utilização intensiva de recursos, pois doutro modo seria impraticável assegurar o retorno do capital investido. Também por isso implica um programa sanitário cujo nível mínimo deveria obrigar a tratamento criminal quem tem o desplante de o promover como “processo natural”. De resto, o cultivo em estufa é a antítese de bandeiras da AB como a rotação de culturas, preservação dos ciclos da matéria orgânica ou conservação do solo.

Em segundo lugar, merece nota a “sustentabilidade” deste processo, outra das bandeiras da AB. O custo energético de uma estrutura metal / vidro com 70.000 m2, é um número perfeitamente obsceno, cuja amortização alimentar em salada de tomate está para a agricultura como actividade de produção de alimentos, como estaria para o cinema uma produção hard-core ao pior estilo da indústria pornográfica. A cereja sobre o bolo do desequilíbrio energético desta actividade, são os mercados de destino ( Europa e em especial Reino Unido ) e as implicações que daí decorrem em termos de transporte-frio e de manutenção de uma lógica absurda que ignora a relação geográfica entre produção e consumo.
De resto, o que aqui tenho escrito sobre a incorporação da AB no eterno oportunismo capitalista, fica bem ilustrado pela sua menção no caderno de economia do Expresso e pelo facto de suscitar o interesse de grupos empresarias que têm tido no imobiliário e turismo a sua actividade tradicional.

sábado, 2 de agosto de 2008

Largada de Joaninhas


Sol, solo, ar, água, plantas . São estes os elementos da caldeirada química a que se chama agricultura. Agricultura é bioquímica aplicada com uma intencionalidade que não tem nada a ver com a atitude passiva de colher o que a natureza oferece. A natureza não faz agricultura, e ainda que a fizesse não poderia evitar o recurso à química, porque a vida é um fenómeno químico. Quem faz agricultura é o bicho homem que descobriu como tirar partido dos processos químicos e dos excedentes de energia das fases serais primárias dos ecossistemas vegetais e por isso as replica.

No entanto, porque se trata de um processo de indução e gestão de desequilíbrios, tem as suas delicadezas. Parte delas foram resolvidas pela observação-experimentação-repetição empíricas, antes das ciências descodificarem muitos porquês dessas práticas e com eles construído edifícios de explicações .

Qualquer edifício é uma estrutura relativamente complexa cuja compreensão requer algum tipo de especialização. As questões da agronomia não fogem a essa regra. Nem à perda de perspectiva que dela decorre. Ou seja, na tentativa de perceber e resolver o detalhe corre-se o risco de perder a noção do todo e com isso a razão social da demanda.

Não sei se terá sido por aí que a partir de certa altura a prioridade da agricultura passou a ser a de fazer dinheiro e não a de produzir alimentos. Uma vez criada uma certa capacidade de controlo sobre inúmeros acontecimentos aleatórios, como os acidentes sanitários, a agricultura tornou-se mais previsível e por isso um negócio potencial. Mas essa mudança de atitude a que se chamou agro-indústria substituiu a antiga lógica segundo a qual as produções agrícolas se adaptavam aos locais onde se realizavam para aí responderem a necessidades alimentares, por uma nova postura, que consiste em adaptar os locais aos produtos com maior capacidade de gerar receita, independentemente do uso que deles venha a ser feito e do local onde se irão ser consumidos.

Claro que esse esforço de artificialização arrasta consigo todo um programa ao qual alguém chamou "revolução verde". Uma original adjectivação para designar um ideal e um processo tecnológico que em pouco mais de cinquenta anos alteraram radicalmente a relação histórica com a terra. Foi uma revolução, de facto. E como tal também tem os seus cronistas. Giovanni Federico, por exemplo, publicou recentemente uma obra que tem vindo a fazer as delicias dos que têm por passatempo deslumbrar-se com as formidáveis conquistas da ciência e da técnica, neste caso na agricultura. Nesse trabalho, a análise de GFederico não consegue contornar as inevitáveis derivas ideológicas quando considera como coroas de glória da revolução verde o aumento da população mundial que terá permitido e a redução dos activos agrícolas a que conduziu.

São duas teses curiosas, pois são apresentadas como justificação, como resposta a uma espécie de desígnio que impunha essa dupla cruzada . A primeira, deixa implícito que a população precisava de se multiplicar , que, vá-se lá a saber porquê, seriamos poucos e precisávamos de ser seis vezes mais, crescimento esse que seria um género de inevitabilidade sagrada que ninguém deve questionar e que a técnica só tinha o dever de viabilizar. A segunda, apoia-se na dupla premissa de que um peso expressivo do mundo rural é um mal em si e que a única alternativa para a melhoria geral das condições das sociedades ditas rurais, seria a transferência de população para as periferias urbanas.

Entretanto, concretizadas que foram essas "conquistas", não estão resolvidos os desacertos entre população e recursos, nomeadamente alimentares, e a sangria de população rural para a periferia urbana criou outros problemas: a desertificação dos interiores, assimetrias territoriais consideráveis e uma macrocefalia metropolitana paralisante, além de ter transferido o tradicional sub-emprego crónico entre o proletariado rural para desemprego endémico entre o proletariado urbano. Quanto à agro-indústria que se instalou, ela gerou uma dinâmica insustentável de prosperidade aparente assente na produção-dependência dos combustíveis fósseis, com problemas generalizados ao nível da ocupação da solo, da gestão da água, da biodiversidade e da própria segurança alimentar que pretendia ter resolvido.

Ora foi neste contexto que a Europa institucionalizou aquilo a que chamou Agricultura Biológica.

Os argumentos que inicialmente usou para o fazer colocavam a tónica na defesa dos consumidores relativamente a eventuais abusos do "marketing biológico". Mas ao fazê-lo acabou também por reconhecer implicitamente que o modo de produção convencional tem impactos indesejáveis no ambiente e na saúde dos consumidores. Assim, com a institucionalização da AB, a EU dividiu os produtos agrícolas em duas categorias: os de primeira, bio, e os de segunda, os restantes, a que chama convencionais. Ao fazê-lo, reconheceu que a norma agrícola não serve, que tem deficiências. Mas em lugar de investir em ultrapassá-las através de medidas estruturais que modificassem os modos de produção para o bem comum, limitou-se a pactuar com o que condena criando um sub-sistema que considera alternativo. Mas o argumento de que deste modo permite ao consumidor a possibilidade de escolha, também não serve, porque em rigor essa liberdade nunca esteve em causa. Na realidade, nada impede ninguém de se associar para cultivar as couves que consome como bem entender. Nem a comercialização do que quer que seja deixou alguma vez de estar sujeita à lei geral. O que não me parece fazer sentido é a existência em paralelo de dois sub-sistemas para dar resposta á mesma função: a de garantir a segurança alimentar. Nem vejo que exista qualquer razão que justifique que se criem regras especiais para consumidores especiais.

Por outro lado a regulamentação da AB faz uso de uma linguagem que traduz os conceitos de tal modo que induz o público em ideias erradas. Desde logo pela forma como se adjectiva ( biológica, bio, organica ), quando na realidade remete para uma prática fitossanitária de luta integrada, que é aquela que associa luta química e biológica no controlo de pragas e doenças, e que não é exactamente a ideia que fazemos das largadas de joaninhas, essas sim características da luta biológica. Deste modo constrói-se uma mitologia pouco educativa em redor destas práticas agrícolas, que são compreendidas como inócuas. Mas as moléculas dos piretróides ( os insecticidas da nova geração ) naturais ( extraídos dos crisântemos ) autorizados na AB, são um desastre para os ecossistemas de água doce, por exemplo, e nessa medida não se distinguem dos de síntese. O que reforça a ideia essa sim pertinente de que o que classifica um produto como veneno é mais a dose e o contexto do seu uso do que a sua natureza, pelo que a questão não está tanto em usá-los ou não mas em como se usa e nas razões que fazem com esse uso seja necessário.

Ora essas razões continuam a ser a produção em massa para o mercado, fruto duma relação desajustada entre população e recursos, e uma ideia de gestão que só entende a economia pelo lado dos seus resultados financeiros, pelo que não prescinde da competitividade como condição de existência do que quer que seja. Isso mesmo é admitido pela EU, pois embora reconheça a asneira que tem sido a tremenda apatia perante a degradação do mundo rural, não se atreve a mais que a tímidas tentativas de revitalizá-lo a reboque de acções que usam como remédio aquilo que o asfixiou: o mercado e a livre iniciativa. Provavelmente, foi essa a única forma que encontrou de não bulir com os interesses do corporativismo capitalista instalado no sector e que, de resto, não perdeu tempo a tirar vantagem da "onda bio" entretanto gerada . As sucessivas alterações que têm vindo a ser introduzidas ao Reg CEE 2092 / 91 e os esforços de homogeneização internacional entre as variantes de AB, são disso bem ilustrativas. Os produtos biológicos já admitem a fantástica possibilidade de 0.9 % de contaminação com transgénicos ! As vazias das vacas argentinas não perdem o bio depois de atravessarem de avião o Atlântico embaladas a vácuo em contentores-frio. Sobre os iogurtes e o leite magro biológicos, já conversamos. E se isto já não estivesse tão longo poderíamos ainda falar da etiqueta bio atribuída aos “frangos do campo criados ao ar livre” e abatidos aos 81 dias, que o clube de produtores SONAE comercializa. Lá iremos noutra altura.

domingo, 27 de julho de 2008

Catorze Sementes


Há dias colhi o grão-de-bico que tinha semeado em Abril. Se as primaveras não correrem secas, o grão é uma cultura fácil. Pouco dado a problemas sanitários, também não tem exigências de cultivo especiais. Gosta de terrenos com boa exposição solar e com boa capacidade de retenção para a água. Com estas condições tenho um canteiro com uns cem metros quadrados. Depois de estrumado, cavado e destorroado, foi nele que semeei o litro de grão-de-bico que me arranjou a vizinha Júlia. Quatro meses, três sachas e outras tantas mondas depois, ceifei, debulhei e limpei. Eis o resultado: catorze sementes. Para quem não está habituado a este linguajar, esclareça-se que se dizia assim a produtividade da colheita, estabelecendo o factor pelo qual se multiplica cada unidade deitada à terra. No caso do grão em sequeiro, afianço que é um bom resultado.

Mas, contas feitas por alto, os catorze litros de grão que colhi correspondem ao produto de cerca de uma semana de trabalho – quarenta horas, grosso modo. Ora, na mercearia da Dona Isabelinha, vende-se o grão a 1,65€ o kg, o que quer dizer que a preços correntes a semana de trabalho que acumulei no canteiro de grão-de-bico que produzi vale no mercado convencional cerca de …18,5 € (1 kg de grão tem cerca de 1,25 litros). E se desprezar o custo dos factores de produção envolvidos (semente e matéria orgânica) teria sido esta a minha receita, correspondendo pois a uma remuneração do trabalho que não chegaria a cinquenta cêntimos por hora. Vamos admitir que eu sou pouco rotativo e que podia ter feito o trabalho em metade do tempo, que ainda assim a remuneração da hora de trabalho não ultrapassava um Euro. Ou seja, cerca de 1/3 da remuneração horária considerada pelo salário mínimo nacional.

Se utilizar como exemplo outras culturas agrícolas conduzidas de forma tradicional, o resultado não é muito diferente, o que leva a uma questão pertinente: por quanto teria de ser vendida a colheita para remunerar decentemente os factores de produção?

Bom, o problema não é a resposta, mas a pergunta, uma vez que a dificuldade não está em encontrar o valor teórico correspondente, mas quem o pague. O caso é que o modo de produção tradicional não está estruturado para o mercado tal como ele existe e funciona. Aliás, ele nem sequer se articula com a estrutura da sociedade tal como ela desaguou no século XXI. E isto porque os modos de produção agrícola tradicionais não são monetaristas nem produtivistas, como ficou bem claro quando ontem fui às compras à Dona Isabelinha e paguei 19,30 € por um pão, um pacote de manteiga, dois de massa, um quilo de arroz e duas meloas. Ou seja, vendidos ao público, os meus catorze litros de grão não davam para pagar a conta. Mas enquanto com o grão que colhi eu tenho o bastante para a base de pelo menos cinquenta refeições, aquilo que comprei por valor equivalente não me dá para meia dúzia.

Portanto, ao invés da produção agrícola tradicional, as premissas da organização do mercado e da formação de preços agrícolas da modernidade não são as da satisfação das necessidades alimentares básicas, mas outras. Ora é dentro destas “outras” que se insere a nouvelle corrente da agricultura biológica (AB).

Embora se inspire em lógicas, métodos e técnicas tradicionais, a AB não é um modo de produção tradicional, mas um up-grade híbrido, que combina alguma mitologia do tradicional, enquanto suporte de marketing, com a nata tecnológica da “revolução verde”, como modo de produção.

Com a retaguarda quantitativa assegurada pela agricultura industrial, a sociedade da abundância aceita de bom grado que a AB explore nichos de poder de compra claramente acima da média, disponíveis para pagar mais por produtos agrícolas supostamente mais saudáveis. Mas claro que esta disponibilidade tem um limite, e por isso quem investe na produção AB poderá ter que fazer vista grossa a pressupostos centrais de sustentabilidade na prática agrícola, como única forma de lhe preservar a margem bruta. Ou seja, a postura comercial do agricultor biológico não tem nada a ver com a do tradicional, que apenas ia à praça quando tinha um excedente de produção. O agricultor biológico cultiva objectivamente para um mercado e tem encargos fixos decorrentes dessa opção. Por isso ele tem que promover uma política de controlo de riscos numa perspectiva de pragmatismo produtivista / monetarista cuja lógica é tacitamente aceite e reconhecida pelo normativo europeu que “define” a AB - o Reg CEE 2092 /91, cuja leitura aconselho vivamente a quem sofra de insónias nas férias.

Quer isto dizer que se eu quisesse sobreviver como agricultor biológico, alguma coisa teria que fazer além de requerer a etiqueta “bio” para os meus grãos tradicionais e pagar o devido controlo a uma entidade certificadora. Porque se é verdade que com a etiqueta posso vender os grãos mais caros, essa diferença ainda não chegaria para remunerar os factores de produção e em particular o trabalho, que na agricultura tradicional é preponderante. Portanto, e no mínimo, seria sensato pensar em trocar os canteiros por uma parcela onde fosse possível mecanizar o trabalho, em vez de o fazer manualmente. Além disso, seria de bom tom prescindir das sementes tradicionais da tia Júlia e usar uns garbanzos espanhóis “decentes”, pois já se sabe que os olhos são os primeiros a comer e entre os berlindes híbridos de nuestros hermanos e as cabeças de alfinete tradicionais da minha vizinha, não há consumidor que se preze que opte por estes. Depois, se um de vocês passar por lá e me encontrar de garrafa de gás propano e maçarico em punho a queimar erva, não se admire, porque essa é uma das técnicas aceites em AB para controlo de infestantes.

Acontece pois, que embora a AB assente o seu argumentário em noções muito válidas, como conservação do solo e preservação dos ciclos da matéria orgânica e da água e recuse os agro-químicos de síntese, ela tem como irrelevante a origem das fontes de energia investidas no processo produtivo agrícola, bem como o respectivo balanço. Não seria por usar matéria orgânica produzida em França, turfa irlandesa ou guano chileno, em vez do esterco das minhas ovelhas, que os meus grãos deixariam de ser AB. Tal como não é por voarem diariamente de Faro ou de Nairobi para Londres que os hortícolas certificados como biológicos e produzidos em Odemira ou no Quénia para serem vendidos no Harrods, perdem a etiqueta.

É por razões desta natureza que, embora tenha de positivo o facto de repensar o modelo de racionalidade técnica que tem norteado a “revolução verde”, a AB não é uma alternativa ao modo de produção agrícola industrial. A AB é apenas uma sua variante soft com claras motivações comerciais, porque continua a ser financeira e não energética a lógica em que é pensada a sua viabilidade - em última análise, se não der dinheiro, não se faz! Além disso, há aspectos do modo de produção que preconiza que são de crítica incontornável. Mas essas ficam para a próxima.

terça-feira, 15 de julho de 2008

O que se deixa ...


Existe um antigo género de exercício de especulação que consiste em pretender determinar como seria hoje a realidade social se ontem se tivessem tomado decisões diferentes. Parece que está na moda, depois de rebaptizado como “análise contrafactual”. O nome é pomposo, como convém, mas confesso que dou pouco crédito a esta “invenção” dos homens da história económica, que só não me parece pura perda de tempo porque o processo pode ajudar a compreender melhor a enorme variabilidade de ingredientes com que se faz a história.

Já se devia ter percebido que não chegamos onde estamos graças a processos de rigorosa intencionalidade objectiva, contrariamente ao que pretendem certas concepções ideológicas. De facto, se nem mesmo o produto da mais rigorosa engenharia é concluído exactamente como o projecto que o concebeu, não admira que os desfasamentos entre o que se sonha e o que se realiza se acentuem quando é o projecto de uma sociedade que está sobre o estirador, embora tenha de se conceder que o “gene egoísta” tem tido indiscutível papel na história desses desfasamentos, e nomeadamente nas suas derivas capitalistas. E embora existam excelentes defensores dos méritos “contrafactuais” do capitalismo liberal, nem por isso ele deixa de ser de critica incontornável.

Digo de crítica incontornável desde logo porque o capitalismo não foi capaz de resolver a conflitualidade inerente à relação entre o indivíduo e a comunidade ou entre as comunidades - limitou-se a mudar o terreno e o cenário desses conflitos. Em lugar do desconforto dos tradicionais campos de batalha, a versão moderna dos eternos jogos de poder optou pelo conforto do ar condicionado das praças financeiras das grandes capitais. Esta mudança corresponde a uma alteração de método na velha estratégia de disputa de territórios e recursos. O mundo mantém-se assimétrico, é verdade, mas o que o poder cedeu no campo militar e no carisma dos seus líderes, foi compensado pelas virtualidades do anonimato adquirido pelo capital financeiro, um novo género de eminência parda que, sem rosto nem bandeira, põe, dispõe anestesia e controla, perante a incapacidade de reacção objectiva dos governos.

Bom exemplo de que assim é tem sido a recente novela dos preços dos combustíveis e dos cereais, com os “oito maiorais” a reconhecer simultaneamente que a escalada é especulativa e que não têm meios para a contrariar, embora seja óbvio que esta falta de “meios” deve ser lida como falta, sim, mas no contexto duma ordem instalada cuja bondade se tornou dogmática.

Portanto, em lugar do recurso exclusivo à força das armas, o poder como exercício de dominação “evoluiu”, complementando-se com a criação e promoção de uma interminável panóplia de necessidades supérfluas através das quais controla os acontecimentos tecendo complexas teias de dependências. No topo dessa lista de dependências encontra-se o consumo do que não é essencial, processo cuja banalização emprestou aos indivíduos que vivem dentro do sistema e o alimentam, uma ideia de liberdade, uma imagem de prosperidade, um paradigma e um sentido, que são postiços .

São postiços por três ordens de razões. Em primeiro lugar porque se concebem como se os recursos em que se suportam fossem ilimitados e renováveis, e não são. Em segundo lugar porque são tidos como decisões autónomas mas correspondem a necessidades claramente manipuladas. Por último porque os mecanismos que os gerem preocupam-se com a boa “saúde” do sistema capitalista em si e não com a do sistema mais vasto em que os seus destinatários se inserem.

Ora é em torno destas questões, parece-me, que deveria ser discutido o equilíbrio entre os nossos sonhos civilizacionais e as respectivas possibilidades de materialização, como se de uma prospectiva contrafactual se tratasse. Isto, claro, se se considerar inaceitável a presente inexistência de um sentido colectivo capaz de transcender as consequências das grandes convulsões sociais cuja correlação com as lógicas associadas aos sistemas económicos são por demais evidentes.

É claro que esse sentido não tem de ser hegemónico, como se de uma outra globalização se tratasse. A diversidade de soluções na concepção das formas de organização social e económica, tal como na concepção dos bens e do seu uso, parece-me um valor em si mesma, porque constitui uma defesa “natural” contra os “azares” dos processos históricos e por isso a advogo. Mas, claro está, essa diversidade não é incompatível com o uso do conhecimento de que dispomos e que dá conta da importância de algumas premissas que podem bem, elas sim, funcionar como regras gerais.

A primeira dessas premissas é a necessidade de critérios de perenidade nas interacções que estabelecemos com o meio. A segunda, o imperativo da equidade nas interacções que estabelecemos com os outros.

Porquê estas e não outras?

Certo dia, numa daquelas apaixonantes discussões que costumavam marcar os fins de tarde domingueiros no café do Zé David, a discórdia derivou para a paramenta dos funerais. Tudo isto porque o Alves, o alfaiate lá do burgo, ficara indignado com o desperdício que representava o uso de um fato da melhor fazenda e ainda para mais praticamente acabado de estrear, para amortalhar a imprevista e precoce morte do Veiguinha. A situação merecia-lhe particular consternação porque o dito fato até assentava que nem uma luva ao Amílcar, o filho do defunto, conforme de resto se sabia porque o usara de recurso no baptizado do primogénito da prima, pois não tinha fato próprio e a função de padrinho do inocente merecia alguma compostura.

Quando se fartava de um assunto, o meu avô encontrava sempre uma frase que proferida no tom certo funcionava como inegociável remate. Foi o que fez com a seguinte tirada:
- Bom! O que interessa não é o que se leva…mas o que se deixa!
E foi já a caminho de casa que, como mandava o bom senso, resolvi retomar a questão:
- E o que é que se deixa, avô?
Recebi de troco uma expressão de sincera decepção:
- Ora essa!!!...

Claro que só mais tarde percebi que este conceito de futuro do meu avô incorporava passado e sonho. Passado porque não nos concebia como vindos do nada. Sabia-se descendente de gente concreta e vivera sobre o seu legado. Mas de um legado em devir, que não subsiste sem o sentido da obrigação que temos de o consolidar para a inevitável passagem de testemunho. Contudo, consolidar não significa que se deixe mais, pretende sim que se deixe melhor, o que pressupõe uma cultura de património que por si só corporiza um sentido.

É por esta razão que as utopias de desenvolvimento que ouço invocar a propósito e a despropósito, só me parecem coerentes quando as pressinto pensadas como processo para uma humanidade melhor. No entanto, uma humanidade melhor não é uma entidade que eu consiga conceber como mero improvement das variantes de convívio vigente entre a obesidade de uns e a desnutrição de outros, como resulta da obscena assimetria que se observa no acesso aos recursos e no seu uso. Daí que coloque a equidade social como corolário ético natural de um humanismo cuja maturidade terá de encontrar maneira de se materializar em soluções condizentes.

Idealmente, essas soluções passariam por formas de organização política, económica e social capazes de assegurar justeza no acesso e distribuição dos recursos, tendo ainda e além disso de ser capazes de assegurar funcionamentos sustentáveis. Porém, sociedades equitativas edificadas sobre fundações perenes, requerem mais do que projectos legislativos que enumerem comportamentos obrigatórios, pois é sobre atitudes individuais concretas em territórios bem definidos que elas enraízam.

Na realidade, culturalmente não existimos como átomos independentes, mas como entidades orgânicas onde os equilíbrios necessários ao bom funcionamento do conjunto não se alcançam em condições de clara hipertrofia de um dos seus órgãos, como vem sendo o caso da magna importância atribuída ao indivíduo nesta pós-modernidade. Daí que, quando se ensaia uma critica em devir ao presente, ela não possa, a meu ver, ser consequente sem ter em conta essa “integração” dos sentidos da vida – o individual, transitório, e o colectivo, de longo - prazo. E há pelo menos uma boa razão para que seja assim: é que a mudança qualitativa requer um desígnio comum. Não necessariamente um desígnio como um destino, mas como percurso ou processo em que o que ainda–não-aconteceu e o que ainda–não– se-antecipou se confundam numa espécie de bissectriz de um ângulo oposto à diluição cultural que tem vindo a fazer da acumulação e do individual-efémero o primado do nosso paradigma, com completo desprezo pelo sentido do patrimonial e pelo bem comum como valores.