Quando aqui há uns anos me ensinaram os rudimentos da Economia, falaram-me inevitavelmente dos seus grandes sectores: primário, secundário, terciário. Percebia-se rapidamente que nem a denominação nem a ordem propostas eram arbitrárias. De facto, antes de mais nada, uma sociedade precisa de se alimentar e por isso a agricultura e as pescas pontuavam no sector primário e eram tidas como o suporte da estrutura económica. A transformação dos produtos e a prestação de serviços são complementos importantes, sem dúvida, mas não nos alimentamos com sabonetes Dove e, embora eu ache que há quem não acredite, garanto que se sobrevive sem o telejornal diário.
Houve um tempo em que os países procuravam equilíbrios estruturais destes sectores nas suas economias. Um dos argumentos invocados era, senão a autonomia, pelo menos um grau aceitável dela, e nesta lógica o conceito de cobertura da balança alimentar tinha alguma relevância. Este conceito defendia que deveria ser criada e mantida uma certa capacidade de produção autónoma de bens alimentares de primeira necessidade. Mas depois veio a globalização e nunca mais ninguém pensou no caso.
Vou tentar explicar isto com um exemplo.
O meu vizinho Jeremias era um desses pequenos agricultores que com a ajuda do burro Deodato cobria a totalidade das suas balanças alimentares e contribuía para uma parte das nossas. Um dia, há já alguns anos, estava ele de passagem pela Água da Sola, a caminho das Caldas, quando se cruzou com o Nunes que fazia o caminho inverso. E pararam a trocar novidades. Estavam eles nisto quando estaca um autocarro. Abertas as portas, saiu de lá de dentro um bando de estrangeiros de máquinas fotográficas aperradas e quando o Jeremias deu por ele tinha mais de dez contos de gratificações na mão sem sequer se ter desmontado. De modo que no dia seguinte, mais ou menos pela mesma hora, fazendo de conta que não era nada com ele, arreou o Deodato e, casualmente, fizeram-se de novo ao caminho da Água da Sola, mas mal chegaram ao asfalto foram interceptados por novo autocarro. Chegados aqui poupo-lhes detalhes e concluo que em menos de um mês o Jeremias fez um up-grade do primário para o terciário e dez anos e dois Deodatos depois tem um próspero negócio de prestação de serviços turísticos que é um case-study com tabela e tudo: foto só ao Deodato – 2 euros; Jeremias e Deodato - 5 euros; Deodato com cônjuge ou parente do fotógrafo em cima - 10 euros…e por aí adiante.
Claro que esta migração trouxe consequências. Presentemente, o Deodato II só come palha espanhola e o Jeremias só não sabe de onde vem o que come porque não sabe ler os rótulos das embalagens, mas duas coisas garante ele: há doze anos que não cultiva uma batata e dinheiro para as comprar nunca mais faltou.
Por mim acabaria por aqui, mas escaldado com as indignações do António Sem Penas, obrigo-me a teclar mais qualquer coisa.
O Jeremias personifica o percurso da economia portuguesa e de muitas outras. Trocamos a quase totalidade da produção de bens de primeira necessidade pela prestação de serviços que pretendemos “de valor acrescentado” e com as gorjetas lá vamos comprando a palha espanhola e mandando vir do Canadá o trigo com que se faz o pão.
Enquanto Espanha (ou a China, tanto faz) continuar a produzir e a vender-nos palha por troca das gorjetas que os irlandeses cá vão deixando, a coisa até é “sustentável”, como se diz modernamente. O problema é se falha algo no processo, pois entretanto aprendemos tudo sobre a “nouvelle-cuisine” da batata e da etiqueta de a servir à mesa, mas esquecemo-nos de como é que elas se cultivam. E por arrastamento e falta de melhor uso, os terrenos onde isso se fazia foram vendidos, e onde não se construíram vivendas, há auto-estradas ou parques industriais ou de estacionamento.
Qualquer aprendiz de economista da modernidade nos dirá que nada disto é acessório, que se trata de uma importante dinâmica de comércio, tendo por premissa o interesse em potenciar as capacidades diferenciadas das várias economias, a gesta de novas sinergias, os ciclos de valor acrescentado, a requalificação da mão de obra, o desenvolvimento do terceiro mundo, sim, pois, claro, com certeza, los alimentos viajeros, pressupuesto, está bem visto, mas…será que não nos está a escapar alguma coisa essencial?
