sexta-feira, 30 de novembro de 2007

Os Apóstolos


Quando J Cristo quis divulgar pelos povos a sua concepção do mundo, escolheu para mensageiros os seus melhores discípulos. JC acreditava, com razão, que os melhor colocados para difundir a sua verdade eram, claro, aqueles que melhor a tinham assimilado.
Hoje, quando a economia neo-liberal procura perpetuar-se como modelo de gestão social, os seus principais actores reúnem nos templos do capitalismo os discípulos e escolhem entre os que melhor assimilaram as suas verdades os seus apóstolos.

Mudam os tempos, os templos e as verdades, mas mantém-se o método. Só que, nesta nova ordem, os "evangelhos" estão escritos a cifrões, e os heróis do nosso tempo já não libertam donzelas cristãs prisioneiras em fortalezas pagãs - passeiam-nas de Ferrari pelas marginais. Eles são o produto sem defeito duma linha de montagem de criaturas sem dúvidas, tão cheias de certezas que invocam Deus e a Ciência com a mesma fé dogmática.Nem os modelos "T" da Ford saíram tão iguais das linhas de montagem que inauguraram a produção em série. E as Universidades que os produzem, que eram os lugares da Terra onde o conhecimento avançava pela capacidade de se questionar permanentemente a si próprio, transformaram-se nos templos do capitalismo de mercado onde a excelência se define pela capacidade de assimilar e reproduzir com fidelidade a ordem estabelecida, papagueando as sebentas assinaladas.

São os perfis destes "primus inter paris" que, findo o processo iniciático, aparecem estampados nas páginas centrais dos jornais de referência. Paramentados com o fato e gravata ou o "tailleur" da regra, debitam para a posteridade os clichés e lugares comuns que deixam em êxtase babado progenitores e mestres. Nem um só pensamento original ou dissonante; nenhuma dúvida; nem um pingo de irreverência.
No currículo, além das grandes notas das faculdades de economia, pontuam autênticas pérolas: "catequista desde os 17 anos". Comovente, tanto amor a Deus e ao próximo. Apetece perguntar se quando chegarem aos quadros do Banco cujo CEO frequenta a Missa das 7 na Igreja da mesma paróquia (onde, de resto, já se catequiza o jovem CEO Júnior the Third) irão recuperar o secular ódio de Cristo pelos agiotas ...

Eles, os "Primus inter paris", são a prova provada do sucesso da minha geração. Nós, trocamos os ideais pelo recheio das contas bancárias, a moral por BMW's de função e a ética por vivendas em domínio público marítimo. Eles, seguem-nos os passos. Mais, serão ainda melhores que nós. Porquê ? Porque os expropriamos da história. Por isso só sabem conjugar o tempo na 1ª pessoa e no presente do indicativo. Assim, sem os pruridos de consciência que nós ainda tivemos a atrapalhar-nos a voragem burguesa, assumem a intervenção social como mero instrumento do seu próprio sucesso individual.
Se nos restasse uma réstia de discernimento e bom senso, talvez nos inquietássemos quando os ouvimos oferecer à plebe indiferenciada a opção democrática da escolha: "eles" ou o caos da barbárie! Mas não! Abrimos o sorriso de orgulho imbecil típico do dono do cachorro que aprendeu a dar a pata.
Nós, fomos insubstituíveis porque instalamos a mediocridade no poder. Eles, irão sê-lo porque tudo farão para a perpetuar. Portanto, Amém!

quinta-feira, 29 de novembro de 2007

O Factor Sopas

Nota prévia: Quando há anos começaram a ser publicados estudos sobre as alterações climáticas e o aquecimento global, publiquei no semanário regional Barlavento uma crónica que, por não ter perdido actualidade, transponho na integra.

Nunca soube ao certo como é que ele se chamava. Mas fosse onde fosse todos o conheciam. Pela alcunha, claro. Chamavam-lhe “O Sopas”. Ninguém sabia porquê (nem o próprio) nem isso era relevante.

Havia dois aspectos responsáveis pela grande notoriedade do Sopas: a sua proverbial boa disposição e a proeza de nunca ter caído com a motorizada dentro do canal de rega.

Chegados a este ponto, há explicações que têm que ser dadas.

Desde logo que no sistema vascular do Sopas circulava álcool, mais propriamente aguardente de medronho. Esclareça-se, também, que o Sopas era cantoneiro do perímetro de rega, responsável pela abertura e fecho dos pedidos de água dos agricultores do planalto. No cumprimento dessas funções, o Sopas deslocava-se a alta velocidade sobre as veredas das bermas dos canais de rega (essas mesmas em que é proibido circular de velocípede com ou sem motor, e a pé só com cuidado) montando numa “Casal de 5ª”. O Sopas nunca se atrasou na abertura de qualquer adufa, nem nunca caiu ao canal. Essas são certezas na memória popular.

Para arredondar o fim do mês, o Sopas tinha um biscate e uma avença. O biscate era a pesca ao sargo, tarefa de fim-de-semana cujo produto revertia para os restaurantes das redondezas ou para épicas caldeiradas, se houvesse quem entrasse com o vinho, o pão e as batatas (por esta ordem). A avença, que tinha sido arranjada por intermédio do engenheiro, era o posto meteorológico: competia ao Sopas a manutenção, a recolha diária dos dados e o seu envio mensal para o Instituto na Capital. O envio mensal dos mapas de dados nunca falhou. A recolha diária desses dados, bem, isso era outro assunto.

É que o posto ficava fora da volta e longe de casa. De Inverno, desde que não estivesse a chover e a nortada não fosse rija, até não tinha dúvida, sempre sobrava algum tempo dos serviços de manutenção das infra estruturas. Mas no Verão, com a azáfama da distribuição da água a ocupar as manhãs e as tardes, o que sobrava era a hora do calor, mais que imprópria para tais desempenhos. As avarias do material também não eram fáceis de resolver. Lembrem-se que ao tempo ainda não havia telemóveis, e por um capricho dos TLP, telefonar da taberna do Pacheco para a vila era uma interurbana.

Um dia, ia eu a despacho na Vila, quando à saída do Monte me cruzei com o Sopas. Por descargo de consciência perguntei se precisava de alguma coisa, ao que ele respondeu que, fazendo eu esse favor, pedisse ao Engenheiro que informasse o Instituto que o termómetro de máximas e mínimas estava avariado. O que o Sopas queria mesmo dizer é que o dito se tinha partido ia para quinze dias. O novo demorou uma semana a chegar, mas, claro está, não foi pela falta de termómetro que o mapa mensal de máximas e mínimas daquele Julho deixou de seguir para Lisboa com casas decimais e tudo.

Conheci um colega de avença do Sopas , o Cebola ( de apelido, não de alcunha). Era um cabo-de-mar natural de Serpa e durante anos e anos foi o guardião dos bons costumes da mais conceituada praia algarvia contra os desmandos das bifas que, trajando à margem do regulamento, começavam a aparecer a banhos por estas latitudes, e a quem ele repreendia com ar sério e mímicas irreproduzíveis, num inglês de praia que transcrevo em estilo livre (à falta de léxico adequado):“Madame, Madame: Ai beach boss look sérvice. Biquinu, não like; fato-de-banho, very like ! "

Cebola tinha para com os dados da estação meteorológica que tinha avençada uma relação em tudo idêntica à do Sopas: extremo rigor e pontualidade no preenchimento e envio dos mapas de dados; muita intuição, em larga experiência fundada, para inferi-los. Exemplo: se hoje esteve mais calor que ontem, e ontem tinha estado mais fresco que o dia anterior, sendo que anteontem, por acaso, o Cebola até tivera vagar para ir ao posto e o termómetro marcava 25,1 ºC ( mais ou menos, claro), tal queria dizer que a temperatura máxima de hoje apontava para os 25,6ºC e ontem fora de 23,7 ºC.

Nas semanas chuvosas de Novembro, o pluviómetro podia passar dias a transbordar que nunca haveria a pluviosidade de atingir os 94 mm em 24 horas (a capacidade do dito era 1 litro). Porquê? Precaução elementar: não dar nas vistas. É que, além da “regularidade” das visitas, nunca ficou determinado com rigor qual a influencia da carga etílica nos erros de paralaxe na leitura das delicadas escalas. Portanto, nada de números redondos.

Lembro-me do Sopas e do Cebola sempre que me cruzo com estudos climáticos realizados com pretensões de inquestionável rigor científico. No caso do Algarve, por exemplo, é impossível fazer qualquer estudo do clima dos últimos 35 anos sem levar em consideração os contributos do Sopas e do Cebola. E se o “rigor” desses dados é irrelevante para a caracterização do clima, o mesmo já não se poderá dizer quando deles se pretende tirar ilações quanto a tendências da sua dinâmica. A minha perplexidade é maior quando esses dados são utilizados (e até 1994 não podem deixar de o ser) para fundamentar uma tese de aumento em 0,7 ºC da temperatura média do ar nos últimos 30 anos! Aquecimento global? Será. Mas, para variações tão pequenas, qual foi a ponderação que o "factor Sopas" mereceu na construção do algoritmo que suporta essa conclusão?

Quando interlocutores ilustres partilhavam com ele reflexões que mereciam ao Sopas a maior incompreensão ou a mais absoluta das reservas, havia um comentário tipo com o qual ele rematava a conversa com grande solenidade: " Pois não tenha vossemecê dúvida nenhuma!"
É isso mesmo!

Nota final: como é usual dizer-se nestas circunstâncias, sendo este texto é uma obra de ficção, qualquer semelhança entre as personagens aqui descritas e a realidade será mera coincidência.

terça-feira, 27 de novembro de 2007

Incompetência ou Má-Fé ?


O Jornal Público de ontem, citando uma organização britânica, dava conta de um aumento assustador, durante os últimos trinta anos, daquilo a que chama “catástrofes climáticas” e que, para não variar, eram atribuídas às “alterações climáticas”.

A propensão jornaleira para a noticia catastrofista já é conhecida e por si não merece mais comentários.

O facto de existirem organizações que fazem destas coisas modo de vida e razão de existir dos seus protagonistas, também não é novidade.

O que merece referência continua a ser algo bem mais prosaico, a saber, a veleidade com que estas leituras se publicam sem sequer o dever de informar ter o prurido elementar de as sujeitar ao contraditório.

Se essa regra essencial na informação já não faz parte dos cânones jornalísticos, seria interessante que fossemos devidamente informados da ocorrência. Mas se ainda faz, das duas uma: ou a incompetência grassa em toda a estrutura editorial do Jornal, ou então há evidente má-fé e temos o Jornal objectivamente ao serviço de interesses afectos à tese das alterações climáticas.

No caso da notícia em referência as razões são óbvias. A realidade geográfica sobre a qual se abatem os fenómenos climatológicos não permaneceu constante ao longo dos últimos trinta anos. As últimas décadas têm assistido a migrações em escala faraónica para os litorais e para as periferias de grandes metrópoles. Nesse processo, o povoamento desordenado e precário em situações de óbvio risco, tem crescido descontroladamente. Veja-se o caso dos morros adjacentes ao Rio de Janeiro. Noutros casos, uma confiança desproporcionada na técnica força o povoamento para situações limite, como é o caso de Nova Orleães, construída em zona de delta e abaixo da cota do rio e do mar.

Ou seja, a probabilidade de impactos consideráveis sobre as populações em virtude de ocorrências climatéricas extremas é maior pela simples razão de que há muito mais gente em situação de risco.

Neste como nos outros casos, a tese das alterações climáticas é apenas um óptimo pretexto para os responsáveis sacudirem a água do seu capote.

O ano passado, por esta altura, houve uma antiga povoação piscatória no Algarve, entretanto transformada em meca turística, que mais uma vez meteu água. Onde? Na que apropriadamente é chamada “Rua do Barranco”, ou seja, que era um barranco (regionalismo para linha de água temporária) mas que agora é a principal rua do burgo. Mais, as casas maioritariamente comerciais que aí se construíram até caves têm. Resultado, quando chove um pouco mais que a conta e a maré está cheia, a água não escoa e é inundação garantida. Mas instado a pronunciar-se sobre a ocorrência, o ilustre Edil não se coibiu de mencionar as alterações climáticas como estando na origem do sinistro.

No caso, o jornalista de serviço assinou a peça e partiu para outra. Mas o Público, que não é um jornalzinho regional, deveria funcionar noutros patamares de exigência até por razões de respeito pelo seu público.

Se não o faz em situações tão flagrantes é por mera incompetência ou estará assalariado por interesses inomináveis ?

segunda-feira, 26 de novembro de 2007

Apareço...logo, existo !

Apesar de continuarem a ser muito citados por tantos quantos pretendem credibilizar a sua erudição, não me parece que os clássicos da filosofia, desde Sócrates a Kant, merecessem o crédito que lhes é atribuído, inclusive por quem nunca os leu, se vivessem nos nossos dias.

Isto por uma razão simples, eram “generalistas”, condição que se tornou sinónimo de incompetência neste universo de “especialistas”.

Do tempo em que a filosofia se definia a si própria como "ciência dos seres, dos princípios e das causas" passou-se em pouco mais de um século para um ambiente de conhecimento compartimentado, ainda que para isso tenha sido muitas vezes necessário forçar por arrombamento as fronteiras do bom senso.

Deste modo a contradição que alguns notam entre o acréscimo de quantidade de conhecimento disponível e o uso que dele se faz, é apenas aparente, porque a especialização tem um efeito de afunilamento que conduz a uma perda de perspectiva.

Num tempo em que a globalização convidaria a uma perspectiva macroscópica da Vida, o que mais se encontra são imagens panorâmicas, sim, mas obtidas pela objectiva do umbigo de quem as fotografa e ainda por cima desfocadas com a preciosa ajuda dos lentes que pululam pelos média.

Vivemos num clima de inusitado frenesim de cópula mediática. Para a imensa parafernália de especialistas do nosso tempo, um muito prosaico "apareço logo existo" há muito que relegou para as calendas gregas o clássico "penso, logo, existo". Por isso eles se desdobram em entrevistas em que, mesmo quando não abrem a boca, servem na perfeição o objectivo central da iniciativa: credibilizar uma notícia que segure audiências e obter para si próprios a credibilidade só acessível a quem já apareceu na TV. Mas fazem mais que isso: contribuem decisivamente para cultivar as imagens cada vez mais redutoras com que olhamos o mundo.

Mill espantar-se-ia como as teses utilitaristas que estruturou foram potenciadas. E nem mesmo nos seus dias de maior euforia criativa, Smith se teria permitido viajar tão longe nas concepções liberais da ordem económica.

De facto, uma espécie de utilitarismo hiper liberal é o que melhor define este tempo de globalizações em que vivemos, súbditos de um império mediático que nos formata desde a roupa que vestimos até ao que pensamos sobre a relação da Angelina Jolie com o Brad Pitt!

Não é pois de admirar que incorporemos o que se mediatiza com a mesma facilidade com que uma esponja seca absorve a água. Se os média dizem que a terra está a aquecer e que o clima está a mudar, é porque é assim. Se os especialistas aconselham a usar biodisel, é isso que se deve fazer - venha o biodiesel, os carros movidos a biodiesel e fica tudo resolvido. E do mesmo modo que a produção de lixo e de poluição se transformou numa indústria de sucesso de tratamento de lixo e combate à poluição, também as alterações climáticas estão a dar origem a uma bem sucedida indústria de conservação climática. É assim que se preserva o essencial. E o essencial é o modo de vida que temos. Daí que os especialistas nos aconselhem a “transformar as dificuldades em novas oportunidades”. Mais utilitário que isto, nem Mill.

Portanto dispensam-se Spengler’s, Suntag’s, Harendt's, Soljenitzin’s e outros pretensos pensadores do nosso tempo. É verdade que eles viraram o funil ao contrário e observam que temos um problema não de forma mas de conteúdo. No entanto, como estão catalogados c
omo "generalistas", são naturalmente tidos por utópicos e incompetentes, e nessa medida as prosápias que destilam sobre questões tão pouco mediáticas como o declínio do Ocidente ou sobre ser a auto-limitação o principal vector da liberdade, aparecem como extremamente inconvenientes aos olhos de todos os "especialistas" que existem apenas porque aparecem!

quinta-feira, 15 de novembro de 2007

Verduras Famosas



Há algum tempo uma professora das minhas relações lamentava-se da grande dificuldade que sentia em conseguir obter resultados palpáveis das suas actividades escolares de Educação Ambiental.

Fui logo de opinião de que se tratava de um problema de estratégia. E expliquei: se em lugar de investir em educação se investisse em publicidade e marketing, seguramente que os resultados ambientais pretendidos seriam alcançados muito mais rapidamente. Dei exemplo: o Cristiano Ronaldo em horário nobre a recomendar para fechar a torneira quando se lava os dentes, produziria muito maior poupança num só dia que dois anos lectivos de esforços educativos a alertar para a necessidade de contenção no uso da água.

Muito depois desta ocorrência, eis que surge o Senhor Al Gore a demonstrar a pertinência das minhas observações. Bastou que o homem dissesse que havia produção excessiva de CO2 para que a rapaziada tresloucasse à procura de árvores para agarrar o carbono que anda à solta por aí .

Como lhes compete, os jornais agarraram logo na deixa e, nesta incursão pelo verde em que têm andado, ei-los que se atiram à pesca de famosos que dêem a cara pela causa. E eles aparecem, desde o Redford ao Sting, que dão a cara não se sabe bem pelo quê, à Gisele B, que dá cara e corpinho pela água. O Leonardo de Caprio vai mais longe e informa-nos duas coisas igualmente relevantes: a primeira é que instalou painéis solares nas suas casas (percebe-se que deve ter pelo menos duas…) e a segunda, que deixou de viajar em jacto privativo e passou a frequentar os voos das companhias aéreas normais.

Portanto, como se vê, a coisa até está a pegar. Importa que a rapaziada faça qualquer coisa, mesmo que seja apenas por imitação e não saiba exactamente porquê – publicidade afinal é isso mesmo! O problema é que ainda assim, para que isto funcione, convém que os magos do marketing usem os famosos para nos sugerir coisas realizáveis, senão ficamos na mesma. Explico-me. Que sequência prática posso eu dar à informação de que o Leonardo deixou de dar uso ao jacto privativo e começou a frequentar as hospedeiras (uupps..corrijo: as cadeiras…) dos voos comerciais?! E quanto aos painéis solares nas “suas casas”: se já os tenho na minha devo comprar outra casa para que os passe a ter nas minhas?

É que se a ideia é promover comportamentos pró-ambientais concretos, por favor, venham com propostas acessíveis ao comum dos mortais. Volto aos exemplos. Se o Leonardo tivesse dito que tinha deixado de andar de carro e começara a andar só de combóio, teríamos um comportamento cuja imitação estaria ao acesso de muita gente. O mesmo sucederia se a Gisele declarasse que deve a sua impressionante silhueta ao uso inegociável de água da torneira! Mas se em vez disso tivermos o Al a declarar que só usa o Lexus-Hibrido, de que é que isso nos serve ?

Eu até era capaz de sugerir aos senhores que gizam esta publicidade que se assessorassem melhor, para que as suas campanhas tivessem resultados ambientais efectivos. Mas o caso é que tenho uma enorme desconfiança de que esta questão da efectividade é completamente irrelevante para a dinâmica neo-verde em que andamos enrolados! E pior: desconfio que ninguém dá por isso !!

segunda-feira, 12 de novembro de 2007

Manifesto Anti - Neo-Verde



Fruto de um casamento de conveniência entre os burgueses que somos e os cidadãos que gostaríamos de ser, nasceu um híbrido: o neo-verde !

O neo–verde, é o prematuro-mutante-viável de uma tentativa desconseguida de compreensão do sentido da Vida. Prematuro, porque não sobrevive sem um sistema exterior de apoio – os média e os congressos de educação ambiental; mutante viável, porque resulta da evolução possível de quem tentou perceber os fundamentos da ecologia, mas percebeu mal !

O neo- verde tem formação média ou superior e encontra-se disponível em duas versões: light e hard ! O neo-verde light, proclama sempre que pode que é preciso salvar o planeta, compra as fitas do novel-Nobel pela internet e é assinante da National Geografic. O neo-verde hard, vai mais longe: só consome produtos com certificação ambiental e quando trocar de carro quer comprar um Honda-hibrido ( o Lexus está fora do orçamento ).

O neo verde é a personificação de todas as pseudo-certezas imaturas que atingem os pós-adolescentes tardios . Confunde sabedoria com conhecimento e não distingue conhecimento de informação. Por isso, acredita hoje no aquecimento global e amanhã há-de acreditar no arrefecimento global. O neo- verde é evolucionista desde o Big Bang e além disso conseguiu a proeza de simplificar para dois a complexa fórmula dos três R’s – o entendimento neo-verde é que quem recicla, reduz !

Pode-se pois dizer que a cultura neo-verde se caracteriza por uma espécie de neo-provincianismo invertido. Explico: ele sabe exactamente o que é preciso fazer para salvar o planeta, mas não faz ideia de como se semeia um alho. No entanto, se colocado perante esta dificuldade, o neo-verde tem sempre a resposta pronta: “ esse tipo de questão não é linear, tem contornos mais complexos e outro tipo de implicações, e por isso não deve ser abordada de uma forma simplista sem antes se proceder a uma avaliação integral de todos os impactos”. E o alho, agradece!

O neo-verde não prescinde da janela panorâmica na marquise, mas quando tiver dinheiro quer equipá-la com vidro duplo. O neo-verde é consumidor de Actimel e está na expectativa de que brevemente a ciência torne biodegradáveis as respectivas garrafinhas. O neo-verde está em permanente dieta de hidratos de carbono, e por isso não vê inconveniente em que com trigo se produza etanol para os motores a gasolina.

Contrariamente ao demodé verde-contestatário, a personalidade neo-verde é por natureza conciliadora: acredita no valor do consenso como menor denominador comum para um futuro melhor, e pauta-se por princípios de uma saudável flexibilidade. Por exemplo: se tiver que optar entre qualquer questão verde e o cheque do fim do mês, o neo-verde encontra sempre forma de ficar com o cheque !


Ambientalmente falando, o neo-verde é ejaculador precoce, isto é, anda sempre tão excitado com a questão que ao mínimo estimulo debita verdura, deixando o interlocutor sempre insatisfeito. Exemplo: o neo-verde é exímio em conceitos éticos, mas chega sempre atrasado às reuniões.

Para além disso o neo- verde tem bons hábitos sociais e hobbies sustentáveis, tipo sócio de um moto clube que promove passeios de natureza. Assim, num fim de semana soalheiro, procura um pendura tão verde-alface quanto possível, e vão em caravana ver os golfinhos ao zoomarine ou ouvir os passarinhos ao sitio das fontes. Claro que se estiver de chuva, o neo-verde fará como o comum dos mortais: mete-se com a família no monovolume do pai e vai passar a tarde ao Fórum local. Foi exactamente numa dessas tardes em que arrastava indolentemente as solas recicladas pelos reluzentes pavimentos da catedral do consumo, que o neo-verde exultou com a novidade: acabava de ganhar o Nobel !!!

quarta-feira, 7 de novembro de 2007

Oportunismo Ambiental

No período de frenesim industrial que se seguiu à Segunda Grande Guerra, um senhor que dava pelo nome de Ivan Iliich, predisse que os malefícios da poluição galopante rapidamente se iriam transformar em benefícios da ordem económica instalada. Na linha do pensamento de Marx, também Illich identificava nos sistemas capitalistas a sua capacidade inata de se transformar por dentro, adaptando-se a tempos diversos e sociedades distintas, graças ao seu completo vazio moral.

De facto, foi com uma facilidade estonteante que se viu os mesmos grupos que ganharam e ganham dinheiro a poluir e contaminar, passarem também a ganhar dinheiro a despoluir e descontaminar. Tudo isto, claro, sem que fosse afectado o crescimento das empresas e das economias, a quem, na verdade, tanto faz que as mais valias geradas provenham de dividendos obtidos na educação ou na saúde, como na produção e exportação de minas anti-pessoal , pois o que basicamente se pretende é que a roda não pare de girar e que, enquanto gira, consiga manter uma paz social que não afecte em demasia o essencial dos interesses instalados, ou seja, que o mundo se mantenha divido entre os que são ricos e os que, não o sendo, sonham sê-lo.

Até aqui nada de novo.

Por isso, num tempo em que todos falam de alterações climáticas, e em que o capitalismo triunfou, é com naturalidade que se assiste ao advento de uma industria de “conservação climática”, com todo o marketing mediático que, nos tempos que correm, é condição intrínseca de existência de qualquer facto, quando não mesmo o facto em si.

Com o ex-futuro presidente dos USA à cabeça, engrossa a olhos vistos o número daqueles que são contra o aquecimento global, por Quioto, contra a desflorestação da Amazónia, pelo regresso da neve ao Kilimanjaro, contra o buraco do ozono e a favor das baleias de bossa, etc e tal...Engrossa e ainda bem que engrossa. É provável que o Planeta agradeça tanto deslevo, mas quem seguramente já está agradecido e muito, são tantos quantos já se posicionaram para as novas soluções de produção de energia, desde as eólicas ao bio diesel, para falar apenas destes.

Energias limpas ? Não é tanto assim! Os componentes estruturais dos aerogeradores ou dos painéis foto voltaicos não são feitos a partir de minérios renováveis ou de minerações limpas, nem as oleaginosas a partir das quais se quer produzir o bio diesel deixam de ser um produto da agricultura industrial e esgotantes dos solos em que se cultivam, nem os biocombustiveis são isentos de emissões de gasos poluentes. Como qualquer outra actividade humana, também estas têm impactos, e os impactos tendem sempre a ser subestimados.

O que efectivamente se está a passar é que a acepção ecológica da sustentabilidade foi completamente tomada de assalto e reconvertida pelo discurso ultra liberal do capitalismo moderno, que lhe transmite uma acepção pragmática que a todos faz sentido: “sustentável” passou assim a ser a politica capaz de nos permitir ganhar muito dinheiro hoje, amanhã, e sempre, seja à custa do aquecimento global ou do arrefecimento global.

Neste “ambiente”, sempre que são chamados a intervir sobre estas questões, os ilustres “cientistas” em voga parecem afectados por dois fenómenos concomitantes: o primeiro é de falta de perspectiva, eventualmente ofuscada pelos projectores dos palcos para onde foram catapultados pelo interesse comercial dos média, e o segundo é uma irresistível deriva ovina que os inibe de tentar sequer remar contra esta maré de evidências mediáticas.

A propósito de questões paralelas a estas, Meira lembrava há tempos um provérbio popular da sua Galiza natal, segundo o qual “só os peixes mortos não nadam contra a corrente”. O caso é que existem algumas noções essenciais que deveriam ser transmitidas com alguma clareza e o rigor que a ciência deve exigir de si própria. Nomeadamente, que as variáveis climáticas não são constantes ( por isso mesmo se chamam variáveis), que trinta anos é o mínimo para caracterizar alterações consistentes no comportamento de um clima ( e ainda assim não é mais que um mínimo convencionado…), e que as alterações das técnicas, dos equipamentos ou dos contextos micro-climáticos em que os dados são recolhidos interfere necessariamente na sua natureza e portanto na sua comparação.

Se as coisas fossem postas nestes termos, provavelmente nem sequer haveria noticia, mas sejamos claros e honestos : a média das máximas do mês de Agosto de 1933, calculada com base nas leituras “a olho” de um avençado do Instituto Superior de Agronomia na Tapada da Ajuda, não é rigorosamente comparável à média de Agosto de 2006, obtida por leituras de terminais digitais na Portela de Sacavém, e os critérios que suportam a validação desses dados para integrar as séries estatísticas que alimentam os modelos matemáticos sobre os quais depois se extrapola, não são mais que isso - critérios! Da mesma forma não parece muito fiável a avaliação da performance da calote Árctica quando em cima da mesa estão elementos de monitorização tão dispares para a comparação como fotografias de satélite actuais e…coisa nenhuma ! A verdade é que ninguém faz ideia se em 1900 já havia buraco de ozono na Antártida, ou se no sec XVIII não terá havido um período qualquer em que a neve também desapareceu do Kilimanjaro !!!

Parece ser facto que o clima, como quase tudo na Terra, nunca foi estático ! Mas ainda assim as dinâmicas de mudança climática que se inferem em passados ainda recentes e noutros anteriores à presença do Homem, não conseguem ser explicadas senão por edifícios de hipóteses em que é impossível determinar com exactidão o peso relativo das varáveis em presença. A realidade é que o conhecimento concreto dos mecanismos que presidem a essas alterações, não existe.

Quer isto dizer que nada se passa e nada deve ser feito para reduzir os impactos das actividades humanas ? Nada disso!! E se a questão da motivação para a mudança pode considerar-se secundária face à amplitude dos problemas, o mesmo não sucede em relação à perspectiva em que se realiza essa mudança, sob pena de continuar tudo na mesma.

Sob a tremenda pressão humana que canaliza parte muito significativa dos recursos e da energia para utilizações perfeitamente supérfluas, ninguém questiona o modelo( leia-se, sociedade de consumo ), apenas os seus efeitos. Interpretando como problemas as suas consequências ( leia-se, eventual aquecimento global, por exemplo ), os sectores ditos esclarecidos das sociedades ocidentais, reagem com paliativos de consciência e aplaudem o Nobel de Al Gore com o mesmo tipo de atitude com que se põe o vidro no vidrão e o papel no papelão. Mas não se reformula uma virgula nas bases conceptuais que estruturam culturalmente os modos de vida, que é como quem diz, o consumo do vidro, do papel, ou da energia em geral. E isso sucede apenas porque desagrada ao comodismo corporativo que se generalizou ou também graças aos superiores interesses dos grandes grupos económicos que habitam nos meandros mais íntimos do poder e para quem o caminho da redução é uma parte inaceitável da estratégia dos três R’s ?

Sejamos claros: para a dinâmica da perspectiva capitalista da economia, reduzir consumos do que quer que seja, não é opção. E de cada vez que se chega a um impasse de crescimento, o marketing inerente ao sistema dispara avidamente na procura de outros patamares de retoma. Se se tiver que montar no aquecimento ou no arrefecimento global, é indiferente. Até pode ser que o Planeta agradeça os impactos marginais que dai decorram, mas não nos tomem por ingénuos! O oportunismo é o ADN do capitalismo. Foi esta a mensagem de Davos, foi esta a mensagem que o altruísmo ambientalista do senhor Al Gore deixou há tempos em Lisboa a troco da bonita soma de 200.000€ : a eventualidade das alterações climáticas é uma oportunidade de negócio e, portanto, chegou a vez do ambiente voltar a render! Seja especulando no mercado internacional do carbono, seja promovendo os modelos híbridos da Lexus, ou dando a cara por fitas catastrofistas na melhor tradição Hollywoodesca!

A grande maioria dos problemas ambientais que hoje se identificam, apresentam uma forte correlação com a actividade humana e, embora dessa correlação não seja legitimo inferir causalidade, eles são os mesmos que estando tipificados há décadas podem ter interferência directa naquilo que se perspectiva como “alterações climáticas”. Mas daí a preterir a solução de problemas concretos e bem identificados como a degradação dos solos e dos recursos hídricos, a desflorestação e a desertificação, a depredação dos oceanos, o sobrepovoamento, a pressão sobre os litorais, a gestão irracional da energia, nada fazer nesses domínios e, de repente, eleger o eventual aquecimento do clima como “o problema” por excelência, vai a toda a diferença que existe entre a hipocrisia e a honestidade, que é como quem diz, entre atacar a raiz dos problemas ou perder tempo e recursos discutindo o fait-divers das suas consequências.
Admito que haja quem se envolva nestas dinâmicas de boa fé e espírito de cruzada. Admito mesmo a existência de muitos especialistas que, na boa tradição do “funil pensante”, encaram estas questões com o mesmo entusiasmo idiota com que se dedicam a conjecturar sobre a forma física de eventuais criaturas que habitam os sistemas planetários que residem nos antípodas desta galáxia. Admito até que o comum dos mortais que se preocupa de forma abstracta com as alterações do clima encare pacificamente como inevitáveis a maioria das suas práticas diárias que contribuem para esses fenómenos. Mas não são essas as máquinas que fazem girar o Mundo em que habitamos. É o poder ! E o poder do tempo presente é capitalista. Como Illich já sabia, o capitalismo será tudo o que quisermos, menos ingénuo ! E no mundo da “ciência” como no mundo da “politica” ou dos “média”, são infelizmente muito poucas as consciências que não têm um preço, que até pode muito bem ser o Nobel !