domingo, 5 de setembro de 2010

Há Pobres e pobres ...

O basófia do Almerindo era daquele tipo de pessoa que todos os dias tinha uma razão de queixa qualquer. Ou doía-lhe as costas, ou tinha uma vaca doente, que chovia, que fazia sol, enfim, qualquer coisa era uma boa razão para clamar, barafustar. Naquela tarde domingueira deu-lhe para embirrar com os ricos, que eram uns palhaços, uns filhos da tal senhora e de um senhor com dores de testa crónicas, e mais isto, e também aquilo, e que o mundo havia de ser sempre a mesma merda, com os ricos de um lado e os pobres do outro.

Chagado a este ponto, o velho Rocha resolveu cortar-lhe o monólogo com um pergunta atirada lá do seu poiso habitual na ponta do balcão do café do Zé David , onde costumava inteirar-se do estado do mundo.

- Atão tu na gostavas de ser rique ?
- Omessa, Mestre Rocha ! Quem é que na gostava de ser rique ? !
- Atão já tás a ver como tavas a dizer disparates?…
- Por mom de quê , Mestre Rocha?!
– O velho Rocha dignou-se desencostar-se do balcão, endireitou as espáduas, virou-se, e rematou daquela forma indefensável que deixava em pânico quem quer que fosse que estivesse à baliza:
- Tá bom de ver que o mundo na se divide nada entre riques e pobres, criatura ! O mundo divide-se entre os que já são riques e os que na são mas querem ser, come é o té case !

Lembrei-me deste episódio a propósito de um grupo de pessoas genuínas e bem intencionadas que partilha na blogosfera o sonho de acabar com a pobreza . É um sonho bonito, simpático, daqueles que geram adesões espontâneas de todos os genes altruístas por mais recessivos que sejam. Por isso a abordagem critica deste sonho é uma tarefa antipática. Tenho-a adiado por isso mesmo. Mas como a minha intenção não é destruir o sonho, apenas questionar a utopia, aqui vai o meu contributo.

Pode-se definir a pobreza sem definir a riqueza ?Talvez não ! Onde não há termo de comparação a pobreza, isto é, viver com pouco, é a condição normal. No entanto, como a distribuição histórica dos bens raramente tem sido equitativa, o estado “normal” das sociedades é que coexistam uns poucos que têm muito e uns muitos que têm pouco . Mas basta isso para tipificar a pobreza ? Talvez não baste. Pode-se viver bem com pouco e mal com muito. È mais saudável ser magro ou obeso ? A resposta basta para ilustrar o meu ponto, que é a dificuldade de estabelecer uma grelha quantitativa, generalista, que enquadre a pobreza. Percebe-se isso nas várias tentativas de sistematização, como a deste post. A modernidade de consumo e abundância sente-se na necessidade de redefinir as fronteiras da pobreza porque as expectativas mudaram. Ser pobre deixou de ser tipificado pela capacidade de resolver as necessidades básicas, já não basta dizer que é viver com pouco, tem de se dizer também o que se entende por pouco. Quando há uns tempos um governo qualquer resolveu aumentar o abono de família em não seis quantos cêntimos, não faltaram os beneficiários disponíveis para declarar aos telejornais que isso “nem para as fraldas” dava. Quer dizer, ser pobre já não é andar de cu ao léu ou de camisas remendadas, mas não ter orçamento para fraldas descartáveis, pois as outras, as que se lavavam todos os dias, são vistas como…não sei como, sei que já ninguém as usa, nem ricos nem pobres.

Portanto, procura-se actualizar e incluir novas dimensões no conceito de pobreza. Mas a tentativa comete o pecadilho das fraldas: define as necessidades de acordo com um paradigma cujas fronteiras descolaram da utilidade das coisas e remete para o Estado abstracto a responsabilidade que é de todos e de cada um - fazer pela vida.

A moderna luta contra a pobreza tem por objectivo a equidade universal na abundância. Ainda que relativa, é de distribuir a abundância que se trata. A adquirida e a por adquirir. Cá por casa, o próprio PCP não se inibe de incluir o crescimento do PIB no seu discurso. Percebeu que o que há não basta para satisfazer as suas reivindicações de mais de tudo para os do costume e alinha com os outros na necessidade, não só de melhorar a distribuição, mas também de aumentar a riqueza. Mas esta riqueza que se infere tem pés de barro. Ela avalia-se segundo critérios monetários transitórios e obtém-se com soluções intensivas de aprovisionamento energético cuja durabilidade não está assegurada. Ou seja, a abundância que consideramos possível mas mal distribuída, não é real nem está garantida.

Quem gosta de angariar aderentes aos seus discursos incorporando na retórica as possibilidades de redistribuição do património concentrado nas mãos dos ricos, tende a esquecer que essa solução já foi ensaiada e que se saiba raramente correu bem. Entre nós o ultimo ensaio aconteceu no pós-74, por exemplo. Quem esteve atento percebeu que o património dos ricos só vale o que se apregoa quando há outros ricos para o comprar, mas o pessoal já se esqueceu disso. Quer dizer, não se vai longe redistribuindo fortunas. Coisas como iates nem para ir à pesca servem. E para os trocar por patacos, pois ou sobram ricos que paguem o que se convencionou que aquilo vale ou então não vale nada porque não serve para nada. Não se trata de pactuar com a amoralidade na obtenção ou na concentração da riqueza. Mas de reflectir que os luxos que pontuam na avaliação das fortunas são sobretudo coisas assim, inutilidades que criam a ilusão de prosperidade onde ela não existe.

Por outro lado, aquilo a que se convencionou chamar melhoria geral das condições de vida, ou seja, o acréscimo significativo de facilidades que se têm registado nas ultimas décadas na obtenção de bens e serviços, não está ligado ao desenvolvimento de uma capacidade efectiva e duradoura de colheita e distribuição desses bens. Está sim ligado a soluções de aprovisionamento e uso de energia que não são racionais nem definitivas. E a paradigmas macroeconómicos que semeiam dependências disfarçadas sob roupagens surrealistas de interdependências globais.

Quer dizer, abordar a questão da pobreza pelo lado da distribuição, talvez seja curto. Curto porque dá como adquirido o que se julga disponível sem cuidar de perceber se essa disponibilidade é real ou aparente, duradoura ou transitória, necessária, supérflua ou, simplesmente, inútil. Esta estreiteza de vistas pode ter a ver com outro género de pobreza essa sim deveras complicada, que é a cultural. A memória de saber viver no território que suportou a civilização que herdamos, tem vindo a degradar-se . Os arautos da mundividência criticam o provincianismo. Mas os Almerindos da pós modernidade já não são apenas ignorantes que querem ser ricos, são ignorantes letrados, impressionistas da vida. Eles sabem papaguear os problemas da fome em África, mas não são capazes de cultivar uma batata no quintal lá de casa. Ou seja, tal como certos luxos, têm mero valor decorativo, não servem para mais nada . E isso é pior que a pobreza, é uma miséria, porque revela falta de sabedoria para dar bom uso ao que se tem, seja pouco ou seja muito.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Teoria dos Erros

Tranquilos ! Não se segue nenhum prato pesado sobre filosofia da matemática. O tempo vai quente e as refeições querem-se leves. Portanto, vamos a uma recensão de lugares comuns sob a égide do erro.

Em comentários ao post anterior falou-se da dificuldade em assumirmos os erros. E eu fiquei a matutar sobre o que é isso dos erros. Pode dar-se o caso de usarmos o conceito de erro de formas perfeitamente abusivas. São muitas as expressões que incorporamos nos nossos raciocínios e nos nossos discursos sem nos darmos ao incómodo de nos determos sobre o seu significado. Sobram as ideias que adquirimos automaticamente. Esse pragmatismo é necessário mas pode redundar em leituras simplistas das coisas, e o conceito de erro é daqueles que se presta a isso.

Raramente separamos a noção de erro de um absoluto omnisciente, como se houvesse uma clarividência transcendente para aceder a tudo o que não se conhece ou ainda não aconteceu. No entanto o erro define-se em relação a uma convenção ou a uma norma, que são coisas mais que terrenas, elas mesmas sujeitas a erro. Daí que seria prudente não separar a ideia de certo ou errado da nossa inteligência das coisas e das limitações que estão sempre associadas a esses processos. A nossa compreensão do mundo e de nós mesmos, é apenas a que é possível. E o erro, mais que uma consequência de uma compreensão imperfeita ou de uma prática incorrecta, é um ingrediente da vida.

Eventualmente, viver-se-ia melhor aprendendo a incorporar os erros nos nossos processos que procurando evitá-los. É que os erros que se cometem na vida não são do mesmo tipo de erro grosseiro que se pode cometer num procedimento químico sobejamente conhecido. Se as mulheres fossem água e os homens ácido sulfúrico, só cometia erros de diluição quem quisesse. O protocolo de diluição do ácido sulfúrico está bem estabelecido. Recomenda que se deve adicionar sempre o ácido à agua e lentamente. Inúmeras experiencias realizadas já demonstraram à saciedade que o contrário explode aquela merda toda nas trombas do criativo. Mas como as pessoas não têm as propriedades químicas e a previsibilidade do comportamento dos ácidos e das bases, é frequente que das respectivas misturas resultem reacções imprevistas. Talvez seja essa a chave para a compreensão da diversidade da vida. Mas temos o mau hábito de valorizar as experiencias bem sucedidas sem reflectir que por cada sucesso alcançado se cometeram carradas de erros. E esquecendo que para empreender pelo desconhecido é preciso algum atrevimento. O atrevimento é o motor da mudança. E o erro é inerente aos processos de quem se atreve.

Portanto, quem é que errou ? A Felismina, que ainda não percebeu qual o papel do sonho na vida? Errou a vida que tem o hábito de se apresentar como um sonho ? Ou errei eu, que já na altura tinha a mania de que o que não calamos é o que melhor nos define ? Errou a minha parceira de deambulações pelas estradas toscanas por só me ter dito que era casada muitos dias depois daquele primeiro abraço que nos demos numa ruela de Orino? Ou errei eu, que acho que não tenho nada a ver com isso ? Se tivesse sabido que ela era casada, que devia eu ter feito ? Fugia, para prevenir posteriores acusações de responsabilidade num processo de divórcio ? Ou pedia uma batina emprestada ao vigário de serviço e assumia-me como paladino do mandamento segundo o qual não posso cobiçar nem perlimpimpar a mulher do próximo, mesmo que ela obviamente me cobice e me queira perlimpimpar a mim e eu não tenha das mulheres o conceito de propriedade do próximo nem conheça o gajo de lado nenhum ?

Assumir os erros ? Sim, mas desde que não se atribua aos erros uma importância que não têm. Sobreavaliados, os erros fazem dos medos cobardias paralisantes, alimentando a crença insana de que a vida é um projecto que é possível executar com a perfeição dos santos. A procura da perfeição é legitima. Mas só me parece saudável se tivermos claro que é duma utopia que se trata. Quem não percebe isso faz da vida uma contrição permanente. Por mim, basta-me colher o que semeio e não fugir da merda que faço. Limpo a que posso, meto o resto na compostagem e é com isso que fertilizo a horta onde irão germinar com todas as imperfeições inevitáveis os dias que ainda estão para me acontecer. Mesmo sabendo que errei, só me arrependo do que não vivi. Quer dizer, prefiro os atrevidos, mesmo que revelem dificuldades em se assumir. Lamento é os idealistas que se deixam aprisionar pelo que “podia ter sido se….”. Esses, como a Felismina, fazem-me pena, pois disfarçam a falta de rasgo numa espécie de masoquismo penitente que é imagem de marca de todas as malfadadas “vitimas do destino”.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Bodes Expiatórios

Os antigos que habitam as serranias algarvias mantêm o hábito de informar que “foram ao Algarve” de cada vez que se deslocam ao litoral. Tomo-lhes a tradição de empréstimo para que se perceba que fui ao Algarve, sim senhor, teve de ser. É raro, no verão até pago para evitar a dose, mas aquela repartição não aceita procuradores, tem de ser o próprio, teve de ser.

Estava então eu no Algarve de senha na mão na expectativa de ser atendido, quando da ré por estibordo me chegou um inesperado interpelo:
- Rocha ?!
Virei a proa e liguei o histórico da base de dados fisionómicos. Como era cedo a ligação estava rápida, e aqueles olhos pretos como azeitonas ajudaram ao reconhecimento da colega de liceu que não via… desde que o acabei ! A minha base de dados, no entanto, tem um problema : não está etiquetada. Reconhecer caras é fácil: a legenda com o nome é que ainda está em arquivo de papel. Mas como já levo certa prática, normalmente consigo aguentar a conversa até chegar lá.
- Oláá !!! Estás boa ??
- Então não vês ? Estou velha ! Tu é que estás na mesma !!
Sempre que me dizem isto tenho de me conter. É que há uns anos sai-me com essa e lixei-me. Era um professor que já não via ia para mais de uma década, com quem ia partilhar a mesa de um seminário.
- Mas que gosto em vé-lo !! O professor está na mesma ! - Aí ele puxou-me à parte e confidenciou-me num registo sacanóide que lhe era muito próprio.
- Dizes isso porque não dormes todas as noites comigo
Ficava mal ter respondido o mesmo à Felismina. Isso , Felismina, descobri a etiqueta. Portanto contive-me e segui o guião da praxe, já com as legendas a funcionar.
- Então, Felismina. Que é feito de ti ?
- Olha, agora estou de férias…
- Mas estás cá de férias ou …
- Não, não, moro e trabalho cá, sou professora no nosso antigo liceu, professora de matemática…por tua culpa !
?!

Faço um resumo senão ficámos aqui o resto do mês.
Éramos finalistas e a Felismina queria ir para medicina. Medicina na altura já requeria médias altas e á Felismina ainda faltavam uns trocos para chegar à que precisava. Andava a negociar caso a caso esses arredondamentos e pelos vistos as coisas até não lhe estavam a correr mal. O professor de biologia é que pelos vistos destoou. Em lugar de lhe dar ou negar o bónus que ela pedia e calar-se, resolveu colocar o caso à consideração da turma, imagine-se ! Estávamos em 75 e instalava-se um hábito estranho de desresponsabilização colectiva a que alguns ainda chamam democracia. Ao tempo eu já tinha o mau hábito de dizer o que pensava. Não tinha a experiencia dos efeitos desse género de atitude que hoje tenho, mas o hábito já lá estava. De forma que não me inibi de dar o meu contributo para aquele pusilânime processo de decisão, alegando que se íamos ter notas a pedido talvez fosse preferível perguntar a cada um a nota que queria para si em lugar de perguntar a todos que nota é que devia ter a Felismina. A Josefina, por exemplo, tb precisava de um empurrão para entrar no magistério. Mas como era um inibido pãozinho sem sal nem graça, nem se atrevia a pensar em semelhantes negociações, portanto, para que ali não houvesse filhos de deuses menores…. Na turma ouviu-se um murmurinho de aprovação. Mais ninguém falou, o professor resolveu não dar à Felismina o bónus de 3 valores que ela pretendia, e ela hoje é uma frustrada professora de matemática…por minha culpa !!

De regresso ao meu eremitério, ocupei os quilómetros tentando recapitular que outras culpas do género posso ter por ai escramalhadas. E fiquei preocupado, confesso. Ponham-se no meu lugar e imaginem que daqui por uns anos eu reencontro num voo transatlântico a companheira de esperas de ligações pelas estradas toscanas, de quem vos falei no post anterior .
- Manoele !!
- Helloooo !!!
- E enquanto lhe procuro o nome no tal arquivo que se calhar nunca hei-de carregar, largo a pergunta de circunstância - How is life ??
- …Not so well !!... I’m divorced now…because of you !
- ?!

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

O Poder dos Mídia


A insónia instalou-se quando a exótica passageira do lado trocou a almofadinha da British Airways pelo meu ombro. Agora ajeita-se. No processo requisita-me também o braço direito e inunda-me de cheiros a ervas frescas. Conformo-me. Com o braço que sobra, envio um aceno de socorro à solicita assistente de bordo. Ela consegue-me some portuguese newspapers disponibilizados com um acent tão irish quanto o sorriso. São da semana passada mas que se lixe. Qualquer coisa é bem vinda para me distrair a noite do consistente ronronar morninho da sedosa desconhecida que já me dorme literalmente ao colo.

Há meses que não sei noticias da terra. Mas pelo que a mão esquerda vai folheando, pouca coisa mudou nesta ausência. Entre polvos de faces por descobrir e revisões constitucionais por acontecer, o essencial permanece. E o essencial são as incontornáveis prosas dos opinantes articulistas regimentais. Quais pilares do edifício luso, eles dão provas de resistência a qualquer alteração climática. São homens e mulheres que nunca têm dúvidas e que nunca se enganam, autênticos gauleses desta pós-modernidade, irredutíveis na forma como se batem contra qualquer arroto que a ética possa libertar.

Com uma criatividade mais assertiva que poção mágica, fazem noticia sobre o que não aconteceu… mas podia ter acontecido. Isto não é jornalismo, senhores, é arte ! E eu dou graças a tais artistas. Bem hajam! São eles quem me ajuda a fazer de conta que ignoro as deambulações das mãos da minha vizinha, que há dez minutos me percorrem sonolentas sem se aperceberem por onde andam, as malvadas. Exímio na arte de instrução, julgamento e condenação em processo sumaríssimo do mais pintado, o jornalista luso nada perdoa. O Sócrates é mentiroso, o Cruz pedófilo , o Lima assassino.
- Se foi o ultimo a vé-la com vida…
- Ah sim ? Por isso ?! Quer dizer que têm a certeza que foi o ultimo ?
- Bem, a autopsia não foi conclusiva…. Mas no Brasil encomendar um serviço é barato, portanto ?…
- Portanto ?! E por que não eu o mandante, pá ? Sabias que o meu sonho era engatar uma velha herdeira para o golpe do baú e depois despachá-la?

O formato tablóide que contaminou a comunicação, é como uma inundação de falta de carácter, que alastra com uma virulência superior a todas as gripes conhecidas e por inventar. Nenhum agente se revela tão bom vector da mediocridade como o mau jornalismo. Foi ele que consagrou o principio de que todos somos culpados de qualquer coisa até prova em contrário. E insinuar essa culpa primordial é o fim que justifica todos os meios. Indigno-me, agito-me, incomodo a minha vizinha e ela muda de posição. Sorte madrasta ! Chega-se ainda mais e no processo abre-se-lhe outro botão do camiseiro. Esta é daquelas para quem as copas da Triumph são um acessório inútil, e eu já não sei onde me meter. Pena não ter por aqui o contacto de um destes jornalistas que sabem tudo e têm solução para tudo. Mas por que raios não se acaba com políticos, economistas, magistrados ou juízes, se temos jornalistas mais sábios e capazes que qualquer deles ?? Tento concentrar-me nesta tese mas não há condições. Salva-me a voz do comandante a avisar a malta da iminência da descida para Roma. A vizinha acorda, lânguida, demorada nos sorrisos:
- Did I behave ?
- Believe me : you don’t want to know !

Ela olha-me, ainda demorada. Não sei se pondera a resposta se simplesmente a procura nos refundos do saco onde lhe desapareceu o braço, sem que o olhar se desvie . No espacinho entre a dúvida minha e a resposta dela, quem se desviou foram os meus olhos, teve de ser, pois reparo num identity press card que veio à tona, e onde aquele mesmo sorriso exótico pontuava lado a lado com uma sigla da BBC.
- But I do want to know.
E que lhe hei-de eu responder se ela é das que quer saber tudo, se me sorri com tudo, se até já sabe que perdemos o voo de ligação e que temos vinte longas horas para resolver pelo cafés di Roma ? Vinte ! Eram vinte e podiam ter sido longas, pois podiam, mas acabam por se passar tão depressa que falhamos completamente o voo seguinte, quer dizer, nem tentamos lá chegar, pois já era week-end, Roma estava caldissima, e ela achou que a Toscânia devia estar mais fresca, e agora fala-me de latadas verdes e de rosés de torpor, fala-me disso com sorrisos corados de frescura enquanto eu desatino com a falta da segunda na caixa marada deste restyling do Fiat Cinquecento da Destinia Car-Rental. Subimos para Orino, eu praguejo, ela ri, e quando se ri agita-se-lhe o decote onde as copas seriam ofensas, sobe-lhe a saia sobre as coxas para onde não posso olhar, atento às curvas, à segunda, ao ponteiro da temperatura a subir para o vermelho, espantado com a ideia absurda de ainda haver quem duvide do poder dos mídia.

domingo, 15 de agosto de 2010

Evidência ou fé ?


Basta uns dias mais quentes e , quais ursos polares hibernados durante os rigores do ultimo inverno, logo reaparecem eufóricos os defensores da teoria do aquecimento global antropogénico .
- Nós não dizíamos ?
Confesso-me farto desta retórica. Tinha prometido a mim mesmo que não ia contribuir nem com mais uma tecla para este peditório, mas ainda não vai ser desta.

Percebe-se que as criaturas que vivem de vender papel e tempo de antena, precisem de matéria prima para variar a estafada ementa de Freeport’s e casos Maddie. Uma pessoa acaba a conseguir conviver com isso, que remédio. Ao que não me habituo é a que iniciativas de informação que deviam ter para consigo mesmas outras exigências, não se inibam tb elas de derivar para o simplismo redutor das análises típicas dos formatos tablóide. Vejam esta noticia na Naturlink para enquadrar o que se segue.

Mudança climática é um conceito que pretende representar a ideia de uma alteração significativa das normais climatológicas de referencia ao longo do tempo num espaço territorial. O que se entende por normais de referência ? Entende-se as médias das observações verificadas num determinado conjunto de anos nesse espaço. Como é que se estabelece qual o conjunto de anos suficiente para definir essas normais? De forma fortuita. Como nos primórdios dos estudos climáticos as séries completas disponíveis eram poucas, começou por se usar grupos de 30 anos e a tradição manteve-se. Mas podiam ser 50 ? Podiam. E se fossem 100 anos ? Bem, quanto maior o numero de anos de cada série, menor a variabilidade entre séries. Dito de outra forma, a manutenção de séries curtas até dá imenso jeito ao desenvolvimento de teorias sobre a variabilidade do clima. Mas são representativas do clima?

A qualidade daquilo que se entende por representativo, não é a mesma de algo a que se possa atribuir uma objectividade inquestionável. Ser ou não ser representativo é um critério como qualquer outro. Muitas vezes a representatividade define-se ao contrário, quer dizer, de acordo com o que temos disponível. Quando o orçamento ou o tempo disponível não dão para recolher mais dados, os que existem têm de bastar. Só quem nunca andou nestas andanças das investigações e dos trabalhos de campo e respectivo tratamento estatístico é que não sabe do que estou a falar. Ora a partir do momento em que o estudo consiga entrar nos circuitos regimentais, torna-se irrelevante se devia ter sido suportado em mais ou menos dados. O que é relevante é que as conclusões sejam aceites e gerem consensos. Isso basta para legitimar muita coisa na metodologia que noutras condições mereceria inúmeros reparos. Mas não basta para transformar um consenso numa verdade objectiva.

No entanto as séries curtas continuam a ser usadas e com elas vêm as incontornáveis armadilhas. Imaginem que estudamos o fenómeno neve em Sevilha. Se as séries em estudo se reportarem ao período de 30 anos entre 1970-2000, não há registo de observações de neve em Sevilha. Conclusão : em Sevilha não neva ? Bem, em 2 de Fev de 1954 nevou e não foi pouco, e em 13 de Janeiro deste ano voltou a nevar à séria. Ou seja, se a série em estudo abrangesse o período 1954-2010, então a probabilidade de nevar em Sevilha já não seria zero. Dirá o crédulo: Ah, mas os cientistas prevêm essas coisas e é para isso que convencionaram os factores de correcção e outras ponderações estatísticas que tais! De facto. Mas continuamos a falar de critérios. E ainda que esses critérios sejam consensuais, repito-me, eles não são a realidade objectiva, apenas a aproximação possível com o actual estado da arte.

O mesmo se passa em relação ao uso de médias estatísticas para o estudo dos fenómenos climáticos. Não é o local nem o autor está habilitado para uma dissertação sobre filosofia da matemática. Mas há nesta matéria coisas elementares que se tende a considerar como adquiridas e estão mal adquiridas.

A ideia de medidas de tendência central, entre as quais se inclui a média, são abstracções com as quais se pretende representar a realidade e desse ponto de vista têm-se revelado bastante úteis. No entanto têm limitações. Não podem ser usadas indiscriminadamente, pois elas não são a realidade. Ontem, 14 Agosto, a temperatura média em Castelo Branco foi igual à de Faro, ambas as cidades com 24,5ºC. Mas enquanto em Castelo Branco essa média se obteve com uma máxima de 33 e uma mínima de 16, em Faro a máxima foi de 27 e a mínima de 22 ! Ou seja, quem se fie nas previsões médias para acampar ao relento, é capaz de acordar a meio da noite a bater o dente nos camping de Castelo Branco. O estudo do clima como parte da biosfera, não se compadece com abordagens estatísticas meramente quantitativas. Hoje, às 10 TMG, Faro e Castelo Branco estavam ambas com cerca de 25º . Mas enquanto em Faro se registava 70% de humidade, Castelo Branco ficava pelos 30%, o que em termos de habitabilidade da mesma faixa térmica faz toda a diferença.

Qual a tese ? Esta: quando se pretende desenvolver estudos sobre o comportamento de fenómenos como as variáveis climáticas, são precisos indicadores para estabelecer comparações. Mas só se pode comparar o que é comparável.

As médias de temperaturas são indicadores comparáveis. Mas os dados com que elas são construídas são comparáveis ? Dados como temperaturas, só se começaram a registar com o advento dos termómetros, uma ferramenta recente. Estamos a falar no máximo de 200 anos de observações, sendo que as sistemáticas são ainda mais recentes, o que, em termos da escala das coisas em que evoluem as variáveis climáticas, nos coloca na infância das observações. Acresce que essas ferramentas com que se recolheram dados durante este tempo, não têm sido as mesmas. Os termómetros abertos dos primórdios não registam o mesmo que os modernos, digitais. Além disso, a leitura a olho , sujeita a todos os possíveis erros, de paralaxe ou de desleixo, que imperou até há pouco mais de uma década atrás, não pode ser comparada com os métodos actuais. Mas essas diferenças são assim tão importantes que impeçam a comparação desses dados ? Os registos manuscritos dos idos de 1900 e as impressões informáticas dos registos digitais das observações de 2000, servem todos na perfeição para caracterizar os climas, para lhes esboçar tipologias. Mas quando se trata de estudar a variabilidade dentro dos climas, o caso muda de figura. É que a variabilidade intrínseca à qualidade dos dados, que está associada às ferramentas e aos métodos de recolha, pode anular a pretensa variabilidade especifica das temperaturas, quando o que está em discussão são diferenças na casa das décimas de grau.

Existe ainda um outro aspecto que tem de ser tido em conta e que tende a ser ignorado nestas abordagens sobre a comparatividade dos dados. Refiro-me aos contextos. Podemos falar da temperatura de Lisboa às 15 TMG sem especificar em que local concreto a obtivemos ? Não ! Agora que até os carros já trazem termómetros, qualquer alfacinha sabe que se ligar a uns compinchas espalhados pela cidade para lhe lerem as temperaturas a uma hora certa, vai obter valores bastante diferentes conforme o local em que se encontrem. Esse aspecto tem sido tido em devida conta nos estudos de variabilidade térmica ? Os registos históricos de temperaturas para Lisboa foram sempre recolhidos no mesmo local ? E, ainda que o tivessem sido, nada mudou na envolvente do posto de observação ? Não existem mais edifícios a alterar as condições de circulação aérea, mais aparelhos de ar condicionado, mais automóveis , mais outros equipamentos que possam ter uma influencia significativa na alteração das condições locais em que se obtêm os registos ? E a ponderação que lhes foi atribuída, foi a suficiente para lhes anular os efeitos ? Como pôde ser objectivamente validada ?

Até aqui estivemos a falar de registos directamente comparáveis, i.é, medidos com instrumentos. No entanto, como se verifica pelas afirmações contidas no artigo que deu mote a este texto, as comparações já vão muito para além disso. Quando se afirma que Moscovo registou nos últimos dias as temperaturas mais altas dos últimos 1000 anos, estamos também a usar aquilo a que os climatologistas chamam medições indirectas. Uma das mais popularizadas recorre ao estudo comparado do crescimento das árvores. Extrapola-se o crescimento observado num ano de temperatura conhecida e infere-se que todos os anos com crescimentos idênticos registaram aquela temperatura. Bem, em igualdade de outros factores de crescimento, como luminosidade e disponibilidade de água e nutrientes, até é possível que sim. Mas houve como monitorizá-los? É que se não houve, convinha não esquecer que não é só da temperatura que depende o crescimento de uma planta. O leitor urbano aproveite o verão e ponha duas couves iguais em dois vasos iguais aí na varanda. Regue uma e deixe a outra à sede, que percebe imediatamente do que estamos a falar.

Existem ainda outras referências indirectas para avaliar climas passados. Uma delas são os registos históricos. Mas mesmo esses devem ser lidos com algumas cautelas. Um dos argumentos usados como prova daquilo a que se convencionou chamar o período quente medieval na Europa, são as crónicas relativas ao cultivo de vinha no Sul de Inglaterra. Em princípio isto queria dizer duas coisas para aquela região na alta idade média: ausência de geadas no período vegetativo e cúmulo de temperaturas suficiente para a maturação da uva. Podemos então usar esta informação como indicador de uma época com temperaturas mais elevadas que as actuais ? Podemos, mas como hipótese, apenas isso ! É que nem todas as variedades de videira têm a mesma exigência de carga térmica para a maturação da uva. No campo das hipóteses e sem outras informações adicionais, o cultivo da vitis naquela região, tanto poderia ter decorrido do uso de uma variedade adaptada como da existência de um período climático efectivamente mais quente.

Concluindo que isto já vai longo.

Quando me informam que nunca tinham sido medidas em Moscovo temperaturas tão altas como as dos últimos dias, eu não tenho por que duvidar. Assim será. Mas também sei outras coisas. Sei que é a primeira vez em mil anos que elas são medidas com recurso a termómetros digitais. Também sei que a metrópole não existia há mil anos, que nunca foi tão grande. Sei ainda que não é normal Moscovo estar cercada por incêndios nas turfeiras que estão a arder porque têm vindo a ser sistematicamente drenadas. Não falo das ruas entupidas por tantos carros como os moscovitas de há duas décadas nem se atreveriam a sonhar, nem dos compressores térmicos que nasceram no exterior dos prédios como cogumelos. Nisso Moscovo é como qualquer outra metrópole. Portanto, eu até posso comparar os registos das temperaturas, pois posso. Mas honestamente não posso ir daí para qualquer outro lado porque tudo mudou no onde e no como elas são obtidas. Dizem-me que estamos perante provas de mudança climática. Bem, ela até pode estar em curso, mas usar o calor em Moscovo ou o frio em Buenos Aires como se fossem provas disso, transforma a suposta evidência numa anedota.

Sabe-se que os climas mudam. Sabe-se que mudaram várias vezes ainda antes dos homens terem aprendido a andar de gatas, quanto mais a queimar petróleo. Está em curso uma mudança climática de indução antropogénica ? Pode ser que esteja, como também pode ser que o clima seja uma entidade em mudança permanente. À partida qualquer teoria é legitima. O que não é honesto é procurar demonstra-las comparando o que não é comparável atolando as cabeças em abstracções falaciosas. A terra não tem um clima, tem climas. Além da diversidade regional, sabe-se que há nos climas variabilidade interna, e que as mudanças, que acontecem, quando acontecem, têm impactos bem distintos. Nalguns contextos há quem beneficie com elas, noutros quem saia prejudicado. Mas é essa a natureza mesma da mudança. São raras aquelas em que todos saem ganhadores. Eu percebo que possa haver quem ache que tem nesta matéria uma boa oportunidade para, perante a ameaça do “inferno”, levar as turbas irresponsáveis a inflectir inúmeras atitudes desastrosas com que vêm habitando o território. São almas bem intencionadas e ainda bem que existem. Mas então façam-me um favor: dispam a bata com que andam disfarçados de gente da ciência e assumam-se de vez como o que são, catequistas, que não percebem a diferença entre um facto, uma evidência, uma prova, e uma crença.

domingo, 11 de julho de 2010

Oportunidades e oportunismos.

Ainda há muito boa gente que vive convencida que basta ter boa voz para fazer uma carreira musical de grande sucesso. Mas não é bem assim. A celebridade não tem só a ver com vontade ou talento. Pode também ter a ver o acaso, é verdade. Para se chegar á fama è preciso estar no lugar certo na hora certa, embora não convenha estar de qualquer maneira.

Há muito tempo que o marketing percebeu isso e inventou as máquinas de propaganda e as fábricas de celebridades. A ideia é que nem tudo tem que ser apenas fruto do acaso. Portanto, não admira que até o mais banal dos bardos saiba que precisa tanto de uma imagem como da voz para garantir uma audiência. São coisinhas como, por exemplo, nunca tirar os óculos de sol. Isso pode bastar para celebrizar um cantor que por acaso até nem sabe cantar. Não fosse isso e talvez o Abrunhosa se dedicasse à construção civil. Ou seja, as fábricas de celebridade tratam de expor no mercado das oportunidades as imagens que produzem. Só então se entregam ao acaso. As probabilidades fazem o resto e inevitavelmente algumas pegam.

Este preâmbulo de lugares comuns surgiu-me na ressaca da indisposição que me tem andado a provocar a forma como alguns personagens do mainstream do economês liberal e neo-liberal tradicionais, se têm aproveitado da crise do sistema capitalista vigente para se promoverem à condição de celebridades dissidentes . Roubini, por exemplo,tem feito tudo para se por a jeito para ser celebrado como o grande vidente que antecipou em dois anos a actual crise. Bem, conheço muita gente anónima que o fez, mas não eram assessores do FMI nem recorreram a nenhum tipo de marketing para promover essas supostas façanhas de adivinhação, e por isso é como se nem existissem. Mas não é bem isto que me traz aqui.

O que me traz aqui é que a grande “descoberta” atribuída a Roubini é a ideia de que,a prazo, a auto-regulação é uma ficção e a regra é a crise. Mas esta ideia é pelo menos tão velha quanto a ecologia. Encontra-se por todo o lado na obra de Adams, logo no primeiro quarto do século XX, por exemplo. Só que, como teoria, é pouco simpática. E as teorias de sucesso precisam de ser simpáticas. As teorias bonitas e harmoniosas são mais atraentes. No limite até podem não ser melhores nem piores que outras, mas são simpáticas, que é como quem diz, têm boa imagem, e por conseguinte vendem muito melhor os documentários da National Geografic. Não é por acaso que a maioria da malta do movimento ambientalista já ouviu falar do Aldo Leopoldo mas não faz puta ideia de quem seja o Adams. De facto ele nunca pensou numa montanha com o romantismo larilas da abordagem do Leopoldo.

Portanto, o que fazia falta para tornar comestível uma boa ideia antiga e antipática, era um bom trabalho de imagem. E para isso nada melhor que a boleia da credibilidade granjeada pela façanha do adivinho mais celebre do momento, que assim até se torna duplamente célebre, uma vez que passa por pai da dita . Não se estranhe pois se nos próximos tempos se assistir à redescoberta das teses anexas que desde há muito tempo têm sido pregadas no deserto por alguns eremitas que têm tentando perceber o mundo na óptica do que é contingente, conflitual, incomparável. Seria uma variante interessante, sem dúvida, e uma excelente oportunidade para abastecer o depauperado arsenal de opções de governo . Não sei é se serão desenvolvidas de acordo com os seus corolários naturais. Tenho fundados receios que não, e que bons princípios de reflexão para desenvolver estratégias de governança de base regional, degenerem em más receitas generalistas e azedem em dois tempos ao serviço das necessidades de marketing pessoal das sumidades que as recuperaram. É que, como bem notou Horkheimer, quando a propaganda faz da opinião pública mero instrumento ao serviço da notoriedade, mais a opinião pública se assume como um substituto da razão. Pior que uma má ideia, só mesmo uma ideia consensual.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

"Climatgate" - Ciência ou Advocacia ?

Há quem se atarefe na defesa da pureza virginal da ciência. Mas convenhamos que se trata de uma ingenuidade. Como qualquer outra actividade humana, a ciência é uma instituição imperfeita. E quem está ao seu serviço constitui claramente um grupo de interesses. Na defesa desses interesses não é raro encontrar-se quem dispa a bata e vista a toga para subir a barra mediática e fazer a defesa das suas crenças ou das suas agendas. Nessas investidas usa como “cavalo de Tróia” a credibilidade que a ciência granjeou. Mas quando a usa corre o risco de a delapidar.

Para que o trânsito pela vida não derive para um exercício de suspeição sistemática e desconfiança permanente, há certas coisas em que precisamos de acreditar. Há quem lhe baste acreditar em Deus, mas há também quem prefira acreditar no que é da objectividade. Para estes a ciência é uma importante reserva de credibilidade. Contudo, a credibilidade da ciência não se constrói sobre o mesmo género de argumentação que suporta a crença. No entanto, por razões de vária ordem, é cada vez mais frequente que quem tem funções nas áreas cientificas apareça em público a fazer a defesa das suas teses como se da defesa de crenças se tratasse. Confrontados com esta critica respondem em primeiro lugar com a autoridade do seu estatuto e em segundo lugar com “evidências”e “factos”. Mas quais ?

As evidências não são todas iguais, evidências de correlação não podem ser lidas como evidências de causalidade, por exemplo. E os factos são interpretações. Ora enquanto à ciência deve importar o que remete para o rigor do que é verificável e repetível, a quem advoga basta o rigor formal que suporte determinada retórica. Aos não especialistas tolera-se alguma ambiguidade na abordagem destas distinções. Tolera-se mesmo que dêem alguma latitude aos conteúdos científicos na defesa de opiniões. Qualquer advogado faz isso. Coisa menos inócua é que biólogos, ecologistas, meteorologistas, ou de outra especialidade qualquer, assumam postura idêntica. Quer dizer, que sejam opinativos quando o que se requer é que sejam objectivos. A questão é que há quem precise de confiar na solidez do que lhe compete divulgar sem que tenha ( nem tem que ter ) condições para o confirmar, como é o caso de quem ensina.

Ora há áreas em que a promiscuidade do trânsito que se estabelece na fronteira entre ciência e advocacia se tem revelado como um dos aspectos que inquina o estudo, a percepção e a divulgação de temas que marcam o nosso quotidiano. Este estado de coisas é particularmente sensível nas escolas, particularmente nas temáticas ligadas ao ambiente. Já por si a ecologia ( como a metereologia ), enquanto áreas de estudo cientifico, apresentam dificuldades muito próprias. Perceber o funcionamento de sistemas dinâmicos não é exactamente a mesma coisa que estudar a anatomia de uma rã anestesiada numa bancada de laboratório. O ambiente é um processo permanente de interacções complexas, onde é raro que a mesma coisa se repita durante muito tempo. Esta permanência na mudança é evidentemente um problema quando se trata de objectivar. Não é fácil confirmar uma proposição feita sobre algo que não pára “quieto”, não se repete nem é repetível artificialmente. O que não é aceitável é que se pretenda ultrapassar estas dificuldades metodológicas cunhando de definitivo e sólido o que é fluido e provisório, de cientifico o que é especulativo.

A compreensão total do funcionamento dos sistemas naturais poderá estar para lá da nossa capacidade de os entender. Apoiados nessa premissa seria prudente reforçar a humildade e perceber que o que se vai adquirindo são visões parciais de parcelas delimitadas num tempo curto, para que não se caia em erros grosseiros, como acontece quando se tenta projectar o futuro com base no passado como se a mudança não fizesse parte da equação. Algo semelhante acontece quando se procura proteger uma espécie e se esquece o habitat, quando nos preocupamos com o individuo e esquecemos a população, quando escolhemos o bonito e negligenciamos o feio.

Há quem defenda que este género de derivas possa ser devedora do facto de as actividades ligadas à ciência se terem expandido para fora das suas fronteiras habituais, tradicionalmente confinadas a departamentos estatais ou instituições com fortes ligações ao mundo académico. Na actualidade, associações, ONG’s, empresas, fundações, contratam especialistas e fazem ou aplicam ciência. Contudo, nesta moldura, nem só as linhas de investigação não se tornaram aleatórias como a apresentação de resultados deixou de ser uma consequência natural da actividade desenvolvida, passando a ser um elemento de pressão sobre os próprios resultados, pois da sua avaliação pode depender a sobrevivência do projecto. E daí ? Melhorou a independência da ciência ? Alterou-se a sede de protagonismo dos seus agentes ? Piorou a objectividade ?

Pretender dar resposta a este tipo de questões é um exercício que acaba sempre por desaguar numa contabilidade inconclusiva. Quem quer que seja consegue angariar argumentos para qualquer das teses que defenda. É evidente que com a “secularização” da ciência a sociedade civil ganhou clara relevância na governança, e a possibilidade de fazer ciência independente existe. Mas a actividade cientifica é cara, e não sejamos ingénuos ao ponto de pretender que mesmo o mais insuspeito mecenato é imune aos interesses ou aos jogos de poder que inevitavelmente se organizam em redor dos processos de aquisição e gestão do conhecimento.Na verdade, o american way de “fazer ciência” difundiu-se. Quer dizer, generalizou-se a necessidade de qualquer projecto de investigação, conservação, preservação, procurar e criar as suas próprias condições de subsistência. Ora estes processos criam dinâmicas de dependência muito próprias e não são raras as vezes em que se dá uma inversão da lógica que os inicia, quando a finalidade da iniciativa passa a ser a manutenção duma estrutura ou o modo de vida dos respectivos actores.

Qualquer empresa privada ligada ao ambiente exemplifica esta situação. Ela tem de facturar para sobreviver, e por isso é natural que possa sentir dificuldades em compatibilizar a sua subsistência com a objectividade e o rigor nas matérias sobre as quais exerce a sua actividade. Qualquer área protegida ou qualquer ONG dedicada à conservação vivem esse mesmo tipo de constrangimentos. Uma vez instaladas elas criam rotinas e habituações, e é inevitável que sintam dificuldades em separar os interesses pessoais que se constituem da objectividade da respectiva esfera de acção.As ONG’s em particular, não se podem dar ao luxo de ter ao seu serviço maus defensores das causas que as movem. O problema é quando o estatuto de credibilidade que lhes é concedido pela dedicação, pelo empenho ou pela combatividade que revelam, se confunde com a validade dos critérios científicos em que se apoiam, pois em ciência a credibilidade não é uma questão de convicção, de empenho, de oratória, ou sequer de valores.

Sabe-se que a objectividade tem naturais dificuldades em se despir dos valores de quem a procura. Contudo, a confiança que se deposita na ciência deriva da expectativa de rigor e imparcialidade que dela se tem, e importa preservar essa reserva. Por isso ao cientista tudo o que se pede é que produza conhecimento de forma tão objectiva quanto possível, e que o divulgue de forma acessível, de modo a que o processo social e politico possa gerir os conflitos no sentido do interesse público quando se trata de tomar decisões. Nada mais que isso. Ainda que esteja coberta de razão e de boas intenções, não compete à ciência nem aos seus agentes definir o que é do interesse público nem colmatar com manipulações a informação para forçar os processos de decisão no sentido do que lhe parece certo. Quando a ciência toma o partido da crença e a defende, mesmo pelo lado do bem, manipula uma faca de dois gumes, pois se a crença se revela errada é a credibilidade de toda a instituição que se malbarata.