Estas questões não são novas. Há décadas que os limites do crescimento vêm sendo debatidos por grupos claramente marginais em relação à ortodoxia reinante. Mas as reflexões criticas que têm sido produzidas sobre esta questão confrontam as grandes crenças fundadoras do capitalismo e por isso não são benvindas na maioria das academias. Na verdade, como qualquer crença que se preze, também estas têm uma natureza ideológica com fundações culturais profundas que não é fácil mudar. Em boa parte isso poderá dever-se à insegurança associada aos sentimentos de orfandade que ocorrem quando não existem crenças alternativas suficientemente credibilizadas. Mas isso não deveria bastar para desencadear o auto-bloqueio que se verifica até nas inteligências mais argutas, levando-as a recorrer a automatismos defensivos onde se socorrem de argumentos de autoridade e se refugiam sob edifícios de explicações que de tão repetidos acabam por conduzir a maioria a adoptá-los acriticamente como se de uma realidade de substituição se tratasse. Porque na outra realidade, na do dia-a-dia, há um limite para a quantidade de casas, de carros, ou de outra coisa qualquer , que cada um de nós consegue consumir. A partir de um determinado momento, naturalmente variável de acordo com o contexto e o tipo de produto em causa, a dinâmica da oferta e da procura deixa de auto-regular os fenómenos económicos. Isso acontece quando entram em jogo outras variáveis, como o espaço ou as associadas ao bem-estar das pessoas. Para quem vive ou trabalha numa cidade congestionada, por exemplo, ter carro pode deixar de ser um acessório de conforto para passar a ser um problema e um desconforto, seja pela demora nos circuitos seja pela dificuldade de estacionamento. Por isso não admira que a opção de não ter carro esteja a ser claramente assumida por vastas faixas da população apesar de terem capacidade financeira para o adquirir. O caso é que este género de atitude vem gorar as expectativas de crescimento de uma economia que fez do sector automóvel um dos pilares da sua “prosperidade”. O mesmo se poderia dizer em relação à construção como em relação ao turismo.
Os instrumentos clássicos de gestão do capitalismo têm conseguido dar a volta a estas limitações recorrendo ao marketing para criar “novas necessidades” e ao efeito da “novidade”. A receita é conhecida e chama-se “fabricar novos sonhos”. Depois, apela-se ao “empreendedorismo” para que seja capaz de manter e fomentar essa dinâmica de reestiling permanente e que se apoia numa atitude que assume por irrelevante a utilidade do que se produz desde que se venda. Por isso se “criam” e promovem “novos destinos” turísticos, casas com vistas “exclusivas”, carros com tv no lado de trás do banco do condutor. Mas aqui entra a segunda questão: a capacidade dos recursos para manter uma resposta sempre em crescendo a este género de dinâmica, e há um que já é incontornável: a necessidade de energia para a manter. Ora a energia, como já se vai percebendo, não é um recurso ilimitado . Não só não é recurso ilimitado como é dela que depende o acesso à generalidade dos outros recursos, ilimitados ou não, que continuam a fazer parte do cardápio do quotidiano das nossas “necessidades”. No entanto, como vai sendo óbvio, este género de questões continua a passar à margem da discussão económica. Em seu lugar organizam-se “sessões de fogo-de-artificio” em redor de temas como as taxas de juro, os off-shores ou a regulação bancária. Coisas excelentes para distrair a malta mas que não resolvem nada de substancial, ou seja, de paradigma. Possivelmente isso sucede porque, como dizia há dias Lula da Silva no seu jeito muito peculiar, “…os pós-doutorados das grandes capitais do capitalismo mundial, ( os tais brancos de olhos azuis a quem já se tinha referido noutra ocasião…) que sabem tudo quando a crise é na Bolívia, na Argentina ou no Brasil, não foram capazes de prever nem se mostram capazes de resolver a crise que se instalou nos seus quintais, e com isso revelam aquilo que já se sabia: que afinal não sabem nada!”
