A tradicional divisão do mundo entre ricos e pobres tem sido ao longo da história alvo de investidas periódicas.
No período pós revolução industrial e durante boa parte do século passado, os movimentos sindicais desempenharam papel de relevo nesse confronto. Olhando em retrospectiva para essas lutas, há muito quem delas retire sinais de vitória do sindicalismo e argumente sobre a sua capacidade de mudar o Mundo. Legítima leitura. Mas o que se passou também pode ser visto sob outro prisma, o da infinita capacidade que o capitalismo revela para assimilar a seu favor dinâmicas que lhe sejam contrárias.
Ao constituir as massas como destinatárias preferenciais da sua própria produção e mantendo o controlo do paradigma que elas perseguem, através do marketing e da educação, o capitalismo criou a sociedade de consumo e tornou o cidadão comum refém das suas próprias reivindicações. De forma competente, a publicidade tem gerido as coisas de tal modo que transformou os conceitos de necessidade e de utilidade social, que deixaram de reportar para a realização do básico e passaram a exprimir a aquisição ou o reforço de um determinado status de sucesso através do supérfluo, mesmo que seja made in China e de imitação. Não será por isso de estranhar que a vanguarda do sindicalismo se tenha acomodado, deixando de parte as velhas reivindicações feitas de vontades de mudança e solidariedades internacionais, para se concentrar na defesa ou no reforço corporativo das comodidades burguesas entretanto adquiridas.
Ora as preocupações ambientais que têm vindo a ganhar notoriedade nos últimos anos, não têm na sua origem os mesmos grupos nem as mesmas lógicas sociais que dinamizaram os movimentos sindicais. Elas proliferam entre comunidades de um outro género que tiveram acesso a outro tipo de escolaridade e de informação e que, além disso, têm resolvidas as questões básicas da subsistência e por isso surgem com um caderno reivindicativo vocacionado para a discussão da vertente qualitativa da sociedade da abundância em que cresceram e existimos.
A estratégia reivindicativa também se alterou, e em lugar da greve pura e dura em que se acabava a dar fogo às portas da casa para acender o fogão e fazer a sopa de meia - batata do dia, o activismo ambiental dá preferência à acção simbólica. Pagamos uma quota à Greenpeace, eles atravessam uns botes entre as baleias de bossa e os baleeiros japoneses nos mares do Antárctico, e nós aplaudimos em casa. Ou seja, delegamos. Assim não fosse e já se teria dado pelos efeitos de uma arma de luta social pelo ambiente mais poderosa que qualquer greve operária do passado – a recusa ao consumo.
De resto, a ideia não tem nada de inédito. No mínimo remonta a Ghandi e à recusa dos indianos ao uso dos têxteis do País de Gales. Como é evidente, o contexto e os objectivos eram outros. O colonialismo não se afirmava por uma estratégia de consumo e a desobediência civil de Ghandi tinha contra si a lógica e o exército da administração colonial, mas ainda não tinha este exército psicológico que mina por dentro as motivações - o marketing pró-consumista. É ele quem nos inculca uma interminável lista de consumos “inevitáveis” sem os quais se tem por adquirido que não se subsiste.
Esta ideia de “inevitabilidades” que circula por dentro de uma certa atitude neo-verde, é de resto bem consolidada pelos média “amigos do ambiente”. Em Maio passado, por exemplo, um dos nossos semanários de referência resolveu “compensar” com plantações de pinheirinhos na Tapada de Mafra as emissões de CO2 “inevitáveis” que decorriam da publicação do jornal. E entre elas a do saquinho plástico e a dos intermináveis encartes publicitários a cores, tudo coisas que ninguém recusa.
Logo, por maioria de “razões”, são também “inevitáveis” e não se recusam, as embalagens de tara perdida de todo o género de refrigerantes ou de bebidas alcoólicas em formato individual, as garrafinhas de água das caldas, de Actimel, de leitinho achocolatado, de iogurte de vida longa, as doses individuais de massas pré-cozinhadas que é só meter no micro-ondas (ele próprio supra-sumo do “inevitável”) e já está, todas as embalagens individuais dos “couverts” da restauração, as gangas rotas de origem (jamais as rotas pelo uso, que pindérico…), os bifes embalados a vácuo, o grão e o feijão pré-cozinhados em magníficos frascos de vidro para deitar fora, as gangas “corsárias”(jamais cortar dois palmos às gangas rotas da época passada, que possidónio…), os aditivos anti-estáticos para os limpa pára-brisas, o detergente que cheira a rosas, a limão, a flores silvestres, e o que lava mais macio, e mais branco, e mais rosa, para não falar do dia dos namorados, ou das crianças, ou dos pais, das mães, e de todos os incontáveis exemplos desta interminável ditadura pró-consumista!
Por conseguinte, o primeiro dos três R’s, o de reduzir, sendo essencialmente um incentivo à recusa de pactuar com as dinâmicas irracionais da sociedade do consumo, é o último na hora das decisões.
Esta contradição terá a ver, digo eu, com o facto de a generalidade dos problemas identificados como ambientais serem latentes e não sentidos. Isto é, contrariamente aos salários de fome que determinaram boa parte dos grandes movimentos sindicais, os problemas ambientais referem-se a um panorama que a maioria dos ocidentais, independentemente do seu nível de informação, não sofre! Pelo contrário, beneficiam em comodidades com os consumos que estão associados a esses problemas!E sentem como problema, isso sim, a marginalidade que a sociedade da aparência impõe quando não se corresponde às expectativas do status. Assim, a maioria de nós tende a desvalorizar a importância dos comportamentos individuais concretos, deixando o exercicio da recusa para prática de minorias que acabam por encontrar nessa atitude uma espécie de exotismo identitário.
