segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

O R da Recusa


A tradicional divisão do mundo entre ricos e pobres tem sido ao longo da história alvo de investidas periódicas.



No período pós revolução industrial e durante boa parte do século passado, os movimentos sindicais desempenharam papel de relevo nesse confronto. Olhando em retrospectiva para essas lutas, há muito quem delas retire sinais de vitória do sindicalismo e argumente sobre a sua capacidade de mudar o Mundo. Legítima leitura. Mas o que se passou também pode ser visto sob outro prisma, o da infinita capacidade que o capitalismo revela para assimilar a seu favor dinâmicas que lhe sejam contrárias.



Ao constituir as massas como destinatárias preferenciais da sua própria produção e mantendo o controlo do paradigma que elas perseguem, através do marketing e da educação, o capitalismo criou a sociedade de consumo e tornou o cidadão comum refém das suas próprias reivindicações. De forma competente, a publicidade tem gerido as coisas de tal modo que transformou os conceitos de necessidade e de utilidade social, que deixaram de reportar para a realização do básico e passaram a exprimir a aquisição ou o reforço de um determinado status de sucesso através do supérfluo, mesmo que seja made in China e de imitação. Não será por isso de estranhar que a vanguarda do sindicalismo se tenha acomodado, deixando de parte as velhas reivindicações feitas de vontades de mudança e solidariedades internacionais, para se concentrar na defesa ou no reforço corporativo das comodidades burguesas entretanto adquiridas.



Ora as preocupações ambientais que têm vindo a ganhar notoriedade nos últimos anos, não têm na sua origem os mesmos grupos nem as mesmas lógicas sociais que dinamizaram os movimentos sindicais. Elas proliferam entre comunidades de um outro género que tiveram acesso a outro tipo de escolaridade e de informação e que, além disso, têm resolvidas as questões básicas da subsistência e por isso surgem com um caderno reivindicativo vocacionado para a discussão da vertente qualitativa da sociedade da abundância em que cresceram e existimos.



A estratégia reivindicativa também se alterou, e em lugar da greve pura e dura em que se acabava a dar fogo às portas da casa para acender o fogão e fazer a sopa de meia - batata do dia, o activismo ambiental dá preferência à acção simbólica. Pagamos uma quota à Greenpeace, eles atravessam uns botes entre as baleias de bossa e os baleeiros japoneses nos mares do Antárctico, e nós aplaudimos em casa. Ou seja, delegamos. Assim não fosse e já se teria dado pelos efeitos de uma arma de luta social pelo ambiente mais poderosa que qualquer greve operária do passado – a recusa ao consumo.



De resto, a ideia não tem nada de inédito. No mínimo remonta a Ghandi e à recusa dos indianos ao uso dos têxteis do País de Gales. Como é evidente, o contexto e os objectivos eram outros. O colonialismo não se afirmava por uma estratégia de consumo e a desobediência civil de Ghandi tinha contra si a lógica e o exército da administração colonial, mas ainda não tinha este exército psicológico que mina por dentro as motivações - o marketing pró-consumista. É ele quem nos inculca uma interminável lista de consumos “inevitáveis” sem os quais se tem por adquirido que não se subsiste.



Esta ideia de “inevitabilidades” que circula por dentro de uma certa atitude neo-verde, é de resto bem consolidada pelos média “amigos do ambiente”. Em Maio passado, por exemplo, um dos nossos semanários de referência resolveu “compensar” com plantações de pinheirinhos na Tapada de Mafra as emissões de CO2 “inevitáveis” que decorriam da publicação do jornal. E entre elas a do saquinho plástico e a dos intermináveis encartes publicitários a cores, tudo coisas que ninguém recusa.



Logo, por maioria de “razões”, são também “inevitáveis” e não se recusam, as embalagens de tara perdida de todo o género de refrigerantes ou de bebidas alcoólicas em formato individual, as garrafinhas de água das caldas, de Actimel, de leitinho achocolatado, de iogurte de vida longa, as doses individuais de massas pré-cozinhadas que é só meter no micro-ondas (ele próprio supra-sumo do “inevitável”) e já está, todas as embalagens individuais dos “couverts” da restauração, as gangas rotas de origem (jamais as rotas pelo uso, que pindérico…), os bifes embalados a vácuo, o grão e o feijão pré-cozinhados em magníficos frascos de vidro para deitar fora, as gangas “corsárias”(jamais cortar dois palmos às gangas rotas da época passada, que possidónio…), os aditivos anti-estáticos para os limpa pára-brisas, o detergente que cheira a rosas, a limão, a flores silvestres, e o que lava mais macio, e mais branco, e mais rosa, para não falar do dia dos namorados, ou das crianças, ou dos pais, das mães, e de todos os incontáveis exemplos desta interminável ditadura pró-consumista!



Por conseguinte, o primeiro dos três R’s, o de reduzir, sendo essencialmente um incentivo à recusa de pactuar com as dinâmicas irracionais da sociedade do consumo, é o último na hora das decisões.


Esta contradição terá a ver, digo eu, com o facto de a generalidade dos problemas identificados como ambientais serem latentes e não sentidos. Isto é, contrariamente aos salários de fome que determinaram boa parte dos grandes movimentos sindicais, os problemas ambientais referem-se a um panorama que a maioria dos ocidentais, independentemente do seu nível de informação, não sofre! Pelo contrário, beneficiam em comodidades com os consumos que estão associados a esses problemas!E sentem como problema, isso sim, a marginalidade que a sociedade da aparência impõe quando não se corresponde às expectativas do status. Assim, a maioria de nós tende a desvalorizar a importância dos comportamentos individuais concretos, deixando o exercicio da recusa para prática de minorias que acabam por encontrar nessa atitude uma espécie de exotismo identitário.


quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

O R do Meio


Reutilizar é uma ideia que aplicada à gestão de recursos tem um significado algo mais vasto que “usar outra vez”. Ela incorpora uma certa noção da possibilidade de um determinado bem ser usado várias vezes (durabilidade). Nesta medida, uma alcofa de empreita é mais reutilizável que um saco plástico do supermercado. E a simplificação de que se podem trazer destes para casa em barda porque depois servem para ensacar o lixo, distraiu-se na compreensão de que o R de reutilizar não aparece por mero acaso depois do outro R de reduzir na concepção da estratégia dos três R’s.

Existe uma propensão natural para remeter para unidades monetárias qualquer raciocínio em torno das relações custo/benefício. É dentro dessa lógica que tem vindo a ser formatada a nossa interacção com o mundo da economia. No entanto, como qualquer outra leitura monográfica, também a abordagem economicista do mundo é redutora.

É redutora porque remete a dinâmica da troca e a formação do preço para relações unívocas entre oferta e procura, escamoteia a questão central da repartição de “bens escassos” e com isso deturpa a essência mesma da ideia de administração de recursos limitados que a devia estruturar.

A distinção clássica entre bens de primeira necessidade e os outros diluiu-se. É difícil explicar a quem tem problemas permanentes de excesso de peso que o pão seja um bem de primeira necessidade. Esta é uma iniludível consequência da sociedade da abundância: instalou-se um género de feira popular em que, como dizia Eco, o Carnaval deixou de acontecer uma vez por ano e passou a ser todos os dias, pois só isso explica que o conceito de utilidade se tenha expandido ao ponto de incluir a escova de dentes eléctrica, englobando assim dentro dessa noção de valor o que é descartável! Só estas premissas podem explicar que a velha prática da tara recuperável tenha sido preterida pela perdida, e que a alcofa das compras tenha cedido inexoravelmente terreno à sua versão plástica descartável – o saco-painel de todas as publicidades!

A suposta racionalização logística ou o argumentário higiénico, teses rotinadas na defesa destas lógicas pós-modernas, revelam-se no entanto claramente insuficientes para explicar tudo o que se tem passado neste domínio. No caso das primeira, porque existe uma óbvia e nada inocente confusão entre o que é racionalidade económica e comodismo individual ou mesmo oportunismo empresarial. No caso da segunda, porque se sabe que as técnicas e os métodos de controlo de qualidade actualmente disponíveis, permitem facilmente resolver a reutilização de vasilhame, particularmente do vidro.

A racionalidade económica vigente gere-se em função de custos e benefícios monetários. Mais caro ou mais barato, mais ou menos lucrativo, são estes os critérios. Sustentabilidade, equidade e ética não são variáveis que façam parte de nenhum dos algoritmos conhecidos da modernidade económica. Assim, toda a organização espacial da logística económica se estruturou no sentido de não se reutilizar. E como em tudo, quando certas inércias se instalam, aumenta a dificuldade de lhes inverter o movimento.

Quando há trinta anos o leite que se consumia em Évora era produzido nas explorações leiteiras envolventes, concentrado e tratado na cooperativa de produtores locais, e a distribuição feita em garrafas de vidro modelo “vigor de litro", a recuperação do vasilhame era consequência da própria distribuição e a sua reutilização pacífica. Hoje, o leite produzido em Évora pode muito bem seguir a granel para Sanfins. São 800 km de transporte dos quais metade em vazio (a vinda do camião cisterna). Retorna depois de embalado a uma central de distribuição que pode ficar na Azambuja, antes de ser reenviado para o consumidor final em Bragança. Trata-se de uma logística distinta e o uso de uma embalagem reutilizável implicaria encargos que os agentes envolvidos preferem evitar, mesmo que o seu custo fosse incorporado – como sempre – na preço final do produto ao consumidor.

É pois verdade que estão instaladas certas lógicas de mercado em que o nosso papel como consumidor-reutilizador é difícil. Mas nem em todas. O caso do guarda roupa, do vestir e do calçar, é delas exemplo e dos tramados. Como se sabe, não é o estado de uso que determina nos dias que correm a renovação desses stocks domésticos, mas a moda. Usar o mesmo casaco mais que uma vez por semana é foleiro e usá-lo de uma época para a outra é pindérico. Que fazer para ganhar espaço antes dos saldos de fim de época? Doa-se a organizações especializadas na ajuda a países pobres! E há quem genuinamente dê este exemplo como uma excelente opção de reutilização! Ilustrativo autismo ou simples paliativo de consciência? Tanto faz, porque tem os resultados práticos pretendidos: satisfazer a necessidade de garantir uma renovação de indumentária que não belisque o status! Mas a lógica intrínseca à reutilização não pressupõe duplicar a produção do que ainda tem uso.

terça-feira, 8 de janeiro de 2008

RRR


A ideia surgiu assim. Mas tem sido praticada ao contrário.

Explico-me.

A ideia original para tentar travar a inenarrável produção de resíduos do nosso contentamento apostava na sequência “reduzir – reutilizar - reciclar”. Mas logo houve quem tivesse entendido que a ordem dos R’s era arbitrária e começasse por aplicá-la pelo lado que lhe dava mais jeito. Curiosamente o fenómeno tornou-se epidémico e a generalidade apenas recicla, se tanto.

Segundo as estatísticas especializadas, recicla-se cada vez mais. Outras estatísticas, também especializadas, não dão conta de que se consuma menos - pelo contrário. E claro que para consumir menos não há publicidade – pelo contrário. O que há são universitários que garantem sem pingo de ironia que quem recicle bastante e reutilize qualquer coisa (tipo acender a lareira com o Expresso de sábado) está dispensado de reduzir porque já fez a sua parte - juro que é verdade!

Anedotário à parte, a famigerada questão dos três R’s tem sido na prática reduzida ao último. E por uma putativa razão: reciclar dá dinheiro!

No entanto, o facto de a reciclagem se afirmar como negócio, não devia iludir quem pensa que está a resolver o problema que se propunha. Mas ilude!

Explico-me novamente.

A produção de resíduos não se pode simplificar num problema de tratamento de lixos. É, deveria ser, um problema cuja solução implica melhorar a gestão da lógica que os origina e que consiste na incorporação massiva de desnecessidades no quotidiano dos nossos consumos e na estrutura intrínseca desses consumos. Pior. Desnecessidades que são produzidas com recursos não renováveis, nomeadamente energia de fontes fósseis.

Como em quase tudo o que se passa actualmente no panorama da economia ocidental, os processos industriais querem-se em escala. Grandes unidades onde se concentram grandes meios técnicos reduzem ao indispensável a utilização de mão de obra e interagem em complementaridades a que chamam sinergias. Mas as sinergias entre respeitáveis empresas como a ValorSul e a Sociedade Ponto Verde têm da sustentabilidade uma concepção que se limita aos magníficos efeitos decorativos que o palavrão produz depois de impresso nos respectivos relatórios de gestão. Estas sinergias são financeiras, não são energéticas, e por isso não atacam o cerne do problema!!

Não ?! Então venham daí os custos energéticos associados a cada embalagem reciclada. E sem batota !

É que entre o processo de recolha separada, transportes de baixa densidade de carga, concentrações, triagens, redistribuições para tratamentos especializados e a reciclagem propriamente dita, há custos energéticos que se prefere omitir. Assim, as comparações que se publicam fazem-se entre papel novo e papel reciclado na fábrica, por exemplo. E cria-se o mito de que o papel reciclado (como qualquer outra coisa reciclada) representa uma economia significativa de energia. Não representa. Ele não se recicla sem o input de mais energia. E a economia comparada não é líquida. Mas consegue camuflar o problema de raiz que é a quantidade absurda de papel que se consome!

Apesar de o processo de reciclagem ser inteiramente justificável quando se reporta a recursos não renováveis, como é o caso dos metais, nem por isso ele deixa de se tornar perverso.

É que, criadas as infraestruturas para a reciclagem, mantê-las torna-se um problema de gestão que depende de fluxos continuados de recicláveis. Se não se produzir lixo suficiente, a unidade de reciclagem deixa de ser viável. E são já públicos os casos das que em Portugal já se têm visto obrigadas a importar lixos de países terceiros para evitarem fechar as portas. Elas podem de facto permanecer abertas e encerrar balanço com resultados positivos e impactos ambientais favoráveis. O problema é que o processo que as reciclagens desenvolvem se alimenta do que pretendia resolver, exige elevados inputs energéticos e as fontes permanecem as do costume - não renováveis !

segunda-feira, 7 de janeiro de 2008

Entreguem-lhes a Taça !


Ao fenómeno a que alguns gostam de chamar Al-Caeda , eu prefiro chamar conflito civilizacional.Uma visita à História que não seja de mera cortesia, leva facilmente a essa preferência. Existem formas diferentes e antigas de estar no mundo cuja conflitualidade ancestral o colonialismo e depois o neo-colonialismo ocidentais agudizaram. E há vastas zonas de contacto em que feridas nunca saradas de tempos a tempos se exprimem nas reacções historicamente típicas dos que não têm os meios para a guerra formal, e a que se convencionou chamar terrorismo.

Sobre o terrorismo é bom recordar que se trata de uma designação genérica fabulosa. A história está repleta de heróis que ontem eram terroristas. Aparentemente a conversão depende apenas de quem vence a contenda.

E nesta contenda Ocidente –Islão que está em curso, teremos de ser honestos e reconhecer que o adversário leva considerável vantagem.

Senão, vejamos.

Durante os últimos anos eles conseguiram o que em décadas não tinha sido obtido por todos os terrorismos internos juntos, desde a ETA ao IRA, passando pelas Brigadas Vermelhas, e,claro, sem esquecer os terrorismos ditos de libertação das ex-colónias, a saber, a generalização de uma paranóia securitária, ou como se deveria dizer em bom e corrente português, o medo irracional e generalizado típico de todas as cobardias.

Câmaras de vigilância por tudo quanto é canto, escutas telefónicas, países onde só se entra descalço, transportes públicos cuja frequência deve estar prestes a requerer prévia palpação rectal, décadas de multiculturalismo despejadas pelo esgoto das séries americanas de referência, a fobia por barbudos morenos, a disponibilidade para denunciar o barbeiro da esquina que se exprime numa língua que não se entende, e, the last but not the least, o Paris-Dakar, esse ícone da infinita possibilidade do ocidental usar o mundo como e quando bem lhe apetecer, cancelado!

Basicamente recolhemos à torre de menagem em atitude defensiva, fomos postos em sentido e sitiados pelo nosso próprio pavor da morte mediática, completamente desfasados de uma realidade concreta onde se continua a morrer mais de acidentes rodoviários que de tudo o resto.

Perante este panorama, sou levado a concluir que os últimos genes guerreiros do ocidente devem ter-se extinto nos campos de batalha das duas últimas grandes guerras. Reproduziram-se os outros - os medrosos - que para travarem as suas guerras recrutam mercenários. Veja-se a composição da generalidade das forças de interposição da ONU. Veja-se a quantidade de mexicanos ou porto-riquenhos nos exércitos americanos, aliciados pelo bónus de, em caso de sobrevivência, adquirirem o direito de residentes-lava-vidros dos arranha-céus do american-dream.

Portanto, em nome do fair-play, proponha-se uma trégua, convoquem-se os capitães de equipa e o Bush que entregue a taça ao Laden! Esta, já ele ganhou! Vamos à próxima!

sábado, 5 de janeiro de 2008

O Conforto dos Patrícios

Sei por experiência que um dos temas mais agrestes para se abordar é o da energia. Talvez isso se deva ao facto de não materializarmos a sua constante presença nos nossos automatismos quotidianos, ou de o fazermos mas preferirmos não pensar nisso porque ninguém gosta de se pôr em causa.
No entanto, são as trocas de energia e as suas mudanças de estado que mantêm o mundo em movimento. Desde sempre a humanidade tem vivido subordinada à ditadura da energia e têm sido as soluções que as sociedades têm encontrado para a controlarem os verdadeiros motores da história.

É normal que a nossa noção de história se confunda com a dos passados documentados. Por isso a documentação romana sobre métodos e práticas agrícolas é frequentemente referida como a primeira estratégia organizada de controlo da produção da energia pela via da racionalização metódica da agricultura. Hoje sabe-se que eles se limitaram a passar a latim conhecimentos herdados de egípcios e mesopotâmios, entre outros, mas não é esse o meu ponto.

A questão é que muitas vezes caimos na simplificação de atribuir o sucesso de uma civilização a uma ideia e descartamos a forma como ela foi posta em campo. No caso concreto dos romanos é bom recordar que os registos históricos documentam à saciedade a forma como era usado o trabalho escravo. Basicamente, foi este aporte de energia exterior ao sistema que lhes permitiu a prosperidade que os patrícios festejavam em infinitas orgias, ou nunca teriam passado de uma sociedade rural remediada.

É evidente que o modelo não foi exclusivo dos romanos, tendo sido usado por muitos outros antes e depois deles, mas fiquemos por aqui porque basta para o que pretendo.

A grande novidade da revolução industrial em termos civilizacionais, é que sem mudar as regras do jogo mudou as peças no tabuleiro de xadrez, isto é, aquilo que até ali tinha sido resolvido a trabalho braçal ou com o binómio homem-animal, passou a ser resolvido pela máquina a vapor e logo de seguida pelo motor de combustão interna e suas variantes.

Estas inovações tecnológicas trouxeram às sociedades que as passaram a usar um contributo decisivo para o salto civilizacional que registaram, a saber, o controlo sobre quantidades enormes de energia e a capacidade de as usar em potências, velocidades e escalas antes inimagináveis.

Mas as diferenças metodológicas entre o Ocidente de hoje e a Roma de há dois mil anos ficam-se por aqui, pois no essencial ambas suportam o seu ascendente no controlo e incorporação no seu sistema social de uma fonte externa de energia. Distingue-as no entanto a substância dessa fonte. É que enquanto a energia extra usada pelos romanos era renovável, pois os escravos reproduziam-se ou conquistavam-se, os combustíveis fósseis não são renováveis ou, em rigor, não o são em razão proporcional à que os usamos.

Portanto, quando Pimentel e outros resolvem pôr em balanço a energia que usamos vs a energia de que necessitamos, contabilizando nesses cálculos as fontes externas não renováveis incorporadas no processo, não estão a misturar alhos com bugalhos. Estão antes a alertar-nos para os limites objectivos do modelo civilizacional em que existimos.

Talvez valha a pena clarificar que um homem mesmo deitado é uma máquina que está permanentemente a usar energia. Usa-a para respirar e para manter os vários subsistemas metabólicos em funcionamento. Como não é auto-produtor, precisa de a retirar constantemente de um reservatório qualquer. No último século, em vez de se maçar a gerir Spartacos e outros que tais com irascíveis crises de personalidade, o sapiens moderno construiu gasolineiras e vai lá abastecer. O problema é que o reservatório não volta a encher!

O europeu médio teve em 2007 um consumo per capita equivalente a cerca de quatro toneladas de petróleo (pouco mais de metade do americano). Mas há uma conta que mesmo o europeu médio que gosta de acordar para o lado esquerdo detesta fazer, que é multiplicar este consumo pela população mundial! É que o resultado é uma potência de dez tão absurda que não há cabecinha pensadora que consiga vislumbrar onde poderiam estar os recursos para a viabilizar!

E é neste ponto que, a bem da necessária convergência entre o discurso e a acção politica, temos de nos resolver. Podemos simplesmente discutir no conforto da blogosfera se a melhor escolha dos americanos é o Obama ou a Hillary, efabular em redor de eufémicas soluções fiscais para reduzir a dependência do petróleo, ou mesmo sobre as formas de energia que deram origem ao Universo. Ou então fazemos alguma coisa bem ao nosso alcance como consumidores, e começamos por descartar da lista de compras a interminável panóplia de todo o tipo de supérfluos em que, de facto, se estribam as assimetrias que criticamos de forma tão violenta às mesas dos Majestics do nosso comodismo, típico de prósperos patrícios.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2008

Cash-crop

Quando a dose diária de corn-flakes chega à nossa mesa do pequeno almoço para nos fornecer 10 % da energia que o nosso metabolismo irá gastar durante o dia, ainda estamos a acabar de acordar ou a pensar no que vamos fazer à tarde. Por isso é normal que não se comece a ler os rótulos, ou a apreciar a embalagem. Se o fizéssemos seria fácil constatar que estamos a consumir milho produzido na América do Norte, transformado em Itália, embalado em França com caixas produzidas na China, ou que o leite foi ordenhado em Odemira antes de seguir viagem para Vagos, para ser embalado em pacotes fabricados na Polónia, antes de regressar a Odemira para ser consumido.

Contas feitas, estas voltas e reviravoltas de los alimentos viajeros levam a um resultado bem simples: a quantidade de energia que se gasta no transporte, embalagem, distribuição e logística, apenas do que é imputável aos corn flakes do pequeno almoço, é superior à necessidade de energia diária de um adulto normal.

Um Senhor que dá pelo nome de David Pimentel, português e há anos radicado nos EUA, onde ainda labuta em Cornell, resolveu há tempos aplicar um método de análise inovador às performances do Ocidente no aprovisionamento das suas necessidades alimentares.

Os resultados que obteve resumem-se assim: se em lugar de euros ou dólares a alimentação nos custasse calorias, há muito que tínhamos aberto falência. Porquê ? Porque desde as técnicas que utilizamos para os produzir, ao que fazemos para os utilizar, passando, claro, pelo que se faz para os comercializar, gastamos uma quantidade muito maior de energia do que aquela que esses alimentos efectivamente nos fornecem.

A lógica do sistema económico que tem prevalecido tem sido a de que o valor de todas as coisas se mede em cifrões. Consequentemente a rentabilidade do que se produz para nos alimentarmos mede-se em balanço contabilístico. A esta dinâmica da agricultura houve quem chamasse de cash-crop, e é um desastre como critério de gestão de recursos.

É um desastre porque as fontes da energia investidas na cadeia alimentar não são renováveis e basicamente, o Ocidente tem-se comportado na gestão dos recursos energéticos a que tem tido acesso, como um rico herdeiro que resolve desbaratar a fortuna que herdou numa existência de play-boy.

Quando se chega a este ponto aparece sempre quem culpe uma multinacional ou um governo qualquer . Mas a verdade é que se esta dinâmica existe e se mantêm, isso se deve às nossas opções individuais enquanto consumidores.

Explico-me.

Quando em vez de se fazer o iogurte em casa se compra no supermercado o conjunto de quatro embalagens de plástico envolvidas no respectivo painel promocional de papel panfletário das virtudes da marca, a atitude subsequente ao consumo de separar para reciclar é correcta mas tardia, porque no acto da compra já se alimentou uma lógica que é ela própria a definição de insustentabilidade.
A noção de sustentabilidade ( que os primeiros ecologistas, como Odum, chamaram de “perenidade” ) tem antes de tudo a ver com a forma como um sistema gere a energia que necessita para se manter em funcionamento. E não há reciclagem nem bio-combustagem que nos valham se todos os dias consumimos muito mais energia do que aquela que somos capazes de obter e armazenar de forma renovável.

Voltando ao exemplo do iogurte, repare-se que a origem da ideia de pegar em leite fresco e o transformar em iogurte, manteiga, queijo fresco, queijo curado, não tem nada a ver com introduzir o critério de “variedade” na dieta alimentar. São lacticínios e ponto final. Essa ideia é , isso sim, uma estratégia de prolongar a vida útil de um produto – o leite – que por natureza a tem curta. Repare-se: depois de ordenhado da vaca, quando metemos o leite no frigorifico para o conservar, já estamos a fazer batota. Sem frigorifico pode nem sequer durar 24 horas. Mas como iogurte ou requeijão pode durar três dias. E como queijo curado pode durar um ano. Tudo isto sem que no processo se introduza mais energia que aquela que despendemos em confeccionar o queijo e que de qualquer modo recuperaremos quando o consumirmos.
A mesma lógica se aplica aos "produtos de época" importados da Nova Zelândia ou produzidos nas estufas de Almeria, cujo custo energético é algo de obsceno !

Muitos dos problemas económicos, sociais e de governação com os quais barafustamos todos os dias, têm na sua origem coisas tão simples como o gesto de meter no carrinho de compras do hipermercado as embalagens quadruplas de iogurtes de longa vida garantida por inevitáveis cargas de antibióticos, ou figos frescos importados por via aérea desde o Brasil em contentores refrigerados. Nuns casos faz-se isso por desconhecimento. Mas noutros faz-se pela mesmíssima razão que nos leva a fazer muitas outras coisas: comodismo !

terça-feira, 1 de janeiro de 2008

Los alimentos viajeros


Aqui há uns tempos li algures um excelente artigo sobre géneros alimentares aditivados, tipo leite com cálcio extra, pastilha elástica com vitaminas, e outros que tais. Infelizmente esqueci-me do nome da nutricionista que o assinava. Mas retive que não os recomendava, aconselhando em seu lugar o recurso a uma alimentação variada e a produtos de época.

Na altura questionei-me se ainda se saberia o que era isso. E aqui há dias num grupo de universitários deixei cair essa questão. Perante um leque de frutos e legumes que ia das peras aos tomates e das maçãs ao feijão verde, a opinião foi consensual: eram todos produtos de época!

Confirmaram-se pois as minhas piores suspeitas. Ser de época passou a ser sinónimo de ser “fresco”, e “fresco ” é qualquer produto alimentar não congelado ou previamente submetido a qualquer outra técnica de conservação óbvia. Nesta peculiar acepção, as peras ou as maçãs produzidas no verão e conservadas com frio e fungicidas para serem consumidas o ano inteiro, são tão “frescas” como os tomates ou o feijão verde produzidos em estufa em Janeiro. E estes, não só são frescos como são “ de época” em qualquer altura, tal como são de época são os figos frescos vindos no avião da véspera desde o Brasil.

Vale a pena clarificar isto ?

Acho que sim.

A generalidade dos produtos de origem vegetal tem um ciclo de vida e uma período de maturação que dependem do clima e em particular da temperatura. Nos climas tropicais, em que as temperaturas têm reduzidas variações ao longo do ano, algumas plantas, sobretudo as anuais, podem não ter um período de maturação definido ou até ter vários. Mas nos climas temperados com estações bem marcadas, como é o caso do nosso, a generalidade dos frutos, por exemplo, apenas amadurece entre finais da Primavera e finais do Verão. Por isso a época das uvas entre nós é em Julho/ Agosto. Mas na África do Sul, com um clima semelhante, vai ser agora pois o Verão deles começa em Dezembro.

Vai daqui que as uvas da África do Sul que já vão aparecendo nos nossos mercados são de facto de época. Mas da “época” deles.

Algo diferente se passa com o tomate fresco que se consome agora. A época do tomate também é o Verão, por isso os que se produzem neste momento no país só podem ser de estufa e não são de época.

É graças à técnica agrícola de forçagem em estufa, que consumimos tomate fresco fora de época . E podemos também agradecer à eficiência dos sistemas de transportes de refrigerados podermos aceder em Janeiro às uvas colhidas uma semana antes nas vinhas sul africanas. Mas o que é que nos permite forçar culturas a produzir fora de época, ter frutos conservados em refrigeração desde a sua época, ou ainda importar frutos frescos de épocas antípodas ?

Coisa simples: o petróleo!

E qual é o problema ?!